Feminismo, Humorfina

5 formas de me ofender com sucesso

Esses dias, contestei uma postagem que achei machista, de uma pessoa que gosto/admiro. Recebi, como comentário do meu comentário, assim: “que chata”. Não sei se a pessoa tentou me ofender, mas ela não conseguiu. Aí, eu que sou generosa, fiquei me perguntando se eu não podia fazer algo por essa pessoa que queria tanto me machucar. Daí resolvi elaborar essa lista de 5 formas bem sucedidas de me ofender:

1. Não me chame de gorda, diga que eu nunca terminei de ler “Os Sertões”.
É recorrente que as pessoas, quando querem me ofender, me chamem de gorda. Fico me perguntando, mas peraí: eu escrevo para o Maggníficas, JUSTAMENTE um blog que fala sobre ser gorda. Eu uso gorda como modo de me definir, eu peso mais de 90 quilos, eu uso manequim 46/48, OU SEJA, sou gorda. Como também sou branca, como também tenho pés grandes: são várias características físicas. Como é que a pessoa acha que me chamando de gorda ela poderia estar me ofendendo?

 

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migo, não está ofendendo
 
Em contrapartida, eu me sinto a professora de literatura mais fajuta quando falo da treta jornalismo X literatura sendo que NUNCA, nunquinha, nenhuma vezinha, eu terminei de ler o clássico do Euclides da Cunha. Aí, é meu ponto fraco.

2. Não me chame de feminista, diga que eu não sei – nem nunca saberei – falar alemão.

Na mesma lógica da “gorda”, tentam me ofender me chamando de uma bandeira que eu carrego comigo, a do feminismo. Não entendo como eu posso ter escrito um LIVRO sobre o assunto e alguém achar que isso me ofende de alguma forma. Ah é, tem a vertente vaca feminista. Meu deus, vacas são tão fofas, por que eu me ofenderia?

  Resultado de imagem para gif feministaisso é exatamente no que acredito

 Que me ofender? Não diga que eu sou feminista, porque isso eu sou mesmo, diga assim: você já tentou, mas é incapaz de aprender alemão. Sou mesmo, que língua difícil, meu deus!

 3. Não me chame de chata, diga que eu erro sempre o ponto dos doces

Vamos lá, primeiro. Uma definição sobre “chato(a)”:

adjetivo substantivo masculino

fig. que ou o que é maçante, enfadonho ou insistente; que ou o que aborrece, perturba ou preocupa.

Maçante, enfadonho, para uma pessoa que fala bosta, eu quero ser. Insistente, perturbadora e preocupante para alguém que acredita o oposto do que eu acredito: É MEU MAIOR OBJETIVO.

Eu amo ser chata. Eu tento aperfeiçoar todos os dias minha chatice, sabe?

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Hermione me representa

Agora se tem um negócio foda é ponto de doce. Cozinho qualquer salgado, mas doce: desanda, fica mole ou duro demais, fica com ou sem açúcar. UM SACO. Nunca haverá um doce meu que as pessoas vão comer e dizer: arrasou!

4. Não me chame de “sapatão”,  diga que eu já tive crush no Maurício Mattar 

 Eu não sei em que mundo a orientação sexual de alguém é ofensiva. Mentira, sei sim,  no mesmo em que Bolsonaro é bem aceito: um mundo burro, violento, lesbofóbico, escroto. A orientação sexual nunca deve envergonhar alguém. “AH, MAS EU NEM SOU GAY/LÉSBICA”, mas mesmo assim: se te ofende que imaginem que você seja, é porque talvez o lgbtfóbico seja vocezinho.

Resultado de imagem para ruby rose gifpor você, eu dançaria tango no teto

O gênero de quem nos apaixonamos é irrelevante para o nosso caráter, já ter crush no Maurício Mattar

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RUN, FORREST, RUN

5. Não me chame de grossa, diga que eu tenho lua em câncer

 É bem comum as pessoas – GERALMENTE HOMENS – dizendo que eu sou grossa, ‘bossy’, mandona. Acho curioso que eu digo exatamente a mesma coisa que eles, mas quando eu digo, de repente, fico GROSSA.

Fico pensando que se grosseria é imposição de ideia, não submissão, não me rebaixar às coisas que supostamente eu fui treinada a me submeter, pois bem: QUE BOM QUE EU SOU GROSSA!

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Aliás, certeza que eu tava falando com você?

 Agora, algo que é foda nessa minha personalidade é a lua em câncer: porrã, como eu choro à toa. É vendo bebê cantando, é lendo poema, com homenagem de aluno. Sabe, era pra eu ser uma taurina com ascendente em escorpião toda poderosa e vem ESSA PORRA DE LUA EM CÂNCER E FODE TUDO.

ASSIM NÃO DÁ.

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Aqui, bebê, dei todas as dicas de como me ofender com jeitinho, acrescente aí que: eu canto mal, não tenho ritmo, não consigo gostar de whisky e não decorei a ordem do sonho intenso/amor eterno no hino nacional, e pronto: já pode me xingar.

Beijas.

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Feminismo

A quem não comemora o dia de hoje

O dia das crianças é lindo. Todo mundo com aquela foto fofa no perfil. Eu constatando como, de fato, filhotes são sempre melhores que animais crescidos. Fico querendo que o tempo pudesse voltar só pra mim e eu pegasse meus amigos crianças pra abraçar, morder e brincar no tapete da sala.

Mas hoje é uma ótima oportunidade pra gente falar sobre abuso infantil. Só no primeiro trimestre do ano passado, mais de 21 mil denúncias ocorreram, relatando abuso infantil. Eu sei que, provavelmente, você deve pensar o absurdo que é isso, mas o que os dados nos contam é que isso é mais frequente do que a gente imagina.

Não raro, meus alunos me relatam experiências traumáticas da infância. Ontem mesmo, um amigo me revelou a sua, anos depois. Várias de nós reprimimos as histórias para poder continuar vivendo, lembrem-se, por exemplo, da campanha #meuprimeiroassédio.

Apesar disso, por proteção, talvez, tentamos viver como se a violência sexual contra crianças fosse uma realidade pontual. Não é, em muitos casos, ela é endêmica. No Brasil, não tenho dúvidas que seja.

É claro que, não sendo nós abusadores/assediadores de criança, nos sentimos ilesos da responsabilidade, mas não estamos. Precisamos fazer a nossa parte.

Como? Lembra lá: evitando a hipersexualização precoce, por exemplo.

Acho curioso quando as pessoas me olham com cara de espanto por eu defender ferrenhamente roupas sem gêneros para bebês/crianças que não podem escolher a própria roupa. Acham que eu sou radical por gostar e elogiar minha mãe por não ter furado minha orelha quando eu nasci. O radicalismo, meus queridos, talvez seja necessário nesse universo ESCROTO que é o nosso: quanto mais desassociarmos crianças aos gêneros, mais fácil podemos tirar delas o caráter sexualizável atribuído. 

É óbvio que, DE FORMA ALGUMA, a hipersexualização JUSTIFICA o abuso. O que é preciso lembrar, PORÉM, é que colocamos as crianças em situações de risco e NATURALIZAMOS alguns abusos e assédios.

Claro que somos um grãozinho de areia perto da força midiática e da indústria cultural como um todo. A mídia, por exemplo, sexualiza crianças desde sempre. A mídia torna natural falar em relacionamento romântico na infância. A mídia incentiva a separação entre meninas e meninos e que eles estão numa competição de gênero e só se unem via amor romântico. E isso tem tudo a ver, também, com uma sociedade que ensina que a fragilidade é passível de violência. Crianças são socialmente invisibilizadas e têm sua fragilidade natural – aquela que é intrínseca à idade – transformada em subterfúgio para violência.

Eu fico muito feliz mesmo se a criança da sua família está sentada no sofá nesse momento, feliz, saudável psicologicamente e fisicamente. Mas não esquece que um monte de outras não está, e a luta, que é diária, nunca para.

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Cartas d'ela., Feminismo

feliz dia da amiga

Acordei e minha mãe disse que era dia do amigo, mas tava quase começando uma aula e não dei a devida atenção que minha mãe merece (nunca façam isso, sempre deem atenção às mães de vocês).

A aula passou e ouvi um sinal do facebook: minha grande amiga tinha postado a nossa foto, com a legenda de uma música que a gente ama, de um cd que a gente ouve direto juntas e que lembra bem o comecinho da faculdade, quando nos conhecemos, há quase dez anos. Ela é minha alma gêmea, a pessoa que melhor me entende nesse mundo, a melhor parte d mim.

Nos comentários, uma outra amiga minha escreveu. Ela é um bicho forte, essa minha amiga, é meu porto seguro das dores: eu posso ficar tempos ser vê-la, mas quando falo com ela sei que um abraço quente me espera, mesmo em forma de palavras.

Ontem papeei com outra amiga que não falava há um tempo. Ela me conhece sempre. Parece que sente se tô mal e vem me ajudar.  Que sorte a minha.

Não vou ficar citando todas as minhas amigas, corro o risco de ser injusta. Mas são algumas mulheres que me dão, a despeito do meu jeito terrível, do meu ciúme incontrolável e da minha fome sem fim, a sorte da amizade delas.

blog

essa foto resume a vida

 

E eu tenho minhas alunas: algumas entram pra vida de vez, ficam minhas amigas, mesmo de longe, mesmo que só por internet. De modo geral, mesmo as que não entram de vez pra minha vida, ao longo do ano, eu me sinto bem amiga delas: é abraço, carinho, consolo, conforto.

A gente sabe que o machismo tentou convencer a gente que mulher não pode ser amiga. A gente sabe que a competição é inserida, dia a dia, entre nós. Mas não existe nada mais bonito que amar outra mulher em todo o universo que ela é.

Eu tenho amiga de tudo quando é jeito: mais velha, mais nova, da literatura, da sociais, professora, médica, mãe, porra louca, comportada. Mas sabe o que une todas elas: a imensa vontade de respeitar uma a outra. Fortalecer, uma a outra. A gente não deixa a outra se quebrar, não. A gente não deixa a outra acreditar que é menos do que é, a gente empresta os nossos olhos para que a outra veja como ela é maravilhosa quando despida dessa imensa automutilação que o mundo impõe pra gente. Minhas amigas me lembram, quando tão maravilhosas estão ao meu lado, que eu sou incrível como elas. Eu mereço o amor delas.

É bom lembrar que o mundo pega pesado com a gente, e que é lindo e reconfortante quando a gente se lembra que: se os nossos pais se forem – um dia eles vão -; se nossos namoradxs nos largarem/machucarem – isso é possível -; se a nossa vida profissional ficar uma merda – se já não estiver -, que elas estão ali. Com café, cerveja, vinho ou chá, esperando para me dar um abraço. Um abraço sem julgamento, um abraço compreensivo: um abraço que só elas entendem como dar.

Tenha Valquírias, Danis, Maris, Natashas, Carols, Paulas, Marinas, Marílias, Anas, Marias, Paulines, etc.etc.etc. na sua vida. Eu não prometo que não vai ter dor, mas eu prometo que vai ter como curar.

 

 

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Cartas d'ela., Feminismo, Sala de Aula

Carta à M.

M.

minha tela piscou com uma mensagem sua, e eu fiquei muito feliz, porque adoro quando você me escreve. Quase sempre falando alguma besteira para me ridicularizar – não esqueci que você me disse que eu parecia te odiar nas primeiras vezes que nos falamos e terminamos amigas e casadas na festa junina. Bem, eu obviamente não odeio você, ao contrário, gosto muito e admiro muito tudo isso aí que você é. Apesar da felicidade, não durou nem cinco segundos. Você me enviou um link. Na notícia, uma brutalidade horrível. Você tá péssima, eu tô péssima. Mas eu precisava escrever publicamente o que essa história me causou.

Primeiro, eu me senti impotente. Enquanto meninas estão sendo estupradas, a gente se sente impotente. Mas não as meninas do mundo, minhas alunas também estão. Você e eu, também. E eu não consigo fazer muita coisa além de ouvir, abraçar e lutar com elas. Outras vezes, M., eu também recebia mensagem das minhas alunas, como você fez hoje, e corria para ler empolgada. Não foi uma, nem duas, mas várias as vezes que as mensagens estavam ali para me reportar mais um caso de sofrimento. M., que é que eu posso fazer?

Queria levar todo mundo para casa e cuidar. Mas eu não posso cuidar nem de mim, você percebe? Meu corpo circula comigo para onde eu for, eu não posso esquecê-lo em cima da mesa da escrivaninha e achar que, ufa, essa noite ele não vai ser roubado. Eu só tenho algo que é meu porque sim: esse corpo e essa alma. Mas, aparentemente, ele pertence a todo mundo, menos a mim. E alma. Essa vai diminuindo conforme o meu sorriso apaga lendo a sua mensagem.

Piora quando a gente se fala e sabe que tem gente que simplesmente não se comove. É isso: a comoção é seletiva, e vem junto com uma certa consciência que não temos como obrigar outras pessoas a terem. A gente é só palavra, M., só essa arma a gente ocasionalmente consegue usar para explicar o inexplicável: o tanto que ser humano pode ser ruim.

Por isso, M., eu gosto tanto de vocês. Por isso que, por trás da carcaça odiosa, tem um abração aberto para vocês se enfiarem, depois da aula, no intervalo, virtualmente no computador. Porque eu só tenho isso a oferecer, mesmo.

Escrevi, enfim, só para dizer, publicamente, que eu estou com você; com ela, e com todas as outras. E que se eu não posso prevenir (e nem você pode) que elas sofram, que eu possa remediar com o amor imenso que eu registro aqui.

M.

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Feminismo

Feliz dia dos namorados!

O dia dos namorados é uma data ridícula, eu sei. É comercial, eu sei. Mas a gente não diz isso às adolescentes que, submetidas a uma força midiática imensa, e instruídas, muitas vezes, por quem reproduz esse padrão, acreditam que a felicidade está no outro.

A felicidade pode estar, sim, na relação que estabelecemos com esse outro. Porém, ela tem um vetor único: a origem deve ser você. Do amor? Idem. Não é possível amar alguém sem antes se amar. E se amar implica, devo dizer, respeitar muito você mesma.

Então, minhas queridas, o feliz dia dos namorados vai ser feliz quando namorar um rapaz mais velho não signifique ‘status’ entre seus amigos, quando fazer sexo não for uma imposição, mas uma decisão SEGURA tomada por você. O feliz dia dos namorados não vai ser quando ele lhe comprar um buquê de rosas vermelhas, mas quando ele incentivar suas decisões e permitir sua autonomia; será feliz se ele respeitar suas escolhas e não lhe impor as dele. O feliz dia dos namorados pode vir acompanhado de um jantar delicioso, no qual – atenção! – ele não espere que você aja como um bibelô que o decora. O feliz dia dos namorados não virá acompanhado de presentes, mas de lealdade. Esse dia não precisa de selfies no facebook, ele precisa não vir com exposições do seu corpo que ele trata como se fosse posse  dele. O feliz dia dos namorados é aquele em que você tem certeza que está ao seu lado alguém que a enxerga como um indivíduo pleno, autônomo e digno do maior respeito.

Não pode existir amor sem segurança. Não cedam a nenhuma pressão social. Não é que “antes só do mal acompanhada” porque vocês não estão sós.

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o quadro é da Mary Cassat, sempre temos a opção de comemorar com o catiorinho

 

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Feminismo, Sala de Aula

Não você, todos.

Depois da atrocidade que foi amplamente divulgada essa semana – e que, infelizmente, e só mais um caso dos inúmeros que existem de violência contra a mulher – escrevi um desabafo no facebook que falava da cumplicidade que há em tomar certas atitudes nessa vida. Copio na íntegra o que eu escrevi:

Se você desmerece professorA, se você faz piada sobre “lugar de mulher é…”, se você segura pelo braço da balada, se você encoxa no busão, se você viraliza nudes, se você delimita o caráter de uma mulher pela roupa, se você contribui para a indústria pornográfica, se você separa mulher entre ‘para casar’ e ‘para transar’, sinto dizer:

você é cúmplice. Não foram 30 homens, só. Foram bilhões, por 5000 anos.

Por alguns, fui amplamente apoiada, por outros, parcialmente. Por alguns homens, fui ofendida – recebi até “você é que deveria ter sido estuprada”, mas, em sua maioria, homens e mulheres (defendendo a pornografia – sobre isso já compartilhei um texto melhor do que eu poderia explicar) endossaram o coro do “não são todos os homens” ou, ao menos “não eu”.

Um, em especial, por ter sido de aluno meu, reproduzirei na íntegra:

Eu escolho com quem quero passar uma noite, ou minha vida inteira, assim como qualquer mulher tem direito de escolher. Me recuso a ser comparado com aqueles 30 animais, respeito você professora, mas dessa vez você vacilou.

Como bem marcou o comentário: eu sou professora. E posso desistir de explicar as coisas para todas as pessoas do mundo, mas eu jamais perderei a força para explicar as coisas para os meus alunos.

Mais que isso: sou professora de texto, literatura, interpretação, leitura. Então, vamos interpretar.

Ponto número um: eu usei a palavra cúmplice e não foi à toa.

Cúmplice, na leitura simplória do dicionário, pode ser definido como aquele que contribui de forma secundária para a realização de crime de outrem

Vejamos lá: obviamente que o sentido é metafórico, mas vou pressupor que o meu leitor – e talvez meu aluno, por falha minha – não saiba trabalhar com linguagem figurada. Quando dizemos que alguém não deve separar mulheres entre ‘para transar’ ou ‘para casar’ não estamos dizendo que as pessoas têm que se envolver e casar com qualquer outra pessoa, obrigatoriamente. Aliás, não queremos que você faça absolutamente nada. Na verdade, queremos que você não faça: que você fique quieto e não emita julgamentos sobre a vida sexual de uma pessoa.

Claro que você não é aquele rapaz que estuprou. Por isso, eu não disse que você é criminoso. Aliás, eu disse que era cúmplice apenas QUEM reproduzia esses padrões.

O direito é fundamental. As leis são fundamentais. Punições severas são fundamentais. Acontece que a coerção externa (o direito, a lei, a cadeia) precisam URGENTEMENTE virem acompanhadas de uma coerção interna (ética, consciência, mudança de paradigma, mudança de pensamento).

Eu já contei aqui que sou professora. Sabe o que isso significa? Que eu acredito que dá para mudar. Além de professora, sou feminista: acredito que vivo um problema cultura PASSÍVEL DE MUDANÇA. Do contrário, não lutaria. Aceitaria a derrota inata.

É claro que quando dizemos que os homens são opressores, estamos falando de uma categoria, para além do indivíduo.

Eu sei que é difícil, querido aluno e demais homens, não ser visto como um indivíduo iluminado e especial, como seus pais convenceram que você é desde sempre. Mas a sua categoria é opressora, HÁ 5000 ANOS, como eu mesma escrevi. É bem maior que você. Anterior, cultural, imenso, esmagador. É tipo a culpa pela destruição inesgotável da natureza. Não fui eu, sabe? Mas foi a minha categoria inteira de humanos que destruiu tudo.

Que tal, então, ao invés de gastar sua energia tentando me explicar o quanto NÃO é você o problema, seja um POUCO você a solução? Vai lá, seu amigo precisa de uns conselhos.

Quem vacila é ele, não eu.

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uma dica boa 🙂

 

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Feminismo

Fernanda Torres, assista a seu filme.

Em 1986, a (excelente) atriz Fernanda Torres estrelou o filme “Eu sei que vou te amar”, escrito por Arnaldo Jabour.

É um filme visceral, forte, de diálogos densos e violentos. A personagem de Fernanda Torres acaba de sair de um casamento e tem seu primeiro encontro com o, então, ex marido, vivido pelo maravilhoso Thales Pan Chacon.

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A história tem um único cenário: a casa onde viveram, cujos móveis estão cobertos pela nítida ausência de uma vida a dois.

Só há dois personagens: ela e ele. Tendo uma discussão sobre o relacionamento, que vai das traições que ambos cometeram ao bom e velho “cabou o amor”. Eu diria que é um “Closer” tupiniquim , com roupa dos anos 80 (figurino da Glória Khalil, se não me engano).

Eu não vou encher vocês de spoiler, mesmo porque é fácil achar esse filme na net. Mas a construção da personagem feminina é bastante forte. Ela escancara as veias e vísceras de uma mulher que foi criada para a submissão:

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A personagem conta, inclusive, de como a sua masturbação era velada, julgada, pela mãe, pela avó, pela sociedade.

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A personagem fala também sobre o quanto ele não a permitia viver, ser fraca, ser forte. Sua voz era constantemente calada. Há uma cena belíssima em que ela se comunica com o marido enquanto ele dorme e afirma que só assim ele pode ouvi-la.

“Será que eu vou ter que te matar pra você me ouvir? Será que eu vou ter que abrir no teu coração uma ferida pra você me ouvir? Pelo amor de deus não me ama tanto! O teu amor por mim só te glorifica, só te faz bonito… E eu? Eu? Eu sou o teu orgulho. Eu sou o teu desfile nas ruas. Eu sou você de vestido. Queria tanto que você me compreendesse. shhh… Faz silêncio. Ouve a minha loucura. Deve haver a possibilidade de alguém escutar o outro um dia. Deve haver uma palavra que uma vez dita muda o mundo. Me ouve, se não eu vou ter que te matar pra viver!”

Fernanda Torres disse que a vitimização do feminismo a incomoda. Ela pode achar que não sofreu nenhuma violência por ser mulher. Eu apostaria todos os prêmios da mãe dela de que sofreu, e não foi pouco. Reproduzir o discurso da violência não é raro em mulheres. Cobertas por alguns privilégios, as vendas ficam mais poderosas. É uma pena, porque Fernanda Torres tem influência.

Aliás, eu já dizia, Fernanda Torres é uma excelente atriz e deveria rever como atua bem em “Eu sei que vou te amar”. Acho que  ela se lembraria de alguns fatos de sua vida. Acho que talvez ela se reconheceria naquele sofrimento classe-média da personagem. Acho que ela não se lembra mais de uma regra fundamental da arte: não raro, ela é a própria vida.

(esse é só um comentário do acontecido, se quer ler uma crítica excelente ao acontecido, procure AQUI, é da Carol Patrocínio)

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