Adiós, Cartas d'ela.

Canto de Ossanha

Ainda toca Canto de Ossanha na rádio, ela desliga porque aquela música lembra de uma velha tradição que ela pretende esquecer: o homem que diz vou, não vai. Tem briga aqui e um beijinho perdido, parece que o homem do Canto de Ossanha achou ali seu abrigo. E nem diz que vai. Menos ainda que fica. Não adianta não: e a gente canta para o mundo uma força que não canta aqui dentro. Não adianta nadica a gente fortalecer o mundo, se aqui dentro a gente se enfraquece. Não adianta botar a casa em ordem, se o coração segue na bagunça de quem diz que ama, mas não parece amar. Coitado do homem que vai atrás de mandinga de amor. Coitado do homem que vai mendigar mais um pouco de calor. O toque, o cuidado, o amado.  A gente se pergunta, enquanto toca alto lá no rádio, se dá para viver uma vida toda com saudade da saudade. Com apego do apego.  Com o outro lado da lembrança. Memória viva massacra a alma, faz a gente sonhar quando só deveria dormir.  Ninguém está quando quer. A gente tá quando aguenta. Perna até para de andar, mas quem disse que pensamento também? Pensamento corre o mundo, atravessa cinco estradas e encontra repouso no cheiro que a gente deveria esquecer. Ninguém está quando quer. A gente tá só quando a vida e seu cacho de acasos resolve transformar, no meio de um monte de mãos sacolejantes, a mão que enlaça, aperta, consola e solta a sua. A gente não pode viver esperando a voz, a gente tem é que acostumar com o silêncio. A gente pode até esquecer do que foi feito, foi dito e parar de sonhar com o que poderia ter sido – e não será. Mas esse erro que nos constitui, fica. Porque acontece que o impossível é ir embora da gente. Dá não, senhor. Amor só é bom se doer.

Não, eu só vou se for pra ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor

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Adiós

Gênesis

Primeiro dia: cheiro ainda está lá. Cobre manta, cobre blusas, toma o ar todo e faz tudo funcionar. Ela sorriu e viu que a lembrança era boa. Houve um afago e um carinho. Segundo dia: o cheiro é só uma nota que pincela o ar, mas a imagem permanece intacta:  em câmera lenta, ela revive o movimento do seu sorriso e como ele cresce mais de uma lado do que do outro, fazendo o movimento de uma onda. Por cima dele, seu bigode, ainda ralo. Lembrando, ela franze a testa porque sente cócega que ele faria tentando beijar o seu pescoço. Ela lembrou e viu que a lembrança era boa. Houve uma mensagem e um apagamento. Terceiro dia: não tem mais cheiro, o bigode virou uma sombra. Mas quando ela cerra as pálpebras, deitada na cama, o tato ainda permanece. Ela ainda pode sentir o toque da sua mão descendo suas costas e o jeito com que você engloba sua lombar ao dormir. Ela lembrou e viu que a lembrança era boa. Houve um copo e um cochilo. Quarto dia: distraída das coisas da vida, precisou de alguns minutos para relembrar qual das canecas ele preferia.  Tomou nas duas, por via das dúvidas, o café predileto. Dela ou dele? Houve um gole e um pedaço. Ela viu que a lembrança já não era tão boa. Quinto dia: passando despercebida, trombou com o espelho. Aproximou-se. Olhou bem nos próprios olhos e na própria boca. Por um milésimo de segundo viu outros olhos. Piscou. Abriu. Piscou. Passou o rímel e foi embora. Houve um batom e um suspiro. Sexto dia: achou uma camiseta. Não soube o que fazer com ela. Das três toalhas do banheiro, só precisava de duas. A cadeira à frente abrigava uma bolsa. Houve uma lágrima e um sorriso. Ela viu que não havia mais lembrança.

No sétimo dia, ela descansou.

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Adiós

micro-falha-história-de-amor

Você veio, pegou na cintura, sussurrou no ouvido. Ela sorriu, tirou sua mão da cintura dela, falou olhando no seu olho, pra ver se o reflexo dela na lente do seu óculos dizia que ela tava bonita. Você ofereceu um drink, ela aceitou. Ela ofereceu a boca, você beijou. Tinha tudo pra rolar. Rolou. Você podia não ter enrolado ela, mas enrolou. Prometeu, desprometeu, jurou pela mãe morta, depois contou que era orfão. Ela disse que não ligava, mas por que mesmo você não percebeu que era mentira? Sim, ela ligava. Sim, ela chorou e foi muito atriz quando disse que não queria mais te ver. Mas todo palco fecha a cortina. E depois que ela fechou a dela, voltou pro seu abraço se sentindo tão sozinha. Você prometeu, desprometeu. E ela fingiu que acreditou. Mais uma vez. Você fez tudo de novo, ela sabia como ia acontecer. Ela tinha escrito aquele final. Vocês dois juntos, não se suportando mais. Vocês dois separados, não suportando mais a distância.

La Dolce Vita

texto antigo, republicado, revivido, relatado.

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