Cartas d'ela.

Cui(dar)

Olho para você e me lembro do menino que vi sendo escoltado pelo pai, enquanto aprendia a andar de bicicleta. Eu não sei desde quando eu soube que era amor, mas só pode ser amor quando eu sei que posso me jogar infinitamente no guidão e partir na rapidez que eu quiser, porque eu não vou cair – enquanto você está lá, eu não caio. Enquanto eu estiver, você não cai! E se a gente cair, vai rolando pelo chão, rindo a nosso modo quando tudo parece que vai se afundar; seja de cócega ou da besteira que você acabou de dizer; eu brigo, reclama e faço cara feia, mas hoje eu sei que tem sido você a mão que arranca de dentro de mim meus piores fantasmas e me diz: pedala, que enquanto você pedalar, você não cai. Enquanto a gente pedalar, não cai. O que não dá é para parar, o que não dá é para fazer do que a gente faz um acessório, um adendo, um qualquer. Isso é o que você é. Isso é o que eu mais amo em você. A gente, essa espécie de pessoa que veio pro mundo para cuidar dele, não pode esquecer de que, enfim, a gente também vacila. E cansa: e não pedala! E cai. E as cicatrizes de apostar uma corrida de bicicleta podem durar uma vida toda, você sabe. Assim, na calmaria de quem se protege, um dia de cada vez, a gente aprende a seguir pedalando sem olhar os próprios pés. A gente confia um pouco mais no próprio equilíbrio, na própria certeza, no que de fato acredita. Eu acredito em você, com todo meu coração e possibilidade do que chamo fé! E eu te amo porque você me fez reacreditar no ser humano. Você me lembrou que juntos é bom. Juntos, às vezes felizes e às vezes não, mas infinitamente seguros, com mais dois braços – além dos nossos – para sustentar o próprio mundo e o cansaço que guardamos nele.

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Cartas d'ela.

Você

Você acaba de sair por aquela porta e tantos outros por ali já saíram e deixavam o vazio, antes preenchido pela presença que só fala e nunca ouve –  até escuta, mas não ouve. Você (h)ouve. Você vai embora e não deixa espaços vazios, deixa sua presença que entorna em tudo, transborda em mim e eu – que deveria estar escrevendo sobre outros – só consigo escrever sobre você. Você sai, chove lá fora, faz um friozinho, eu fico sozinha, mas eu nunca me senti menos sozinha na vida. Eu, metonímia torta da minha própria casa, fico toda bagunçada quando você me deixa e passo a semana inteira me recompondo, porque eu sei que chega a sexta e você vai me bagunçar tudo outra vez e é assim largada, bagunçada, cansada que eu me reconheço, cabendo direitinho no espaço que você destina para o meu abraço, como se não pudesse outra coisa vir antes – e como poderia, não é mesmo? Você vai embora nesse frio e tá quente aqui dentro, tá quente onde você passou e não dói. Sinto sua falta no exato instante que você sai e não dói, porque com você não doem as coisas; com você, o vento canta aqui em casa, o sol se põe e eu não quero mais trabalhar, eu quero escrever pra você, de novo. Não tem euforia, ainda bem. Não tem, você tá certo: a tranquilidade é tudo que a gente merecia. O mundo se explode, compete, está ferido e você é minha redoma especial, absolutamente intocável. Você, que não pode me proteger do mundo, mas me deixa chorar no teu colo e me dá a solução prática que eu preciso pra tudo: amor (até quando não tem esse nome, e vem torto, engraçado, com medo). Que sorte a minha, sorte minha. Mais uma vez. Você passa e vai e é como se você nunca fosse embora, porque tudo que há em você fica na paz de espírito que você embrulhou e me entregou, misturada às incertezas que – até elas – dão um jeito de me explicar que, aqui, calma e tranquila, serena e aberta, totalmente entregue e confiante, é o meu lugar.

 

picasso

(que é que tu fez pra deixar rastro nos meus móveis e teu cheiro em todo canto?)

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Cartas d'ela.

Isso tem nome

Tá doendo aí, dói aqui. Às vezes é bom, às vezes não é: até quando não é, é. Faz perder o ar e a razão e arrepia o pelo da nuca. Cabe no colo. Cabe no peito. Cabe na cama. Cama sem jeito, parece que não se ajeita. Dá saudade, mas é bom ficar sozinha. Parece que tem em tudo, parece que preencheu o prato, o copo, a cadeira que gira, o sofá que estica, o chuveiro que não esquenta. E assim preenchendo me deixa assim ser minha. Eu só quero o leve da vida pra te levar.  Toca no rádio, no celular, no chuveiro. Lembra no colar, no batom, no espelho. Esse texto é pra você, meu bem querê. Percebeu, ou quer que eu desenhe? Não sei desenhar, nem célula. Só sei cozinhar e te fazer repetir. Repetir que gosta de mim, também. Tem que falar que gosta, sim. Tem que escrever, gritar, olhar pra lua. Olha você tem todas as coisas que um dia eu sonhei pra mim. A cabeça cheia de problemas, não importa…importa sim,  dá nó: a gente não se entende de longe. Você me pede pra não brigar, como se eu brigasse sozinha. Não é porque você não fala duro que não grita. Até o seu silêncio briga. Eu não sou calma, mas tá toda alma que eu tenho ali. aqui. lá. onde você vai sem me dar um beijo? Tem que beijar, sim. Quando chega, quando vai, quando fica, o tempo todo. Quando a gente tem vontade de encontrar a novidade de uma pessoa. APITOU AQUI. PÃÃÃ. era você, me marcou num meme idiota qualquer que me arrancou uma risada sincera do meio desse texto que não faz sentido nenhum. Você não faz sentido nenhum. Você perde a eloquência fora de sala de aula – eu tô falando comigo mesma. Eu não faço sentido. Você tá melhor? Tá se cuidando? Eu não consigo não cuidar. Eu vou cuidar do seu jantar, do céu e do amar, de você e de mim. De mim? Eu tendo a esquecer de mim. Um dia você disse que me punha no colo e cuidava, mas tem dia que eu não deixo, eu sei que eu não deixo e eu fico desprotegida. Você me protege de tudo, mas não me protege de você. Você me oferece sua história inteira, mas quando você olha pra ela, eu viro areia. Não se esquece que eu também gosto de você. Não se endurece porque eu também te amo, não se endurece. Você guarda rancor, não guardo. Eu guardo, guarda. Guardamos. Tudo volta, sempre volta. Trinta e cinco horas discutindo que no fim, tá tudo bem, eu gosto de você, você gosta mim. Você todo cacto, eu balão – e o contrário. E não vou citar aquela música não. Eu ando num labirinto e você numa estrada em linha reta. Você tem que trabalhar, eu tenho que escrever. Eu só consigo contar algumas coisas pra você. Porque se a gente fala, é verdade, e tem coisa que só pode ser verdade pra você. Nem todo mundo tá pronto para essa verdade. Meu amor, você me dá sorte. Eu não queria te chamar de meu amor, saiu, meu amor, saiu assim, que nem sai outras coisas de mim que eu não tenho controle. Escorre, saiu. Falei: meu amor. E agora? Tudo bem, chamo todo mundo de meu amor. Mas sabe, isso tem nome. Te falei, você não perguntou. Por que você é tão devagar? Tem nome, eu disse e você não disse “que nome”? Ficou quieto. Será que você sabia o nome do inominável? Aquilo que a gente não pode pronunciar. Exatamente aqui, olhando pra você. Não pode falar, se falar é verdade e a gente ta tentando se entender, a gente sempre se entendeu, a gente nunca tentou. Medrosos do caralho. Se você me prometer não fazer mais cócegas, eu prometo não mais esconder nada. Eu vou trancar você pra fora do carro, fazer careta, comprar chocolate, morrer de cólica e reclamar muito, porque isso tem nome. Porque tem textura. Porque tem gosto. Porque não é perfeito. Porque toca no rádio. Isso tem nome, você sabe. Porque a gente se pergunta se devia, se não devia. Tinha que ser ideal? Não é. T Feito chã de hortelã. Tem dor, tem sono, tem preguiça, não acelera o seu coração. Não tô no prato de macarrão, mas eu faço o macarrão e onde tiver meu gosto, tem eu e tem você. Tem gosto bom. Tem que beijar nessa hora também. Tem que beijar com a boca lambuzada de bacon. Tem que beijar, sim. Tem que ficar mais calma. Chama o palhaço. Alguém zela por ti. Tira o sapato, tira a mala, eu só reclamo, você só reclama. Não fala de trabalho, fala da gente, mas a gente é só trabalho.  Põe gif, como põe gif? Explica de novo, me conta de novo, eu escuto de novo se for por você. É por você. Tem nome isso. Mas eu não vou dizer, você vai saber.

Eu não vou dizer, mas você vai ouvir.

Eu não vou escrever, mas você vai ler.

Tudo nessa vida tem nome, até o que a gente não consegue dizer.

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Cartas d'ela.

Não, fica.

Não é raro encontrar por aí pessoas que repetem de peito cheio “não quero namorar” ou “não estou pronto para relacionamentos”. Eu sou uma dessas – ou fui, não sei.

1

A gente tende – com razão – a achar melhor se preservar quando acabou de sair de algo doloroso (e por melhor que seja um término, ele sempre será inevitavelmente doloroso).

O tempo, para gente que tem a dor fresca na pele, é tão importante. Voltar a entender do que a gente gosta, o que a gente é, ter controle total sobre os nossos dias, planos e sonhos. Olhar bem pra dentro e reconhecer os nossos valores.

Será que eu gosto mesmo de tapioca de manhã ou era o costume?

Nossa, que sabor que tem uma pizza de sexta depois do trabalho, eu nem lembrava!

Prefiro vinho a cerveja. Sim, no calor, também.

Eu não sou uma pessoa difícil.

3

Eu já pulei de uma relação para outra sem ter me dado nenhum tempo e me senti mal, e me confundi muito. Eu – que não sou ninguém pra dar pitaco na vida alheia – sempre acho saudável aquele tempo sozinho, ruminando os caminhos de dentro da gente. Essa coisa de ficar migrando de uma história a outra me soa uma carência latente, quase um desespero para fugir da solidão. Gente que tem medo de silêncio tem medo de si mesma.

2

Apesar disso a vida não para. E ela atropela a gente com uma história que ninguém planejou, ou que as pessoas, nem as mais insanas, cogitariam que poderia acontecer.

Optamos, porém, por ficar sozinhos. Porque a gente não está pronto.

Andei pensando – mais observando, na realidade – o momento em que essa vontade de ficar sozinho (porque é saudável e bom) vira uma casca impenetrável. As pessoas, às vezes, se convencem tanto (mas tanto!) que devem ficar sozinhas que sabotam seus próprios sentimentos e intuições. O corpo todo diz que sim, cada poro diz que sim, mas  o cérebro acha melhor não.

E pior: deixam passar pessoas incríveis, experiências plenas, histórias que ficam sem contar.

4

É engraçado que nós – os autosabotadores do amor – pensamos: MAS EU NÃO TAVA PROCURANDO, EU QUERIA FICAR SOZINHA.

Eu também não estou procurando emprego, mas eu recusaria uma super proposta?

Eu também não estou procurando uma viagem para o Nordeste, mas eu recusaria se ganhasse um sorteio?

Eu também não estou procurando amigos, mas recusaria um amigo?

Não, não e não. E tem pessoas que aparecem nas nossas vidas que são infinitamente melhores que um emprego, uma viagem ou amigo. Tem gente que só de estar faz da quinta-feira de tarde virar um sábado de sol no nordeste.

Tem gente que não é emprego novo, mas renova o jeito da gente ver o nosso.

Tem gente que não é amigo novo, mas relembra pra gente o que significa cumplicidade.

4

Não há, eu imagino, nada mais legal do que gente que está inteira nas coisas: no trabalho, nos estudos, nas conversas, nos almoços. Toda vez que a gente acredita piamente que não pode se entregar a algo que está bom, a gente fica pela metade.

E quem tem só metade – eu me lembro de ter escrito uma vez – não tem nada a oferecer.

Que esse texto seja uma lembrança cotidiana que não tem “nada a ver ficar sonhando separado, se no fundo a gente quer o dia a dia, lado a lado”.

Pra mim, pra você, pra quem, mesmo relutando, sabe que tem coisas que a gente não pode deixar ir assim.

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Cartas d'ela., Pensamento Desvairado

Vamo lá, time.

Não contra, junto; não versus, mas versos. Disparados no placar. Não há adversário que dê conta. Se você ganha, eu também ganho; se você perde, eu divido a culpa. Se eu posso, você topa; se você não pode, eu me ajeito. Sem jogo, pra gente não competir. Sem tacada, sem mentira, sem conversinha.

só a nossa boa e velha honestidade.

só o nosso bom e velho papo.

O maior erro é quando a gente faz do amor um jogo. Porque eu sou competitiva. E eu vou ganhar, eu sempre vou ganhar: ou eu ganho, ou o jogo acaba. Se você fica do outro lado, perco eu, perde você; perdemos nós os nós.

O maior erro é quando a gente faz do amor um jogo. Sabe o senso de pertencimento? Eu quero pertencer a você. Eu gosto de você lutando por mim assim como eu vou lutar por você. Gosto como a gente forma uma boa dupla. Gosto de como a gente fica mais forte. Não é que a gente precise; mas funciona melhor assim: tipo gangorra, eu quero ser teu impulso.

Sozinha eu dependo do chão pro meu balanço voar. Com você, só dos seus braços e do empurrão certo.

Não vai ter medo, sabe? Ninguém tem medo quando sabe que, se cair, tem quem segure. Que se tudo girar, tem quem centralize. Que tem alguém que fecha com você.

O amor acabou quando eu tentei ser mais que você e não mais com você. O amor acabou – e seguirá acabando – quando você quiser sorrir acima de mim e não comigo. O amor acabará quando você não puder mais comemorar as minhas vitórias cansadas e chorar meus cansaços vencidos.

Dupla é de dois. De um nem é time, não. Se a gente vai juntinho, vai bem.

Porque nós dois somos um time campeão.

maos-dadas

 

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Cartas d'ela.

Cartão de Natal

Vai parecer mentira se eu disser que eu gosto mais de cartão de natal do que de presente de natal. Mas é verdade: eu gosto bem mais! Não tenta me atacar dizendo: ah, então vou te dar só o cartão, porque – eu te juro, juradinho – eu não vejo mal nenhum nisso. Quem me conhece bem, sabe: escrever, pra mim, é a coisa mais importante. Bilhetinho, cartinha, cartão. Eu gosto mais da dedicatória do que do livro. Gosto mais do cartão do que das flores. Gosto mais da mensagem de madrugada do que um vestido. Palavra é um negócio importante demais: e eu me alimento delas.

Já me apaixonei por pessoas que não me escreviam e que me convenciam que não importava escrever, importava viver o amor. Não acho que seja mentira, mas, pra mim, que escrevo na pele, no diário, na agenda, na lousa – o amor também se constrói escrevendo.

Todas as formas de amor.

Eu amo os chocolatinhos que recebo dos alunos. E os brincos. E os batons: mas nada supera o bilhete, a cartinha, nada, nunca, superará as palavras.

Ouvi uma vez que ‘o papel aceita tudo’, e que era mais fácil mentir escrevendo – isso dito numa tentativa de hierarquizar a ação e a palavra, como se a ação necessariamente superasse as palavras. O papel não aceita tudo, não. Se forçosamente se escrevem mentiras, o papel, no fundo, sangra.

E se você é do tipo que escreve mentiras, então você é a pior espécie de gente que existe: aquela que não merece nem o papel, nem a caneta, nem a beleza da palavra escrita, que pode ser lida e relida, incansavelmente, até a gente decorar o que tá escrito.

Já ficou lendo uma mensagem, um cartão, um bilhete até que as palavras ficassem em você? Talvez seja o prazer mais genuíno que tem no despertar do amor. No amor maduro. No fim do amor, também.

Ler silenciosamente. Em voz alta. Para alguém importante. Enquanto eu puder (te) ler, eu sei: tá tudo dando certo.

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esse eu ganhei do meu irmão, hoje. Não tem nada mais legal pra ganhar de presente.

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Cartas d'ela.

Amor ainda, amor até depois.

Henrique, meu amigo, você me diz que tem muito amor aqui, não é? Sempre teve. A verdade, pegue essa cerveja que vou te contar, é que sempre tem muito amor. A gente não muda as pessoas, é verdade; as pessoas não nos mudam, também. A matéria que preenche esse meu corpo é amor. Sempre foi, eu sempre soube. Por um minuto, eu desconfiei que o amor tem uma única cara; ainda bem, Henrique, que eu tenho você para me lembrar que o amor nunca veio de fora para dentro, ele sempre saiu de mim. E enche, transborda, vaza…

Henrique, o amor tem 1000 caras: e elas pipocam na minha frente assim que eu chego na escola. E me beijam e me abraçam: tem amor demais nesse mundo. O amor que tem o cheiro da minha mãe, o colo do meu pai o abraço do Gê – que você precisa conhecer, Henrique! O amor, meu querido, tem o conforto do sofá lá de casa.

Uma amiga querida me disse que a vida é curta demais para estar com quem não ama as minhas xícaras. Tem amor nas xícaras, sabe? Na mesa. Na toalha da mesa – Val que fez. Tem amor na sapateira, no cuidado que vocês têm de tirar o sapato para entrar no meu cantinho sagrado. Henrique, tem amor na nossa IPA gelada no meio da semana.

Tem amor quando a gente não quer chamar de amor as visitas de segunda-feira, o cafuné inesperado, as esquisitices que coincidem. Dá medo chamar de amor o que parece tranquilo e leve, mas quem disse que amor pesa? Amor pode ser essa música de rima bem boba.

ESPAÇO PARA A FOTO COM O MINEIRO QUE EU NÃO TENHO

Tem amor transbordando no café do Mineiro. Na piada ruim do mineiro. No sertanejo que a gente põe só pra ver ele feliz. Tem amor na Tê e na Dona Lina, e como, pra elas, a gente sempre vai ser a forma exata de amar.

Tem amor onde eu passo, tem amor onde eu bebo, tem amor onde eu me demoro. Sabe por que, Henrique? Claro que cê sabe, que me contou foi você: porque eu sou o amor.

Aliás, eu amo você.

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uptade: Mineiro tinha uma foto, sim.

BONITA JÁ NÃO

Mas feliz e cheia de amor

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