Gramaticolices, Num é?

sobre amor e possessivos

As línguas são muito diferentes entre si, mas a ideologia por trás delas, nem sempre. Venho refletindo há tempos sobre o uso do possessivo nas redes sociais. Não raras vezes – quando eu digo não raras eu quero dizer umas 10 vezes ao dia – eu encontro fotografias de casais  com legendas com o uso do possessivo: meu amor, minha vida, meu namorado. Isso é muito recorrente. Dias atrás, papeando com um amigo, percebi que quando me refiro a minha mãe para o meu irmão eu não digo: a mãe, ou nossa mãe. Eu digo: minha mãe te ligou.

Talvez eu precise lidar com a posse sobre minha mãe, mas quero refletir sobre os relacionamentos amorosos. Esses possessivos são pronomes adjetivos e costumam acompanhar um substantivo: MEU príncipe; MINHA rainha; MEU amor.

Um fenômeno curioso que veio observando é a anulação do substantivo, e o uso dos possessivos isolados: meu, minha.

Como minha timeline é bastante multicultural (meus pais são estrangeiros), percebi que em árabe isso é mais difícil de acontecer: isso porque o possessivo em árabe não pode vir desacompanhado do substantivo, pois a palavra DECLINA, ou seja: é dentro da própria palavra que marcamos o possessivo.

Exemplo:

Bait: casa

Baiti: minha casa.

Isso não significa que as pessoas de origem árabe que estão na minha timeline não usam o possessivo isolado. Já encontrei muitas recorrendo ao inglês – mine – e o mais frequente em países árabes, o francês: mon, mes.

Não sei mais línguas que essas. Não quero cagar regra para o mundo dos relacionamentos, que é a cagação de regra por excelência. Mas queria dizer que acho muito curiosa como a geração da aliança-de-compromisso lida com amor: acho especialmente triste vinda de mulheres, já que somos propriedade privada desde sempre. Sei lá o quanto disso é amor, mas menos posse, por favor.

o beijo klimt

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Gramaticolices, Sala de Aula

é que adolescente sofre.

Antes de começar a escrever, um aviso: não tenho pretensão nenhuma de escrever um “manual para melhorar a vida do adolescente”, nem dizer aos pais como tratar os filhos adolescentes, menos ainda criar um “manifesto pelo direito de adolescentar”.  Eu só quero dividir as minhas impressões de professora, que vêm mescladas com minhas memórias (já não tão) recentes da adolescência. Mais que isso: vou tentar explicar aos meus amigos, colegas, conhecidos, desconhecidos que acham esquisito e quase inacreditável quando eu digo: adoro adolescentes.

Mas eu adoro mesmo, e explico o porquê:

Para mim, o sorriso do adolescente vale o dobro. Adolescente sofre, gente. E não é tipinho não. Veja: eles não são nem adultos, nem crianças; têm e não têm responsabilidade; sabem e não sabem o que fazer. Não, não é fácil. E os problemas deles são reais. Não é porque eles não pagam conta que eles não têm preocupações. Uma espinha pode, sim, ser tão grave quanto o atraso do iptu, porque ambos são parâmetros que a sociedade nos impõe para nos cobrar. É preciso ter paciência com a dor e o sofrimento deles. Se houver paciência, há empatia. Quando há empatia e reconhecimento: a gente toca. E eles sorriem. SIM, ADOLESCENTES PODEM SORRIR. E quando eles sorriem para mim (ou riem de mim, tudo bem), eu ouço os sinos da glória.

A mídia não facilita. A vida, essa bandida, já não está fácil para ninguém que consome, minimamente, a grande mídia. É mentira para todo lado, lavagem cerebral pesada e um movimento invisível e massacrante sobre estética. Se está difícil para mim, com 26 anos e o mínimo de noção do que eu sou, imagine para alguém de 15, que não se localizou nem esteticamente, nem socialmente, nem culturalmente. Para alguém que é medido e analisado meramente pelo seu corpo, para alguém que cresceu envolto às redes sociais e que precisa provar seu valor pela imagem? É dureza crescer nos dias de hoje, galera. Eu era popular porque sabia falar outra língua, enquanto esses meninos nascem sabendo falar outra língua e precisam ganhar curtidas para que a sociedade os veja como alguém de valor. Às vezes, ao invés de explicar algo sobre isso, as pessoas ridicularizam essa competição que é tão ferrenha, piorando o que já é uma merda.

Eles não são necessariamente desinteressados, nem desinteressantes. A nossa mania de achar que o envelhecimento é uma necessária evolução é tão errada. Chamar adolescente de aborrecente é, aos meus olhos, um atestado de incapacidade de lidar com a alteridade. Adolescente é o alter por excelência, porque ele está no auge da impossibilidade de identificação. Ele não se reconhece nem em você, nem no espelho: chamá-los de aborrecente ou algo que o valha só aumenta o abismo gritante entre os ‘adultos-donos-da-verdade’ e esse ser, que precisa de um apoio, afinal, ele está sendo jogado, sem aviso nenhum, no mundo violento da gente grande. São cobrados deles que eles ajam como adultos, mas a confiança que lhes é dada é a de um bebê engatinhando. Vocês não confiam neles e esperam confiança por parte deles? É sério?

Adolescentes são vivazes. O sono do adolescente é muito sincero, faz parte dele. Deixe ele dormir um pouco mais, vai? Apesar desse sono incontrolável, eles são cheios de energia e, quando essa energia está bem canalizada, ela produz coisas lindas: já não tão cruas quanto a das crianças, mas também não tão cristalizadas como as coisas que nós, velhos de guerra, produzimos.

E, por fim, adolescentes são lindos. Nas espinhas, no cabelo sem identificação, nas bijuterias desordenadas, nas roupas confusas e naquela voz que não se define. Quisera nós podermos ter um pouco de confusão adolescente na cabeça: saber um pouco menos o que estamos fazendo da vida…

ps: sei que algumas características apontadas no meu texto se resumem aos adolescentes de classe-média com os quais me envolvo hoje em dia. Mas muitas delas, na realidade, são de todos os adolescentes…se eu pudesse dizer só mais uma coisinha: não faz sentido nenhum jogar tudo isso numa cadeia. Sem chance nenhuma de (sobre)vivência.

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Gramaticolices, Sala de Aula

O amargo preço da recompensa

Somos educados a esperar recompensa. Quem não chora, não mama. Então a gente chora para poder mamar. Estuda para tirar nota. Tira nota para agradar aos pais, à sociedade toda. Agrada aos pais para ganhar elogios. Ganha elogios porque a aceitação do outro sempre será o que há de melhor. Mas não deveria ser.

Está na lógica da recompensa a grande parte das dores que podemos sentir. Sinto isso, desde que me tornei professora, todos os anos, com meus alunos. Eles estudam, eles tentam, eles se esforçam: mas, às vezes, eles não passam. Por que será? Não mereciam a recompensa? Mereciam, sim. É dolorido, é cruel, é injusto. Passar no vestibular não é o prêmio dos melhores, é o treino da recompensa ERRADA. Ela sempre virá? Nem sempre. Quase nunca. Por quê? Por que não eram capazes? Falácia de falsa causa: quem não foi capaz de ter a vaga foi o mundo. Todo mundo deveria poder estudar. Todo mundo deveria assumir sua sexualidade. Todo mundo, todo mundo, mas é quase ninguém.

E vem a vida, vem o trabalho: férias, salário, abraços, viagens. Queremos recompensa. Fizemos um almoço para os amigos: que se deliciem, que agradeçam. Queremos ganhar um chiclete big big de morango, já que demos um pirulito de coração, semana passada. Recompensa até espiritual: fazer o bem pelo reino dos céus e pela vida eterna.

A lógica é a da recompensa. Não discordo, nem sei se deveria mudar. Mas ter a consciência talvez garanta que a gente sinta menos dor. Porque dói ver janeiro acontecer e alguns alunos ficarem para trás. Porque dói ter feito tudo para encontrar sua melhor amiga, e ela furar. Dói ter preparado uma aula cuidadosa e o seu aluno dormir.

Esses dias dei uma tema polêmico: falar de feminismo e transsexualidade ainda é difícil em sala de aula. Como recompensa, eu esperava que alguns mudassem. Algumas vezes, recebi de volta machismo. Noutras, fui mal interpretada. É claro que tive a recompensa de algumas lágrimas emocionadas, abraços sinceros e mudanças visíveis. No entanto, fiquei pensando se eu não deveria desencanar e falar, pela sétima vez, que “onde” é pronome relativo para lugar. Fiquei pensando se eu não deveria parar de tentar almoçar com minha amiga, já que eu não tenho tempo e ela vai furar mesmo. Fiquei pensando se escrever declarações de amor são recompensas vazias.

Porque a gente pensa em desistir. Todo dia. É tão comum e recorrente.

E quem fez tudo certo e não recebeu nada, absolutamente nada, em troca? E quem recebeu de volta a violência? 

O mundo trasvestiu “obrigada” de socos e pontapés. Ao menos a gente se sente vivo.

Por fim, sem sair da lógica da recompensa – que é cruel e acaba nos engolindo – eu me lembrei do que já me disse, várias vezes, a minha mãe: a recompensa é a paz de espírito de ter sido justa com a sua consciência. Individualista, eu sei. Mas é que estou certa que eu não vou decepcionar a mim mesma. Nunca mais. É a minha recompensa final.

The painting SATURN by the Spanish artist GOYA.

The painting SATURN by the Spanish artist GOYA.

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Gramaticolices, Humorfina

aula de conjunção

Professora, como faz para ter boa coesão?

Utilize conectivos adequados para expressar a relação entre as partes do seu texto.

Não sou homofóbico, mas. Não sou intolerante, mas. Não sou xenófobo, mas. Não sou gordofóbico, mas. Não sou transfóbico, mas. Não sou machista, mas.

Mas é conjunção coordenativa adversativa.

à

Não precisa ser afetado; se fosse filho meu, matava; isso é safadeza; foi abusado quando criança; vai pro inferno; deus num perdoa; você pensa assim porque fez humanas; eles vêm de fora para roubar nosso emprego; cubano tem que fazer charuto; haitiano num é africano?; africano é tudo preto e preto num gosta de trabalhar; preto tem ebola; preto tem isso; não é racismo achar preta feia; preto e gordo, deus me livre; gordo é tudo preguiçoso; é gordo porque quer; nenhum gordo é feliz; gordo é engraçado; viado sabe tudo de moda; mulher dirige mal; tem pau é home, o resto é zuera; num pode ser minoria quem tem mais de 50%; mulher não entende disso; você acredita nisso porque jovem; você diz isso porque não sabe como o mundo é; o mundo é ruim, mau; queria o que vestida assim?; professor tem que trabalhar por amor…

adversativa.

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