O bacilo da peste procurará outra cidade feliz e necessitada para ensinar. É mais ou menos com essas palavras que Albert Camus finaliza sua clássica obra existencialista de nome autoexplicativo, A peste. É claro que há um clichê óbvio em citá-la como atual, mas, vejamos: ela é absolutamente atual. Não porque vivemos, em maior ou menor medida, um momento de “peste” ou pandemia – infelizmente, diferente da bubônica, até então desconhecida – mas porque, enquanto humanos que somos, sentimentos uma necessidade maior que todos nós de formular narrativamente essa experiência (a Peste, de acordo com o enredo ficcional, é resultado dos relatos dos concidadãos, unidos pelo Diário de um deles e organizado e reescrito por um médico, por Dr. Rieux).

Foto 1 - Livro - A peste (Novo projeto)

 

A peste, edição de Record

Para a maioria de nós, leitores de fábulas e parábolas bíblicas, muito antes de sermos leitores de qualquer outra forma narrativa, as histórias têm moral. É preciso aprender algo. É quase irônico citar um existencialista para falar em sentido para além do absurdo da existência, mas nós não temos culpa se, ao final, ele mesmo nos diz que o bacilo da peste se faz necessário. Afinal, necessário para quê?

Para atingir uma suposta igualdade, na doença todos são iguais – formulou uma pessoa famosa por se exercitar em rede social de fotografia. Para conscientizar o planeta sobre o desgaste ambiental que estamos promovendo enquanto espécie – sentenciaram alguns ambientalistas. Para sermos castigados divinamente ou por entidades sobrenaturais – diriam determinados crentes. Há inúmeras hipóteses. E abstendo-nos de qualquer julgamento sobre elas, a questão retorna ao necessário: e por que é preciso aprender algo? Porque é assim que formulamos a maior parte da nossa experiência narrativa.  E porque toda narrativa, muito antes de mim já afirmava Paul Ricoeur, é uma narrativa de si.

Seria tautológico, porém, dizer que buscamos por moral porque aprendemos com narrativas pedagógicas.  Se assim o fazemos, é porque as narrativas pedagógicas construíram a humanidade e dão sentido à formulação do que entendemos por humano. Daí a função essencial da arte: nos manter com esse estatuto de singular que é tão afável à espécie.

Somos singulares, é verdade. Nossa ausência circulando por aí é capaz de modificar o ar e a poluição. Especiais? Eu não diria tanto. De todas as escolhas feitas por nossa espécie, ficcionalizar é, certamente, a melhor delas. Inutilmente, ficcionalizamos narrativas. Criamos deuses que nos curam e nos matam; criamos estruturas sociais; pela ficção, criamos moedas e as guerras que delas provêm.

Mas criamos ficções ainda mais complexas, de fuga: espaços possíveis de viver, que vão do paraíso cristão ao melhor cenário de Thomas Morus, passando por privilegiados palcos socialistas e projeções nostálgicas com elfos na Terra Média.

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Foto por Yaroslav Danylchenko em Pexels.com

A gente sempre precisou fugir, isso só nunca esteve tão gritante.  Era óbvio que maratonar uma série idiota sobre um roubo entre o bem e o mal sucedido era um escape de uma rotina possível para uma impossível. Mas quando a rotina é impossível pelo massacre, esse escape se torna quase sagrado.

Há quem fuja para cenários piores. Nas plataformas de streaming, os filmes de horror e pós-horror são os mais acessados. E ficcionalizar um mundo que faça o seu parecer mais palatável também não é um afago?

Todos contamos histórias. Desde o primeiro minuto do nosso dia. Construímos enredos que foram abruptamente cortados por essa situação, que tirou da gente o principal para nossa farsa de existência continuar existindo sem incômodo: os demais personagens.

A solidão escancara o palco, a cortina e derrete demais a maquiagem. Somos seres da ficção.

Mais que isso: somos uma espécie absolutamente descartável para o planeta. Todavia, enquanto existirmos, é bom que a arte dos salve. Don´t touch, it´s art nunca foi tão literal.