Não é que eu não tenha me esforçado. Eu me esforcei, por muito tempo. Não é a coisa mais confortável do mundo assistir aos pronunciamentos do presidente, mas se eu queria conseguir atingi-lo com telepatia, ao menos que eu o visse, não é? Não funcionou. Tentei acompanhá-lo em ao vivo em cadeia nacional, em lives do Instagram , vi até vídeo antigo. Por mais força que eu fizesse com meu cérebro exausto da quarentena, eu não o atingia. Nem uma pontadinha na cabeça, nada. Eu cheguei a desconfiar que os desencaixes das máscaras eram causados por mim, mas não. Era só incompetência dele. Aliás, o limite tênue da minha inabilidade enquanto tentativa-de-bruxa-telepática e da incompetência dele enquanto ser humano atrapalhava meu plano. Era preciso recorrer a quem foi melhor que eu nisso. Alguma bruxa emérita dando curso online de telepatia? Se eu descolasse um zoom, gratuito que fosse, para 40 minutos de como atingir o presidente à distância talvez… Mas nada disso.

De que me servia a franja feminista e o pós-doutoramento em brigar na internet se ali, bem na minha frente, estava o meu alvo e nada podia ser feito? Recorri ao reduto único em que a minha vítima não poderia me vencer: os livros. O serviço de entrega de livros foi rápido e em mãos eu tinha os meus manuais de bruxaria em edições claramente caseiras. Adivinha? Não tinha nada sobre como matar presidentes por telepatia.

Quando decidi desistir, ouvir uma música e relaxar, a ideia veio. Tinha botado Jailhouse Rock  para tocar, pensei que se eu fosse realmente uma potencial telepata eu não me distrairia tão fácil com Elvis. Elvis e sua pélvis sempre me comoveram em partes do meu corpo que eu desejaria ter mais controle. ELVIS E SUA PÉLVIS. A ideia estava dada: o que me faltavam eram alguns elementos mais concretos de sacrifício. Se eu tivesse os elementos certos para um ritual e as palavras corretas, eu faria qualquer coisa: de um golen de Borges até um assassinato à distância.

Vejam: o que seria necessário para matar um presidente com aquele arquétipo? Uma cabaça de um virgem ultraconservador. É LÓGICO. O plano necessitaria de disfarce e tempo. Com minhas tatuagens e posts seria facilmente identificada. Usei a quarentena a meu favor: deixei a franja de feminista crescer. Fechei o instagram. No aplicativo, defini-me como a Sara Winter do interior paulista e não demorou muito para eu conseguir um encontro com um furador de quarentena pró-integralismo geração Z.

O encontro foi rápido, falei uma meia dúzia de clichês que aprendi a combater ao longo da vida. Simulei o fetiche bdsm e, quanto tinha o rapaz amarrado: saquei meu pedacinho de arame e desenhei o modulei um pentagrama e apoiei na sua barriga. Minha faca cortou-lhe a cabaça, enquanto eu repetia na mesma entonação aprendida com “Jovens Bruxas” nos anos 90: Bimba birimba a mim que diga: taco de arame, cabaça, barriga. Toda Força para atingir o genocida.

Embora o rapaz tenha sobrevivido, não sem perder um pouco de sangue, o presidente caiu. Na manhã seguinte, seus pronunciamentos começavam a mudar de tom. Claramente não era mais ele, mas um fac-símile. Acordo com o centrão, uso de máscara, tom menos alarmista. Houve até demissão em função de currículo. Estava óbvio que tinha matado o presidente e a corja de apoiadores havia substituído por um dublê que não conseguia encarnar a violência peculiar.

Vocês podem imaginar a minha frustração. De que adiantaria conseguir me livrar do presidente se a estrutura que o mantinha – morto, é verdade – de pé era tão maior? Eu só tinha aprendido a matar um genocida, não um governo inteiro.

Cortei minha franja, voltei para internet. Desisti. O que me restava era o único consolo da minha pontual vitória: Elvis não morreu, o presidente sim.

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O texto acima foi escrito baseado na proposta da Revista Piauí: encaixar uma frase e um elemento surpresa no texto.
A desse mês era: Bimba birimba a mim que diga: taco de arame, cabaça, barriga.
Elemento: Elvis e sua pélvis.