Acabei, há uns dias, a leitura de Circe (Madeline Miller, Planeta, 2019) e demorei a conseguir escrever, assim, de coração distanciado. Na verdade, a gente bem sabe que não há leitura que não seja política. Bom, se a gente não sabe, ao menos deveria: Edward W. Said, numa lindíssima retomada de Gramsci, já versou aquela ideia que levo para o resto da minha vida: ninguém inventou um método funcional de separar o erudito da vida, a política da literatura. Ainda bem. Se eu ainda acredito em teoria literária é porque não vejo, mesmo que eu faça uma análise puramente estética, algo que se separe da ética.

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É com esse pressuposto que começo o texto.

Isso é algo que os deuses e mortais compartilham. Quando jovens, pensamos que somos os primeiros a ter sentimentos no mundo (p. 42)

A história é, como indica o título, a narrativa da vida de Circe, a – até então – secundária personagem da Odisseia, a deusa e bruxa, responsável por transformar os homens de Odisseu em porcos, revelando sua verdadeira identidade. A narrativa não se passa  apenas no encontro entre Odisseu e Circe (muito embora ele obviamente apareça), mas desde sua infância, construindo – de maneira literalmente milenar – a personalidade dessa personagem tão intrigante, que tem características peculiares enquanto deusa: não é tão bela, não é tão forte, não é tão amada.

Eu ansiava por dizer a ele que fora eu quem lhe dera tal dádiva, mas vi como o agrava acreditar que sua divindade era inteiramente sua, e não queria tirar isso dele.

Circe é uma figura feminina que descobre seu poder e se relaciona com homens que não sabem lidar com isso. Seria clichê se ainda não fosse tão raro encontrar com isso na literatura, ainda mais trazendo consigo a herança da tradição mitológica grega, base do nosso patriarcado. E mais: o que me agrada demais é o modo como essa política de reescrever a personagem feminina não seja feita de maneira caricata “a bruxa fodona” ou “a destruidora de homens”: Circe é um personagem humano (ainda que deusa, veja bem que contradição), profundo, complexo e múltiplo, tal qual um humano.

E bruxaria nada mais é que justamente essas labutas enfadonhas (p.79)

O trabalho de oposição entre as figuras femininas foi feito por alguém muito delicado no que diz respeito à construção de personagens femininas. No começo, a oposição com a irmã Pasífae e com a mãe, ambas destacadas pela beleza, me fez temer que a velha máxima do “bonita versus inteligente” reaparecesse. Mas não! Todos os estereótipos femininos foram constantemente construídos e quebrados e, sem querer dar muito spoiler, o melhor de todos está na figura de Penélope, rainha de Ítaca.

Eles não sabem suportar a dor. Não são como nós. (p.137)

Há mais de uma cena de parto nesse livro.  Há puerpério real. Há uma dor na maternidade, uma honestidade no retrato do sofrimento, na necessidade de entender a extensão de onde começa o filho e termina mãe. Não sou mãe, queria saber a opinião de uma ao ler o livro, mas o pouco que acompanho do debate e da romantização da maternidade, me fez ver o livro com uma delicadeza narrativa e um cuidado pouco comum em fantasias.

É senso comum que mulheres são criaturas delicadas, flores, ovos, qualquer coisa que possa ser esmagada em um momento de descuido. Se alguma vez acreditei nisso, não acreditava mais (p.289)

Eu gostei desse livro porque amo mitologia. Eu gostei desse livro porque ele me fez repensar politicamente o ser mulher. Eu gostei desse livro, também, porque ele dormiu e acordou comigo por vários dias, e, assim, eu fui me enxergando na bruxa, na deusa, na mulher, na mãe; em Circe. Que bom seria ter lido antes.

As passagens em itálico foram retiradas da tradução brasileira de Isadora Prospero. Essa resenha é uma parceria com a Livraria Leitura, de Campinas. O livro encontra-se à venda na loja.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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