Cartas d'ela., Pensamento Desvairado

(d)o amor

Porque eu tinha uma ideia certa do que é o amor, não reconheci que havia amor no modo como você às vezes me afastava de você. Por achar que o amor era um só, eu não soube distinguir seus jeitos complicados de me dizer que estava ali. Tendo vivido o que você viveu, tendo sentido o que você sentiu, continuar ali era também dizer que havia amor – ou, mais importante que isso: disposição torta para amar. Mas eu não via. Como meu culpar se eu tinha os olhos tapados pela dor que me escureceu a vista antes de você? Muita lágrima embaça a vista e, até você chegar, muito pouco eu enxergava. Por desconhecer ainda o que é o amor, sei racionalmente que ele é meu e sorte a minha poder sentir, mas enlouquecidamente desejei que ele retornasse até mim. O amor tudo supera, eles me disseram: mas houve dias que eu não pude superar. O amor nada pede, eu aprendi: e me machuquei por te cobrar. O amor verdadeiro é incondicional? Houve vezes em que houve condições para amar. Por não permitir que você me amasse ao seu modo, acreditei que eu pudesse deixar de sentir. Logo eu, que vi seu rosto no prato de macarrão e me virei inteira para encontrar uma vaga no espaço  apertado que você deixou para alguém preencher. Eu,espaçosa. Eu, folgada. Eu, que rasguei com unha toda proteção que me impedia de entrar. Eu, que lutei para caber.  Eu que exauri tentando e achei que se fosse amor, eu não cansaria. Porque eu achei que tinha uma ideia certa do que é amor, achei que ele viria como eu o esperava e quase não o reconheci assim que ele chegou. O amor que é ego; o amor que é cego. Eu, que não percebi que o amor não era uma consequência evidente do “tudo é perfeito”; tampouco uma criação espontânea, eu, que quase esqueci de olhar para o único lugar que poderia responder o que é o amor: dentro – lá bem dentro – de mim

e adivinha? você continua ali.

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Cartas d'ela., Pensamento Desvairado

Vamo lá, time.

Não contra, junto; não versus, mas versos. Disparados no placar. Não há adversário que dê conta. Se você ganha, eu também ganho; se você perde, eu divido a culpa. Se eu posso, você topa; se você não pode, eu me ajeito. Sem jogo, pra gente não competir. Sem tacada, sem mentira, sem conversinha.

só a nossa boa e velha honestidade.

só o nosso bom e velho papo.

O maior erro é quando a gente faz do amor um jogo. Porque eu sou competitiva. E eu vou ganhar, eu sempre vou ganhar: ou eu ganho, ou o jogo acaba. Se você fica do outro lado, perco eu, perde você; perdemos nós os nós.

O maior erro é quando a gente faz do amor um jogo. Sabe o senso de pertencimento? Eu quero pertencer a você. Eu gosto de você lutando por mim assim como eu vou lutar por você. Gosto como a gente forma uma boa dupla. Gosto de como a gente fica mais forte. Não é que a gente precise; mas funciona melhor assim: tipo gangorra, eu quero ser teu impulso.

Sozinha eu dependo do chão pro meu balanço voar. Com você, só dos seus braços e do empurrão certo.

Não vai ter medo, sabe? Ninguém tem medo quando sabe que, se cair, tem quem segure. Que se tudo girar, tem quem centralize. Que tem alguém que fecha com você.

O amor acabou quando eu tentei ser mais que você e não mais com você. O amor acabou – e seguirá acabando – quando você quiser sorrir acima de mim e não comigo. O amor acabará quando você não puder mais comemorar as minhas vitórias cansadas e chorar meus cansaços vencidos.

Dupla é de dois. De um nem é time, não. Se a gente vai juntinho, vai bem.

Porque nós dois somos um time campeão.

maos-dadas

 

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Fofurinhas

Essa semana, li com meus alunos  uma crônica do Ivan Martins que é super interessante, chama “Os Códigos do Afeto“. Nela, o feio-bonito discute que criamos códigos privados – na maioria das vezes embaraçosos, para sinalizar para outra pessoa que está conosco que a gente gosta dela. E isso,  no limite, faz surgirem apelidos ruins e barulhos esquisitos. Ou vozinha, também. Acho engraçado pensar sobre a esquisitice das pessoas e como essas coisas podem deixá-las apaixonantes ou insuportáveis. E é tudo tão subjetivo quanto uma paixão pode ser.

Gente que morde o lábio pra pensar talvez seja o traquejo mais padronizadamente estabelecido como interessante e, justamente por isso, amplamente apropriado. Aí não tem a mesma graça. A graça está nas coisas que fazem da pessoa ser o que ela – e todo seu charme – é sem, no entanto, que ela perceba que é isso. Bons jogadores na arte da sedução não revelam às pessoas quais são esses elementos tão sedutores, senão são facilmente coaptados.

Eu, porém, que não vejo paixão como jogo e que não quero perder nem ganhar, geralmente deixo explícita essas, por assim dizer, ‘fofurinhas’ que me seduzem. Eu entrego o jogo bem rápido, até pelo meu olhar… Fofurinha é traquejo, malemolência, é mimetismo. O jeito que olha, o jeito que ri, o jeito que apoia a mão na cintura. O jeito que debruça na janela ou descansa despretensiosamente na pia. O jeito que amarra o cabelo. O jeito que dedilha a minha pele enquanto percorre o desenho das minhas tatuagens.

É bem provável que eu não lembre com exatidão detalhes físicos das pessoas por quem me apaixonei nessa vida. Mas essas fofurinhas: a postura, o modo como sorri ou pisca são sempre um negócio inesquecível. Porque é aí que eu me balanço. É no modo de sentar, de conversar, de comer, de segurar o copo. Eu já me desapaixonei jantando com uma pessoa: não tô falando de etiqueta na mesa, não; eu desapaixonei porque faltava a vontade de comer, o modo de conduzir tudo como se o almoço fosse o momento mais banal do mundo. Eu gosto de gente gosta de comer e isso conta muito mais que olho claro. Faltava paixão. Por outro lado, já me apaixonei vendo alguém comer com devoção e carinho. Se a pessoa não tem carinho quando se alimenta, nunca vai me entender.

Eu gosto de gente que vira a folha pra escrever. De gente canhota – que fica especialmente bonita abrindo latas e usando tesouras. Gosto do jeito que contam histórias. Gosto do jeito que discordam ou concordam comigo. Gosto de gente que demonstra as coisas. O silêncio não me atrai.

E a fofurinha só vem quando a pessoa está desarmada. Gente que se programa demais não tem espaço para dar conta da autenticidade da fofurinha. Quem pensa demais na própria forma de conduzir a conversa, pensa demais em como conduzir a vida. E o bonito tá no inesperado, no gesto que entra de bicão no meio do nosso tão treinado comportamento.

Gosto do jeito que se espreguiça ou do jeito que me chama. Gosto do jeito que mexe na minha unha. Gosto da mania de respirar bem fundo, à toa. Gosto que enrolem pra me dar algo que eu pedi – vai entender? Não sei explicar, não saberia desenhar, nem apontar como tudo isso funciona. É um negócio que palavra nenhuma explicará o suficiente e que foto nenhuma vai deixar transparecer…

Hoje, porém, o mundo é das imagens. Vemos e cansamos de ver as pessoas por fotos, e, por mais linda que seja a foto e a pessoa – e que isso seja evidente e real – nunca a foto poderá capturar a fofurinha. Nunca dará conta. O bonito tá na cara amassada de sono, no sorriso meio de lado, meio torto quando ele se constrange. A felicidade que parece mais animada quando ri da minha cara e faz de mim o alvo das piadas. Achar bonito na foto é a coisa mais fácil do mundo. Difícil é se manter forte e indiferente ao modo como a cintura é enlaçada e envolvida. Ao cheiro. À forma como distribui o peso quando pesa sobre mim, ou beija bem no meio das minhas costas, onde ninguém vai beijar. O que é só dele e dela é que o que faz da gente dela e dela. Não adianta: mãos delicadas, cabelo bonito, barba ou um sorriso nunca vão superar, em seu poder magistral de virar a gente do avesso, a forma como ele ou ela, na exata despretensão de só querer ser só exatamente o que se é, vivem.

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Escorre

Tava ali, deitada, como quem não quer nada; tava ali, quieta, absolutamente parada. Eu que não procuro tristeza, eu que só sei ir correndo abraçar toda forma mais ou menos nítida de felicidade, eu que tava ali, completamente absorta; até eu, euzinha, eu vi.

Eu, que quase nunca quero ver, vi. Eu que não distinguo dentes de nuvens, olhei pro céu desacreditada: até a lua me consolou. É, minha filha, a vida é um apanha e assopra sem fim; ora leite, ora café; dia limão, dia mamão.

E nessa de ida e vinda, a gente vai aprendendo a gostar do escuro. O quase-desconhecido, o quase-nada, quase-tudo, a dança perdida da madrugada, o desequilíbrio. O escuro escorre. Tem textura, cheiro, cor e passa de corpo a corpo. O medo do escuro é meu companheiro mais antigo e mais confuso: ele nunca vai embora, mas ele nunca fica.

Desejo o escuro como quem deseja o fim da festa; quase não desejando. Desejo o escuro como quem sabe que, de olhos fechados, ninguém mais pode me ver. Só tocar. Uma, duas, três vezes. O escuro ganha a forma minha mão e encaixa lenta e delicadamente onde for melhor pra mim: dentro, fora, embaixo, em cima. E escorre, formando um lago turvo que fica entre o assustador e o totalmente cativante.

Sei lá que tipo de criaturas poderiam morar ali. Eu conheço uma só, a gana. A gana que tá sempre com fome, que não se contenta com o hoje e fica querendo o amanhã; mais um pouco, mais um dia, só mais meia hora. A gana que é feita da mesma matéria da minha gula – sempre ali, sempre pronta para tirar de mim todo o resto de energia que, por ventura, tenha me sobrado. A gana que me consome. Ela se alimenta da mistura do meu medo com a minha vontade e faz disso uma arma absolutamente letal que explode, molhada, bem na minha cara.

goya

 

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Da incompetência

O mundo tem mais gente incompetente do que ruim. O mundo tem mais gente que faz errado do que certo, porque simplesmente não tem competência pra fazer o certo. Tem mais gente desonesta que honesta porque é mais fácil. Tem mais separação do que tentativa porque é menos doloroso. Tem mais individualidade do que coletividade porque é infinitamente mais fácil trabalhar sozinho. Trabalhar sozinho é bem sussa: você lida só com suas neuroses, seus problemas e suas dificuldades. Não tem essa de diálogo, de empatia, de tentar fazer diferente. É só continuar errando e acertando sozinho, da maneira incompetente de sempre. Incompetência tem menos a ver com resultados do que com processos. Tem gente que não sabe proceder. É infinitamente mais easy ser sozinho e as pessoas quase nunca têm competência para fazer diferente.

Eu sei da maldade do mundo. Mas tendo a achar que tem gente que não tem competência pra ser mal, ruim cruel: a maldade exige inteligência e algumas pessoas simplesmente fazem o que fazem porque sequer saberiam fazer de outro modo. Tem gente que age como age porque não descobriu que a chave que liga o “agir diferente” também liga o “ser diferente”. E as pessoas mudam de roupa, de estilo, de desejos, mas o que elas são não tem coragem – às vezes, competência  – pra mudar.

No universo de incompetentes, também temos os competentes: tem gente que sabe pra que veio ao mundo e pra que não veio; tem gente que tem competência até na hora de explicar o óbvio (é preciso inteligência pra falar o óbvio); tem gente que sabe estar com as pessoas, sabe fazer companhia. Há os competentes e eles estão aí: dividindo uma cerveja, acordando amassados, lidando com a vida porque a vida lida com eles. A competência é uma questão de humanidade. Todo mundo pode, mas nem a todo mundo convém, porque existe na competência uma consequência perigosa que é topar de cara com a felicidade.

E ser feliz exige muita competência.

 

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Eu preciso escrever

Eu preciso escrever. Tem livro pra revisar, artigo pra ler, mas eu preciso escrever. Sobe pela nuca uma coceira, o estômago revira – mas nem é fome, nem enjoo – e a mão com comichão. Eu preciso escrever ou isso vai me tirar o ar e a concentração. 35 provas pra corrigir, mas eu preciso escrever, porque o sentimento me inunda, porque eu tô desesperada, porque eu tô bem demais, porque eu preciso escrever. Eu preciso colocar no papel o mínimo de organização que a minha cabeça não tem. Eu preciso escrever porque, de repente, você disse tudo. E bate agora essa vontade, porque você trouxe vontade de volta, enquanto eu só escrevia das desvontades da vida. Eu preciso escrever porque tem alguma coisa aí que me obriga. E quando vem essa vontade, ela não escolhe horário. Eu preciso escrever quando acordo, quando quero dormir e não tem sono que vença a vontade de escrever: é pior que vontade de fazer xixi, quando a gente tenta fingir que ela não existe, piora, nunca mais a gente dorme e só encontra paz quando levanta. E se não levanta, esquece. E se culpa, porque queria dar vida àquela quase-vida de texto. Eu não faço a mínima ideia o que é ter paz há dias, mas de repente, assim, como quem não quer nada, esse texto escorregou dos meus dedos e eu encontrei um pouco dela. Talvez passe, talvez outro texto venha pedir que eu vomite aqui. Eu preciso mesmo escrever porque eu quero deixar registrado, para lembrar daqui a 40 anos, do fim de semana mais esquisito – no melhor sentido possível  – dos últimos tempos. Eu preciso escrever pra dar vida, forma, cheiro, tato. Eu preciso escrever pra dar existência ao impalpável. Ao convite do abstrato. À matrix que a gente criou. Eu preciso escrever porque tem você pra ler, e ler faz toda a diferença.

 

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Teu soneto

A gente é folha de papel em branco: a vida vai rabiscando na gente, mas ora ou outra amassa e joga fora. Tem dia que a vida pinta um cenário escuro de carvão e por muito pouco as folhas secas das árvores desenhadas não voam sobre o nosso rosto.

Tem dia que a vida pinta com aquarela, fazendo da nossa lágrima a água que faltava pra tinta, sempre clara, sempre suave, nem sempre doce.

Tem dia que a vida pinta colorida. Traz um monte de sorriso no dia que prometia saudade. Nesse dia a vida usa giz de cera e faz um retrato infantil: de uma felicidade clandestina que só uma criança pode sentir.

O vida, eu não vim pra esse mundo pra ser desenho. Eu sou filha de letra. Faz de mim um poema e encontra rima entre as costelas, métrica no meu sorriso. Copia aqui tudo que você quer dizer, que eu moldo em poesia esss arte que você domina bem; o acaso, a sorte, a coincidência.

E depois me lê.

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