Cartas d'ela.

O último pôr-do-sol

Tenho prestado especial atenção ao pôr-do-sol, bem que você reparou. Eu acho linda a transição da luz e as cores no céu. Cada dia descubro uma cor e combinação diferente e parece que nunca é igual. Nunca é igual. Mas não os mesmos personagens sempre? Um céu, um sol, um cansaço de fim de dia? Mas todos os dias o céu parece outro céu, um novo céu. Nunca é igual. Nem a boca, nem o beijo, nem quando a gente acha que já decifrou cada pedaço do corpo um do outro, não é igual. Eu descubro de novo um jeito novo de gostar de você. E o céu segue escurecendo gradativamente, deixando entrar a luz bonita no quarto, que deixa você ainda mais (mais?) bonito.

Tá tocando Lenine de novo. Você também reparou que eu encasquei com esse homem.

Escuta isso aqui:

No dia em que ocê foi embora
Eu fiquei sentindo saudades do que não foi
Lembrando até do que eu não vivi
Pensando nós dois

Sofro de saudade antecipada dos dias que a gente passou longe e que eu, pelo caso do acaso, vi tanto pôr-do-sol lindo e não fiz nada, não senti nada, não disse nada. Enquanto eu sentir essa necessidade doida de estar mais aí, mais aqui, mais a gente: eu vou me culpar por ter perdido meses do seu “demônia” ou “diaba”, por não ter cruzado os meus dedos com os seus sempre que desse. Por não ter te acarinhado até dormir depois de cada pôr-do-sol que eu sequer notei.

No dia em que ocê foi embora
Eu fiquei sozinho olhando o sol morrer
Por entre as ruínas de Santa Cruz
Lembrando nós dois

Agora, eu vou reparar em cada pôr-do-sol. E se fizer chuva, aposto que vai ser lindo ver o desenho dos raios no céu. Pode ter prédio, grade ou mar. Enquanto houver um resquício de lusco-fusco, eu vou abrir um sorriso. Vou lembrar que o dia morre e nasce de novo, e desde que ele nasça com você aqui, vai estar tudo bem.

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Cartas d'ela.

Cause you feel like home

Odeio me sentir com energia baixa. É como se o mundo tivesse passando numa velocidade diferente daquela que eu estou conseguindo seguir, então,de um jeito ou de outro, eu me sinto um tanto perdida. Tem sido pouco recorrente que eu me veja assim, mesmo porque a impressão que eu tenho é que eu estou exatamente no lugar certo desde que você chegou e parou por aqui. Não tem tempo errado enquanto houver esse encontro de passos. Às vezes, eu só queria morar aí dentro. Parece ter tanta paz aí. Acho que a impossibilidade de ser frágil me deixou em silêncio muito tempo. E, de repente, agora que eu tenho colo, fico sem saber como sair dele. Um pouco paranóica, talvez. Eu diria até meio burra, coisa que nunca soube como assumir. Eu, que tinha me esquecido que é possível cuidar e ser cuidada, tô querendo seu cuidado todo só pra mim. Um pouco possessiva, me desculpa. Mas tem dias barulhentos demais. Tem aulas doloridas demais. Tem cobrança demais. Expectativa demais e eu só não sei como lidar com tudo. É como seu eu estivesse por horas secando uma cachoeira. Odeio me sentir impotente. Odeio que me coloquem numa posição de competição, porque eu sempre caio nela e me afogo e machuco só a mim mesma. E aí tem você. Tem o mundo monstro e tem você. Tem o mundo dor e tem você.Sabe quando tá tudo um caos, todo mundo te pedindo mil coisas e a vontade desesperada que da é correr para o silêncio de um quarto escuro e fingir que não existe mundo?

Você é meu quarto escuro.

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Cartas d'ela.

ciclo 1

Acho curioso quando as pessoas vem me falar dos textos que eu escrevo para você, sobre como elas se reconhecem infinitamente. Duas coisas óbvias me vêm à mente: como a gente segue os mesmos ritos culturais sobre o amor e sobre o amar e que, ainda assim, sobrevive algo muito anterior a isso.

Você viu, comprovadamente no meu exame de habilidades, que linguagem é a minha maior habilidade: eu me comunico bem, eu sei dizer o que eu quero ou sinto, frequentemente. E mesmo você estando deitado ao meu lado nesse minuto – dormindo todo torto – eu sofro de uma incomunicabilidade imensa sobre o que eu sinto. Eu entendo com clareza porque a filosofia sempre recorreu à literatura para falar de amor: sem metáfora, sem comparação, fica incomunicável. Não cabe em nenhuma construção sintática.

Então, por causa da data e porque é carnaval (ainda é?), eu resolvi listar as últimas que me vieram à cabeça: sabe o que você é? você é aquele jato gelado no meio do bloco: eu não sei lidar, nem pra onde correr, mas é aparentemente tudo que eu preciso na minha vida. Você é o banho de água quente e sabão depois de um dia de suor, glitter e cerveja: traz um monte de conforto. Você é o prato de comida de verdade, bem servido depois de dias comendo besteira pra lá e pra cá.  Você é uma coca na ressaca, uma bebida gelada doce quando a comida tá salgada. Você é um chocolate na tpm, uma espreguiçada longa de manhã. Você é o céu quando o sol se põe na pista, tocando a minha música favorita no carro. Você é a vontade de parar o mundo só mais cinco minutinhos pra nunca mais sair dessa posição. Você é mais bonito que uma bateria de mulheres tocando para os orixás. Mais bonito que o asfalto cheio de confete. Mais bonito que sentir isso que eu tô sentindo.

Você é você e o seu abraço. Você é você e toda a felicidade que você me traz.

Feliz dia do amor, feliz dia seu.

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Cartas d'ela.

Não solta da minha mão

Andando pela rua a qualquer hora da tarde eu notei que, quando estou sozinha, tendo a esperar uma pessoa resolver atravessar a rua para que eu vá também. Às vezes não o faço, mas fico confortável quando sim. Sou meio desajeitada e já quase morri atropelada um sem número de vezes. Notei que eu tenho ímpetos de pegar na mão de quem tiver ao meu lado para atravessar a rua. E de mãos dadas acho essa travessia mais fácil.

Sei que as crianças odeiam quando os pais as obrigam a segurar na mão para alguma coisa, mas eu queria muito falar para essas crianças aproveitarem que, na vida adulta, vai ser meio desconfortável pegar na mão das pessoas e muitas delas sequer vão entender qualé a graça disso.

Já tive um namorado que tinha aflição de andar de mão dada. Teve até uma vez que ele soltou da minha mão porque achou melhor que não nos vissem juntos. Honestamente, foi a coisa mais decepcionante da minha vida.

Andar de mão dada é um voto de confiança na pessoa. É uma belíssima divisão de espaço e responsabilidade. É a fórmula ideal do companheirismo que mantém duas pessoas lado a lado – não da pra simplesmente sair andando na frente quando se está de mãos dadas. Aliás, que fique registrada minha absoluta ojeriza de quem sai andando na frente de quem vinha caminhando junto. É o retrato do individualismo, e eu vim pra essa vida pra dividir.

As mãos, as linhas delas, os dedos. Encostar os anéis.

Mãos dadas não são só para casais, não. Mãos dadas são uma estrutura de quem quer partilhar um caminho. Mãos dadas são um voto de confiança: quem dá as mãos diz como que em silêncio “eu tô aqui pra você. Você está aqui pra mim”.

Andemos de mãos dadas. Às vezes, contra o olhar do outro. Às vezes, sem sequer ser notado. Andemos de mãos dadas enquanto é possível andar. Andemos porque é massa apertar aquela mão quando der medo, quando der tesão, quando der siricutico de dizer, no meio da tarde: eu amo você.

É como diria Drumond, “vamos juntos, de mãos dadas”, que de caminhada solitária o mundo já tá cheio. Vamos juntos, de mãos dadas, pra vida passar com leveza, com trilha sonora ao fundo, porque o que vale nela tem seu jeito.

Vamos de mãos dadas até pra dormir, lembrança constante que você tá ali.

E eu quero sentir se entrelaçarem os dedos meus enquanto houver dedos seus por aí…

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Cartas d'ela.

Carta a A.: sobre amor próprio.

A.,

receber sua mensagem foi uma surpresa, de diferentes formas. Você sempre me disse que os meus textos a ajudavam, mas eu não imaginava que você – uma mulher tão linda – precisasse tanto. Olha, A., falo isso sem a pretensão de que mulheres lindas não sofrem e, tendo lido agora sua resposta e compreendendo o que você está sentindo, sei a dor que é. Antes de mais nada, receba esse texto como um abraço e não um conjunto de regras sobre amor próprio. Não imagine, também, se, hoje, visto o que quero e vivo como quero que eu não tenho, cotidianamente, dúvidas sobre mim mesma, especialmente sobre estética. É duro assumir isso: mas amar a mim mesma não significa que eu consiga me achar bonita. Às vezes eu acho, honestamente.  E é claro que isso acontece quando eu estou em paz por outros motivos.

Eu aprendi a encontrar segurança em outros caminhos: sempre me achei muito inteligente, e dizia a mim mesma que isso compensaria o fato de eu ser gorda. Maior cagada isso, A., porque são grandezas complementares, e não se anulam. Eu posso, então, ser bonita, inteligente e gorda.  Falar é mais fácil que sentir. Começar falando é sempre um bom começo.

Vale lembrar sempre que as mulheres mais bonitas que eu conheço, com mais frequência do que pensamos, não se acham bonitas. As noias que a sociedade cria nas nossas cabeças são tão bem enraizadas que NÃO VÃO SAIR. Eu já não trabalho com a ilusão de não tê-las, eu trabalho sempre com ações afirmativas, remediando isso tudo que me corrói. E um dia de cada vez. Um dia bem, um dia nem. E vamos aí.

Você tocou um aspecto que dói demais: não ser assumida. Você, tão ou mais consciente do que eu, sabe que é assim: a sociedade impõe que o nosso valor se dá diretamente pelo nosso sucesso em relacionamentos amorosos e, nesse caso, com homens. Sabemos que homens são pressionados por todos os lados para venerarem mulheres estabelecidas como padrão – o que não é nosso caso, ainda que estejamos num espectro privilegiado de mulheres brancas. Ou seja, andar de mão dada conosco seria assumir, publicamente, que são perdedores, absolutamente fracassados. Homens não querem assumir fracassos, porque isso reduziria os valores deles socialmente, na mesma proporção que não estar no padrão reduz o nosso. Sabemos disso, meu bem. Mas isso não diminui…

…a dor de quando soltam a nossa mão em público. Nada mais bonito que andar de mãos dadas com a pessoa que você gosta e sentir que a mão se solta e escorra dos nossos dedos é perder, nesse movimento, o chão. É quase pisar em falso. Eu entendo. Ou quando nos dizem que “namorariam conosco”, mas não namoram. Porque não namorariam uma mulher gorda. Ou “não se apaixonam”, porque para deixar a paixão bater, é preciso autorizá-la, e o coração livre não pode carregar o medo do julgamento do outro…

Sinto dizer – é até pior dizer – muitos deles se apaixonaram por você e muitos outros se apaixonarão. Acontece que há muita incompetência nesse mundo e a maioria desse caras não está instrumentalizada a viver coerentemente com o que sentem.  Eles apenas seguem uma lógica perversa. Você, então, é absolutamente passível de amor. Não existe um jeito de ser linda e TUDO BEM que você saiba disso e não consiga viver plenamente. Você está absolutamente autorizada a ser incoerente, tá?  E chorar em posição fetal por um escroto, contanto que chore pensando ‘queria que ele fosse menos incompetente’ e não ‘queria eu ser diferente’. Derrame lágrimas pela incapacidade alheia, não pelo seu corpo. Seu corpo saudável, bonito, que te permite tantas sensações. Seu corpo que merece o toque de muito afeto e que desperta tanta admiração e cria o que há de mais importante na vida humana: memórias felizes.

Eu não posso garantir que um dia você vá encontrar alguém que te assuma, te venere e te cuide como você merece.  Mas uma coisa eu posso: que se você souber o quanto você vale, ninguém poderá te deixar por muito tempo com esse gosto amargo da troca. Não há troca quando não houver escolha. Não seja uma opção. Opte, você, só pelo que te faz bem.

Eu já fui trocada e aprendi que não foi uma troca, porque eu não ia me deixar ser uma opção. Seja sua prioridade, sempre. Vai por mim: vão te chamar de gorda metida, gorda ‘que se acha’, gorda – qualquer adjetivo. Deixa que digam, que pensem, que falem.Um belo dia, você vai estar tão em paz com seu corpo que você vai sorrir e sentir uma pena desgraçada de quem não teve a sorte de viver mais um minuto dessa passageira vida com você.

Ah, eu te acho maravilhosa.

Um beijo,

M.

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Cartas d'ela.

Diário da saudade, dia 6: o sorriso.

Já te falei que o seu sorriso é lindo? Mas nem é que os dentes sejam branquinhos e alinhados – eles são – a grande sacada é a facilidade com que ele sai.

A vida é uma só, cabeludo, não vale à pena passar do lado de quem não solta um sorriso fácil para as besteiras da vida. Um ano longe de você me fez enxergar com outros olhos como é viver em paz de espírito. Sabe aquela coisa de que a a gente é a média das cinco pessoas com as quais convivemos? Pois então: quero você na minha média, quero essa sua vontade comigo. Você tem gana de viver, gato. E isso é um tesão, sabia?

Acho curioso que você tenha me contado sobre o seu dente agora, quando eu já estava redigindo esse seu texto. Eu sei que é besteira, mas a vontade que me deu foi tirar essa dor daí e por aqui. Isso é amor, sabe? Não tô nem aí de admitir: é um dos amores mais bonitos que eu já senti.

A hora de desmanchar seu sorriso é a minha favorita, trançar as pernas em cima da suas, encaixar sentadinha no seu colo, envolvendo seu pescoço com os braços. Você sempre sorri quando eu me monto em cima de você. Eu não aguento: eu beijo, acaba que eu desmancho o sorriso e aí é difícil dizer o que eu prefiro: o sorriso ou o beijo.

Eu não tô nem aí sobre o quanto essa história vai durar. Eu não faço a mínima ideia se um dia isso vai virar um relacionamento. Mas, hoje, tudo que consigo é rolar as suas fotos, observando os detalhes do seu sorriso, que mobilizam imediatamente o meu e agradecer, sorridente, à vida, que trouxe você de volta.

 

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Cartas d'ela.

É você

que tem os olhos tão gigantes e a boca tão gostosa

tá tocando Rubel e tô caindo de sono, tentando terminar os cronogramas da semana.

não tem medo não, eu sei vai dar errado…

eu morro de medo, deus do céu como eu tenho medo. Eu só pareço forte, eu não sou.

eu tô com uma vontade danada de entregar todos os beijos que eu não te dei…

mas parei com essa história de não ditos.

É curiosa a minha vida.

Eu sempre

Dizendo

Me fodendo

Não dizendo

Me fodendo

Prefiro me foder com as palavras ditas.

(com você)

 

Que aí é uma dor por vez.

Arrependimento e culpa são insuportáveis.

 

A gente até se esconde…

é como disse meu amigo: é fechar o computador, abrir de novo, recomeçar exatamente de onde tinha parado.

É tudo de novo,

Mas é novo

de novo

 e volta a namorar depois…

 Não corre, não, que eu tenho paciência.

Pela primeira vez na vida, eu acho que vale a pena esperar alguma coisa.

Você vale terrivelmente a pena.

Vou começar gastando escrevendo tudo que você já deveria saber.

A começar, que é você

que tem olhos tão gigantes

e a boca tão gostosa.

Eu não vou aguentar.

 

 

 

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