Poeminto

Pronomes

Uma vida inteira me construindo para ser minha

E você vem e diz: sua

Minha, minha, infinitamente minha

Uma vida inteira dizendo que não dele, nem dela

Mas minha

Uma vida inteira dizendo que sou de ninguém

Sem nossos ou nossas

Cultivando em silêncio o possessivo meu.

Não dele,

Nunca dele.

Minha!

Mas sou

Minha, minha, inexoravelmente minha

Tão minha, tão livre

Para ser – na beleza do que é você –

Sua.

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Cartas d'ela.

O último pôr-do-sol

Tenho prestado especial atenção ao pôr-do-sol, bem que você reparou. Eu acho linda a transição da luz e as cores no céu. Cada dia descubro uma cor e combinação diferente e parece que nunca é igual. Nunca é igual. Mas não os mesmos personagens sempre? Um céu, um sol, um cansaço de fim de dia? Mas todos os dias o céu parece outro céu, um novo céu. Nunca é igual. Nem a boca, nem o beijo, nem quando a gente acha que já decifrou cada pedaço do corpo um do outro, não é igual. Eu descubro de novo um jeito novo de gostar de você. E o céu segue escurecendo gradativamente, deixando entrar a luz bonita no quarto, que deixa você ainda mais (mais?) bonito.

Tá tocando Lenine de novo. Você também reparou que eu encasquei com esse homem.

Escuta isso aqui:

No dia em que ocê foi embora
Eu fiquei sentindo saudades do que não foi
Lembrando até do que eu não vivi
Pensando nós dois

Sofro de saudade antecipada dos dias que a gente passou longe e que eu, pelo caso do acaso, vi tanto pôr-do-sol lindo e não fiz nada, não senti nada, não disse nada. Enquanto eu sentir essa necessidade doida de estar mais aí, mais aqui, mais a gente: eu vou me culpar por ter perdido meses do seu “demônia” ou “diaba”, por não ter cruzado os meus dedos com os seus sempre que desse. Por não ter te acarinhado até dormir depois de cada pôr-do-sol que eu sequer notei.

No dia em que ocê foi embora
Eu fiquei sozinho olhando o sol morrer
Por entre as ruínas de Santa Cruz
Lembrando nós dois

Agora, eu vou reparar em cada pôr-do-sol. E se fizer chuva, aposto que vai ser lindo ver o desenho dos raios no céu. Pode ter prédio, grade ou mar. Enquanto houver um resquício de lusco-fusco, eu vou abrir um sorriso. Vou lembrar que o dia morre e nasce de novo, e desde que ele nasça com você aqui, vai estar tudo bem.

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Cartas d'ela.

Cause you feel like home

Odeio me sentir com energia baixa. É como se o mundo tivesse passando numa velocidade diferente daquela que eu estou conseguindo seguir, então,de um jeito ou de outro, eu me sinto um tanto perdida. Tem sido pouco recorrente que eu me veja assim, mesmo porque a impressão que eu tenho é que eu estou exatamente no lugar certo desde que você chegou e parou por aqui. Não tem tempo errado enquanto houver esse encontro de passos. Às vezes, eu só queria morar aí dentro. Parece ter tanta paz aí. Acho que a impossibilidade de ser frágil me deixou em silêncio muito tempo. E, de repente, agora que eu tenho colo, fico sem saber como sair dele. Um pouco paranóica, talvez. Eu diria até meio burra, coisa que nunca soube como assumir. Eu, que tinha me esquecido que é possível cuidar e ser cuidada, tô querendo seu cuidado todo só pra mim. Um pouco possessiva, me desculpa. Mas tem dias barulhentos demais. Tem aulas doloridas demais. Tem cobrança demais. Expectativa demais e eu só não sei como lidar com tudo. É como seu eu estivesse por horas secando uma cachoeira. Odeio me sentir impotente. Odeio que me coloquem numa posição de competição, porque eu sempre caio nela e me afogo e machuco só a mim mesma. E aí tem você. Tem o mundo monstro e tem você. Tem o mundo dor e tem você.Sabe quando tá tudo um caos, todo mundo te pedindo mil coisas e a vontade desesperada que da é correr para o silêncio de um quarto escuro e fingir que não existe mundo?

Você é meu quarto escuro.

preto

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Cartas d'ela.

ciclo 1

Acho curioso quando as pessoas vem me falar dos textos que eu escrevo para você, sobre como elas se reconhecem infinitamente. Duas coisas óbvias me vêm à mente: como a gente segue os mesmos ritos culturais sobre o amor e sobre o amar e que, ainda assim, sobrevive algo muito anterior a isso.

Você viu, comprovadamente no meu exame de habilidades, que linguagem é a minha maior habilidade: eu me comunico bem, eu sei dizer o que eu quero ou sinto, frequentemente. E mesmo você estando deitado ao meu lado nesse minuto – dormindo todo torto – eu sofro de uma incomunicabilidade imensa sobre o que eu sinto. Eu entendo com clareza porque a filosofia sempre recorreu à literatura para falar de amor: sem metáfora, sem comparação, fica incomunicável. Não cabe em nenhuma construção sintática.

Então, por causa da data e porque é carnaval (ainda é?), eu resolvi listar as últimas que me vieram à cabeça: sabe o que você é? você é aquele jato gelado no meio do bloco: eu não sei lidar, nem pra onde correr, mas é aparentemente tudo que eu preciso na minha vida. Você é o banho de água quente e sabão depois de um dia de suor, glitter e cerveja: traz um monte de conforto. Você é o prato de comida de verdade, bem servido depois de dias comendo besteira pra lá e pra cá.  Você é uma coca na ressaca, uma bebida gelada doce quando a comida tá salgada. Você é um chocolate na tpm, uma espreguiçada longa de manhã. Você é o céu quando o sol se põe na pista, tocando a minha música favorita no carro. Você é a vontade de parar o mundo só mais cinco minutinhos pra nunca mais sair dessa posição. Você é mais bonito que uma bateria de mulheres tocando para os orixás. Mais bonito que o asfalto cheio de confete. Mais bonito que sentir isso que eu tô sentindo.

Você é você e o seu abraço. Você é você e toda a felicidade que você me traz.

Feliz dia do amor, feliz dia seu.

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Cartas d'ela.

Não solta da minha mão

Andando pela rua a qualquer hora da tarde eu notei que, quando estou sozinha, tendo a esperar uma pessoa resolver atravessar a rua para que eu vá também. Às vezes não o faço, mas fico confortável quando sim. Sou meio desajeitada e já quase morri atropelada um sem número de vezes. Notei que eu tenho ímpetos de pegar na mão de quem tiver ao meu lado para atravessar a rua. E de mãos dadas acho essa travessia mais fácil.

Sei que as crianças odeiam quando os pais as obrigam a segurar na mão para alguma coisa, mas eu queria muito falar para essas crianças aproveitarem que, na vida adulta, vai ser meio desconfortável pegar na mão das pessoas e muitas delas sequer vão entender qualé a graça disso.

Já tive um namorado que tinha aflição de andar de mão dada. Teve até uma vez que ele soltou da minha mão porque achou melhor que não nos vissem juntos. Honestamente, foi a coisa mais decepcionante da minha vida.

Andar de mão dada é um voto de confiança na pessoa. É uma belíssima divisão de espaço e responsabilidade. É a fórmula ideal do companheirismo que mantém duas pessoas lado a lado – não da pra simplesmente sair andando na frente quando se está de mãos dadas. Aliás, que fique registrada minha absoluta ojeriza de quem sai andando na frente de quem vinha caminhando junto. É o retrato do individualismo, e eu vim pra essa vida pra dividir.

As mãos, as linhas delas, os dedos. Encostar os anéis.

Mãos dadas não são só para casais, não. Mãos dadas são uma estrutura de quem quer partilhar um caminho. Mãos dadas são um voto de confiança: quem dá as mãos diz como que em silêncio “eu tô aqui pra você. Você está aqui pra mim”.

Andemos de mãos dadas. Às vezes, contra o olhar do outro. Às vezes, sem sequer ser notado. Andemos de mãos dadas enquanto é possível andar. Andemos porque é massa apertar aquela mão quando der medo, quando der tesão, quando der siricutico de dizer, no meio da tarde: eu amo você.

É como diria Drumond, “vamos juntos, de mãos dadas”, que de caminhada solitária o mundo já tá cheio. Vamos juntos, de mãos dadas, pra vida passar com leveza, com trilha sonora ao fundo, porque o que vale nela tem seu jeito.

Vamos de mãos dadas até pra dormir, lembrança constante que você tá ali.

E eu quero sentir se entrelaçarem os dedos meus enquanto houver dedos seus por aí…

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Pensamento Desvairado

Casquinha

Não é quando você entra em mim como se soubesse de cor onde precisaria chegar e me preenche como se fosse impossível uma existência feliz vazia de novo. É antes.

Não é quando você encosta em mim parece saber exatamente a forma perfeita de movimentar as mãos ou os lábios, a intensidade a velocidade que deixam quase perplexa.

é antes, bem antes.

Antes, quando você já beijou meu pescoço e minha nuca, comprovando empiricamente o quanto a minha penugem é capaz de levantar as suas ordens, arrepiando do oiapoque ao chuí da minha anatomia.

Antes ainda.

Antes até de me dar estalinhos na boca e passar a mão no meu cabelo. Com carinho, tirando do rosto e me deixando te ver melhor Antes.

Antes de beijar minha bochecha e dar um abraço quente, que faz passar as dores de dentro e de fora.

Bem antes.

Antes do seu cheiro tomar a casa toda no momento em que você entra, deixando até os móveis com um ar mais feliz.

É antes de você chegar. É antes de você dizer que vem

Antes de você falar comigo. É só da sua ideia que eu preciso.

E aí, a minha perna estremece, eu já fico escorrendo felicidade por todos os poros. Eu tenho uma memória desgraçadamente boa e reviro os olhos lembrando pedacinho por pedacinho esse rolê certo que é me enrolar com você.

Parece rápido quando você chega.

Parece durar segundos.

Mas começou antes, bem antes de você pensar em começar.

eu só não sei como faz para parar 

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Do amor

A primeira vez que o amor chegou aqui, mal sabia o que fazer. Ficou procurando em mim algo que oferecesse algum tipo de estabilidade e conforto, mas eu era nova demais e explodia toda hora, criando um novo ciclo a cada oportunidade. Eu, que mal sabia quem era, também não soube reconhecê-lo e nem sabia de que modo me portar para dizer: chega mais, vamos conversar. Essas diferenças vão ser irrelevantes anos depois: naquele momento, no entanto, não eram. E o amor foi embora.

Quando voltou, veio acompanhado. Diferente de antes, eu tinha sido tomada por completo. Eu não distinguia os dias e mal sabia onde começava eu e terminava ela, a paixão. Eu fui sendo mastigada – e porque eu também queria -, dissolvida e engolida. Eu construí, tijolo por tijolo, uma história que parecia inabalável, e na primeira vez que desmoronou eu aguentei forte tranco (afinal, se era amor, merecia o perdão). Fiz trilha sonora e roteiro original. Fui minha própria diretora, e não soube a hora de admitir que os créditos precisariam subir em breve. Já não havia mais enredo algum. Não me sobrou nada. Nem o amor, nem a paixão, nem a mim mesma.

Com a faísca que me havia sobrado, fui reconstruindo minha fogueira. Eu seria tão forte, mas tão forte que eu queimaria sozinha uma cidade inteira. Sozinha, eu sentiria. Eu não precisaria de outro pra nada. Eu nem sequer convidei o amor dessa vez. Eu queria estar com quem admirasse e não me machucasse e isso já seria o bastante. Sentir demais tinha doído tanto. Eu vi, confesso, a paixão passar. Eu reconheci de longe seu cheiro, mas tratei de espantar pra longe de mim. Eu não queria qualquer coisa que pudesse abafar a fogueira que eu havia, tão devagarzinho, reacendido: só uma brisa leve, daquelas que nem apagam nem aumentam a chama. Vi a paixão me bisbilhotar de longe, e eu a ela. Senti saudade dos cabelos compridos que a paixão agora usava, mas fingi – muito mal – que não. Eu até fraquejei e procurei por ela, mas ela já não me ouvia mais.

E foi quando eu percebi que não querer sentir o que poderia doer estava me impedindo de sentir, o que quer que fosse. Mesmo assim, fiquei quieta. Sentindo saudade de tudo, mas quieta.

Era um dia, até então banal, quando ela voltou. Você por aqui, paixão? Quanto tempo. Da última vez que nos vimos, você fugiu de mim. Eu de você. A gente se machucava. Mas a paixão dessa vez tinha uns olhos tão gigantes, que nem combinava aquela dor toda. Eu já tinha fugido dela tantas vezes e, no fim, era nela que eu pensava de novo. Dessa vez eu não fiz roteiro, ele se escrevia. Não tinha trilha sonora, ela cantava. Ela trouxe com ela um amor – aquele meu velho conhecido – mas ele estava calmo. Parece mentira, eu sei, mas da pra arder de paixão na maior calma do mundo. Com necessidade, mas sem pressa. Com intensidade, mas sem dor. Com um tesão desgraçado, mas com carinho. Com inseguranças, mas não com medo. Da para achar quem alimente sua fogueira, e não a apague. Da para trazer tanta luz para perto da sua que iluminaria uma cidade inteira.

Da para ter saudade e ser incrivelmente bom.

Porque depois tem mais.

E como um saco mágico de contos de fada: quando mais se dá, mais se tem.

Eu, que aprendi tudo de paradoxo nos livros, desconhecia a beleza do desesperadamente em paz; do acolhimento com tesão. Era como se fosse um dia de chuva desgraçada, com raios e trovões: e de dentro da janela as gotas soassem como uma leve canção de ninar.

Estado permanente de fascínio instantâneo.

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