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Meus caminhos

Eu não escolho sempre o caminho mais fácil. Existem muitos caminhos que me levam de casa ao trabalho e alguns são explicitamente mais curtos e rápidos, mas não é tão explícita minha predileção por eles.

Às vezes, por cansaço, para querer dormir mais, eu acabo recorrendo ao jeito mais veloz de chegar. Mas eu ando cansada de estar cansada e cansada de ser rápida e produtiva.  Tem dia que eu quero é atrasar cinco minutos e ver o ipê que floresce naquela rua, por aquele caminho, que é inevitavelmente mais longo (e mais bonito); mais demorado (e mais gratificante). Gosto dos caminhos que têm minha padaria favorita, têm ruas de paralelepípedo que fazem mal pro carro, mas são bonitas. Gosto muito do pôr do nascer do sol quando vou por aquele baixadão da Anhaguera.

Caminhos são escolhas e, às vezes, escolhemos errado: a gente se estressa, pega trânsito, passa num buraco que parecia menor à distância.

Eu errei caminhos vezes e mais vezes nessa vida, porque queria que fosse simples. Porque eu sou teimosa, não parava para pedir ajuda e rodava em círculos, completamente perdida. E a verdade é que estar perdida pode ser um jeito menos culpado de não querer chegar. Tem destinos dos quais a gente foge. Eu já estive sozinha numa viagem a dois, e não quero mais. Sou uma viajante que aguenta muito tempo dirigindo sozinha. Ter com quem dividir a estrada é uma decisão muito consciente hoje.

Agora, eu sei onde eu estou. Sei também onde quero chegar. Eu sei o que me espera depois de alguns quilômetros rodados. E eu queria mesmo chegar lá.

Mas não é pelo meio mais curto, sabe?

É mais fácil fazer sozinha, ir sozinha, continuar sozinha.  É mais rápido não ter que dialogar e entender para fazer acontecer.

Mas eu quero o caminho mais difícil, ele vale à pena. Você vale à pena. Você é meu ipê no meio do caminho, minha padaria preferida, minha rua de paralelepípedos. Você é o pôr e o nascer do sol. Minha felicidade, clandestina e inesperada.

Caminhos são escolhas. Eu escolhi você e não abriria mão de um caminho tão bonito – ainda que às vezes difícil e trabalhoso – só porque eu tô cansada ou com pressa. Não faz sentido ter pressa. Não é mais sobre chegar, é sobre aproveitar a viagem.

arizona asphalt beautiful blue sky

Foto por Nextvoyage em Pexels.com

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é 17.

Já viu o pôr-do-sol aqui de casa? Ele irrompe todas as janelas. Todas, meu amor. Não escapa uma fresta, não escapa nenhuma janela: um pedacinho sequer. Nadica. Ele invade todos os cômodos, iluminando o chão e as paredes dessa casa que eu abro o sorriso quando chamo de nossa.

Essa força impetuosa de invasão do pôr-do-sol é a metáfora ideal para explicar o que acontece aqui dentro. A vida foi me escurecendo aos poucos, fui me silenciando, preferindo o morno ao quente, tirando a pimenta dos temperos, diminuindo, a bem dizer, o sabor de viver.

E aí você chegou. Com seu sorriso, seu cabelo, suas mãos enormes. Você chegou e o sol nasceu aqui dentro de novo. É como se o meu sangue voltasse a percorrer partes de mim que estavam quietas e secas.  Agora, irrigadas, essas partes gritam teu nome aqui dentro. Você me povoou, fez uma balbúrdia no meu coração. Foi me preenchendo de uma maneira tão natural que eu não sei mais discernir o que é você e o que sou eu.

E a vida lá fora, cheia de sombras e silêncios, não combinam mais com a luz aqui de dentro. Fresta nenhuma fecha. Eu tento, cabeludo, eu juro que tento encostar a porta, mas ela escancara em brilho. Eu procuro colocar uns panos para abafar as fendas que sobraram, mas nada sobrevive ao rompante de luz. Esse sentimento que me explode, que nem o põr-do-sol aqui de casa. Aqui dentro ainda é carnaval, sabe? Não acabou. Nem baixou a música ainda. Tô escorregando em confete e serpentina.

Ai de mim que também vivo uma mentira, sabe? Eu te digo que quero mudar, mas é que sinto um prazer tão grande em te amar intempestivamente. A parte de mim que busca tampar o sol anda fazendo isso com peneira mesmo. Porque esse tudo que eu sinto por você é tão bonito e saudável quanto a luz que faz brilhar as nossas fotos na parede. Enquanto não cegar, vou deixar que ilumine a minha vida, como alumia tudo aqui em casa.

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Carolina Florence

A rua chama Carolina Florence. Ela é longa, tão longa que chega até a pista que a gente pega para chegar na casa dele. Quase sempre a gente tá correndo pra lá e pra cá, entre o trabalho dele e o meu; a terapia dele e a minha; o jogo dele e a minha aula de dança. A Carolina Florence, que é uma rua longa mesmo, deixa a gente com tempo de ouvir um monte de músicas.  Eu, que não sou nada criativa para nomes de lista, fico classificando as músicas do mundo entre favoritas, novas favoritas, muito favoritas etc e tal. Ponho qualquer uma das muitas favoritas. São boas, óbvio, senão não seriam minhas favoritas. Sempre toca alguma coisa que a gente gosta – f a v o r i t a s. Ou que eu gosto, no caso, já que é sempre a minha lista. E a música parece ter sido feita pra nós. Tudo que é bonito acho que escreveram pra ele. De Milton Nascimento e Djavan a Los Hermanos; de Nina Simone à Ivete Sangalo. Na cama pequena em que I’m feeling good. Toda breguice tem sentido, espaço, vivência.  Absolutamente tudo me lembra os olhos dele, que eu gosto tanto que eu juro que teria um filho na esperança que nascesse com esses olhos. Esse é o ego máximo do amor; porque o amor move os mesmos pedaços que pareciam irremovíveis da gente, a gente pensa que tudo foi feito pensando em nós. Na Carolina Florence, esses olhos ficam brilhantes com a luz do fim do dia.  Como é quase sempre hora do rush, a fila de carros ilumina a tudo e a todos com uma luz vermelha de freio.  E é aí que olhos dele brilham. Já tentei capturar em foto, nada mostra a beleza disso tudo, vermelho, olho brilhando, Milton ao fundo, estrada de fazer o sonho acontecer. Geralmente eu tô exausta das mil coisas que meu corpo gosta de fazer com o corpo dele. Ele sabe o quanto eu gosto daquele cabelo comprido e solta assim que vê minha mão subir pelo pescoço, procurando os fios soltos para fazer um cafuné. No vermelho dos freios dos carros, ele parece um sonho. Chama Carolina Florence a rua onde a gente se declarou mais honestamente Onde eu caio no choro e na gargalhada. Eu já perdi as contas de quantas vezes eu senti que meu peito ia explodir se eu não gritasse: alô, pessoa na rua, eu amo esse homem. Eu amo esse homem! OUVIU, BUSÃO, EU AMO ESSE HOMEM. Eu amo esse homem com toda a minha alma. Se eu tivesse mais alma pra dar, eu daria. Se eu tivesse que percorrer essa rua todos os dias da minha vida, eu percorreria. Carolina Florence é o nome da rua em que eu fico projetando um futuro para nós dois, morrendo de medo na exata medida em que morro de felicidade. Eu não sei o que eu quero da vida, mas sei que quero que tenha ele.  Então eu até sinto prazer naquele trânsito parado, no vermelho do farol.  Ele sempre me dá um beijo delicioso no farol da Carolina Florence. E eu sigo indo. Eu vou quantas vezes forem necessárias da casa dele à minha, contando sempre os dias pra levá-lo de vez praquela que a gente ainda vai chamar de nossa.

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Leia pela segunda vez

Uma técnica milenar de professor de produção e interpretação de texto é pedir, no imediato momento em que o aluno diz que não entendeu – ou o próprio erro, ou texto – que se leia de novo. É preciso ler uma segunda vez, especialmente quando a gente já está muito cansado ou há muito tempo vendo a mesma coisa, porque daí fica quase impossível de atingir a distância necessária com aquelas letras e superar a mera decodificação: a intimidade é necessária para a compreensão, mas a repetição sem sentido também banaliza.

Leia e leia em voz alta.  Leia para outra pessoa. Conte sobre o que você leu. Recapitule. Imagine a cena descrita.  Imagine-se expressando esse ponto de vista em praça pública: parece descabido? Então, não escreva. Seja responsável com sua literatura, seja responsável com seu leitor. Escreva na exata coragem em que você diria. Mas também não se culpe demais se você acabar escrevendo melhor do que fala: eu sou dessas, e, tem hora, de a palavra dita é rápida demais para mim. Não cometa o meu erro de escrever no desespero e apagar, por puro ego ferido, o que te faz sentido na vida. Eu me perco em mim mesma. Eu deveria sempre ler duas vezes. Eu preciso respirar, esfregar os olhos, reler a ordem do que eu disse. Às vezes não vejo meus erros, nem as mais banais vírgulas separando sujeito de predicado. Então eu estralo os dedos, estralo o pescoço, estico os braços, penso mais um pouco. Releio. Escuto minha voz falando alto ali dentro. Escuto meu coração dando uns pitacos. Penso em que me lê.

Nesse processo maldito-quase-paranoico, às vezes eu apago o que eu escrevo. Não me arrependo completamente, mas se eu tivesse tomado distância… Se eu tivesse pensado, por um segundo, que talvez fosse tão melhor que eu tivesse lido uma segunda vez. Mais calma, mais descansada: eu não apagaria.

Eu também não teria ido embora de quem merecia me ter do lado. Eu não teria tanto medo de arriscar minhas fichas na paixão mais avassaladora que eu senti. Acontece, que com a vista cansada, a gente não consegue ver direito o que faz sentido pra gente. E eu tava cansada e maltratada demais. Era preciso ter paciência e não sair apagando minhas palavras e um bocado de sonhos só porque o sono me impedia de escrever exatamente o que eu queria.

Eu li de novo. Eu li em voz alta. Eu expliquei para as pessoas. Não existe nada mais eloquente do que a história que eu tô escrevendo – a quatro mãos – agora.

 

 

 

 

 

 

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