Cartas d'ela., Pensamento Desvairado

Teu soneto

A gente é folha de papel em branco: a vida vai rabiscando na gente, mas ora ou outra amassa e joga fora. Tem dia que a vida pinta um cenário escuro de carvão e por muito pouco as folhas secas das árvores desenhadas não voam sobre o nosso rosto.

Tem dia que a vida pinta com aquarela, fazendo da nossa lágrima a água que faltava pra tinta, sempre clara, sempre suave, nem sempre doce.

Tem dia que a vida pinta colorida. Traz um monte de sorriso no dia que prometia saudade. Nesse dia a vida usa giz de cera e faz um retrato infantil: de uma felicidade clandestina que só uma criança pode sentir.

O vida, eu não vim pra esse mundo pra ser desenho. Eu sou filha de letra. Faz de mim um poema e encontra rima entre as costelas, métrica no meu sorriso. Copia aqui tudo que você quer dizer, que eu moldo em poesia esss arte que você domina bem; o acaso, a sorte, a coincidência.

E depois me lê.

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Pensamento Desvairado, Tra-lá-lá

Deixa eu bagunçar você?

Eu sou muito bagunceira. Sempre fui. A minha mãe, uma santa, tentou inutilmente me ensinar que as coisas aparecem mais fácil se a gente as deixa sempre no mesmo lugar. Ela também tentou me ensinar que se a gente arruma sempre, não precisa passar dois dias para deixar o quarto habitável. E que seria uma boa devolver o que a gente tirou e não usou. Ela tentou, coitada, e eu – não por maldade, eu juro – nunca consegui aprender. Eu bagunço muito, o tempo todo.

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É assim: eu sou ansiosa demais pra procurar as coisas com cuidado, apressada demais pra devolver tudo. Louca demais pra me achar na organização. Não acho que existe um lugar óbvio para as coisas ficarem; além disso, é muito chato que alguém diga que existem posições óbvias para a gente ocupar. E se, por um lado, às vezes tenho raiva de mim mesma por ser assim – tipo quando tô com pressa e não acho minha chave – por outro, devo dizer, tenho uma espécie de orgulho. Afinal, todo bagunceiro de verdade é, por excelência, um antirrotulador e alguém que gosta das coisas bem juntas.
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O fato é que, sim, eu sou desorganizada: em todos os cômodos da minha casa, mas também meu cabelo e minhas roupas; minha lousa e minha geladeira; meus sonhos e as minhas opiniões. Tudo em mim está misturado e é muito difícil que se separem. Todas as partes de mim se confundem entre si e, às vezes, não me deixam decidir qual das minhas versões é que fala agora. 
Queria dizer, mãe, que às vezes é bom não saber nem onde, nem como as coisas estão. Que procurar de novo pode nos fazer achar algo incrível que a gente nem percebeu que tinha perdido. E que fazer uma limpeza no armário e no coração, depois de acumular muita bagunça, pode ser libertador.
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Na minha casa, tem livro na cozinha, tem café no quarto, tem sabonete na sala. Lá, as minhas amigas esquecem suas coisas. Lá, tem sempre uma xícara de chá esquecida no canto, uma rolha de vinho jogada por aí. A minha casa, igual a tudo o que eu tenho dentro de mim, não segue nenhum padrão de organização. Isso porque, lá e aqui, cabe todo mundo, sempre. Não tem essa do lugar ser só de uma pessoa, a galera toda é bem vinda e a minha bagunça sempre pode acolher.
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Casas arrumadas demais, impecavelmente organizadas, não recebem pessoas. Casas com tudo exatamente no lugar não recebem nem os amigos, nem a ressaca deles. Casas impecáveis não tem espaço pra vida, pra soneca pós almoço, pra ver filme, comendo chocolate no sofá. Onde houver vida humana, tem que ter bagunça. Onde houver amor, vai ter roupa jogada no chão: porque o amor, às vezes, tem muita pressa. Casas não podem estar perfeitas se, afinal, pessoas imperfeitas habitam nelas…
Aliás, desconfio, que isso diz mais do que casas: pessoas que sabem muito bem a que pertencem, quem são, o que estão fazendo aqui  são iguais as casas em que o tapete não se mexe: não tem mais ninguém caminhando dentro.
É por isso que o verso faz todo o sentido do mundo: deixa eu bagunçar você?
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Pensamento Desvairado

A intensidade como ela é…

Eu lembro direitinho, como se fosse ontem. “O problema é que você é muito intensa e isso sufoca”, disse um rapaz por quem eu me apaixonei na juventude. Com o passar dos anos, essa frase se repetia exaustivamente na minha vida, seja amorosa (“tá indo rápido demais”; “mas é muita coisa”; “vai com calma”), como também nas minhas relações de amizade (conheço poucas pessoas que tiveram uma amizade com término. Eu já tive!).

A verdade é que sim, eu sou muito intensa. E me apaixono perdidamente, e respiro a pessoa, vivo a pessoa, descubro cada pedacinho dela, enlouqueço a ela e a mim, giro na órbita maluca e na velocidade que só os muito loucos (ou muito apaixonados) conhecem.

E isso é um defeito.

Ao menos, isso sempre me foi apontado como um defeito.

Uma ou outra pessoa que eu conheci me disse que isso era uma qualidade – coincidência ou não, essas pessoas seguem na minha vida até hoje. Trombei e me apaixonei pelos indiferentes em relação  a isso: ok que você seja assim intensa, eu não sou e seguimos bem – bem até hoje, eu diria. Acho, aliás, que essa é a relação mais pacífica que eu estabeleço com o mundo, quando a outra parte é mais tranquila, mais racional.

E essa intensidade não se dá só na vida amorosa, não. Eu me entrego de corpo, alma, pele e ossos ao trabalho que eu me apaixono. Às causas que eu acredito. Aos alunos com quem me identifico. Às paixões políticas. Sociais. Eu me apaixono até mesmo por restaurantes e por pratos específicos que eles servem.

Ocasionalmente, isso passa. As coisas pelas quais eu estou apaixonada mudam, mas eu sempre estou nessa loucura. E, na crença que me imputaram de que era errado ser assim – não culpo as pessoas, vivemos a era da parcimônia, do equilíbrio, dos mediadores, das good vibes e da positividade meu cu  – eu lutei contra minha natureza e tentei, incansavelmente mudar.

E aí, mais de uma vez, estabeleci o movimento de proibir a mim mesma de me entregar às pessoas, sejam elas físicas ou jurídicas.

Mas quem uma vez conhece a liberdade, não pode mais voltar atrás. E eu já senti esse gostinho da liberdade que há – a mais sincera de todas – em ser quem eu sou, na medida exata da minha natureza. E eu sou apaixonada (olha que coisa!) por mim também.

E eu não vou ficar quieta, não. Vai ter texto, música, poesia, dor, vinho, sofrimento, cachaça, abraço, lágrima, gritos, desesperos. Vai ter tudo que cabe na palavra intensidade, que é o nome pelo qual eu atendo no vale dos sentimentos.

Se isso é bom eu não sei. Ruim, menos ainda. É só (e tudo) que eu tenho a oferecer, junto com um batom vermelho, ao mundo que me cerca.

Na pele, pra não esquecer: Como posso amar a grandeza do mundo, se não posso amaro tamanho da minha natureza?

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A música que não acaba

Tem dois tipos de músicas nesse mundão: a que acaba e a que não acaba. Mentira: ambas acabam; mas uma honestamente, outra não, vai repetindo loucamente alguma parte da música – o próprio refrão, possivelmente – até o som ir baixando, baixando e minguar. Não respeito esse tipo de música.

As consequências do refrão repetido à exaustão são cruéis: recorrentemente, pegamos raiva desse refrão; além disso, a gente fica com a impressão de quem tem mais. E se tem algo que eu não gosto de sentir é uma falsa esperança de continuidade. Ou tem ou não tem mais vinho. Ou tem ou não tem mais pizza. Ou tem ou não tem mais carinho. Não me forcem a subir o som e tentar entender o que está acontecendo: ou termina ou continua, ficar nesse meio termo é cruel, sabe? E se a gente não pega raiva do refrão, pega raiva de si mesmo, já que se pega repetindo as mesmas palavras junto com a canção, como se fizesse algum sentido isso.

Até aquela que acaba antes da hora é melhor do que a que morre no próprio refrão, pelo menos – seja por imaturidade, ou por não ter mais nada a dizer – ela soube a hora de partir.

Sabe o que é pior? Que escrevo esse texto enquanto uma música acaba assim, repetindo o refrão. E eu? Eu sigo mesmo assim cantando. Aprendi bem certo a lição do desapego, mas ela sempre foi muito teórica e pouco prática. Na hora de desligar o som – considerando que eu o faça – eu sigo cantarolando sozinha o refrão infinito.

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Aquela luz amarela

Não gosto de roupas amarelas, mas gosto de luzes amarelas. Luz branca tem aquela mania de deixar a gente entre o apático e o infeliz – e sempre acaba denunciando o azul acinzentado das minhas olheiras – , enquanto a luz amarela tem aquele quentinho gostoso e um jeito bom de deixar a gente confortável. Luz amarela favorece a pálpebra semicerrada, e é tão bom ficar com os olhos entre o aberto e o fechado, prometendo uma visão parcial (e, por isso mesmo, mais bonita) do mundo. Luz amarela parece fim de dia de outono, no jardim do instituto no segundo ano de faculdade, quando eu sabia que no dia seguinte eu só teria que pensar numa forma nova de aproveitar todos os meus minutos da maneira que eu bem quisesse. Parece que luz amarela promete mais minutos nessas horas de prazer. Traz de volta pra gente um gosto bom que a gente tinha esquecido: o de postergar a preocupação. Luz amarela é luz prazerosa, luz pra fazer cafuné (luz branca é de computador, pra gente estudar e reclamar de política). Luz amarela vem com chocolate, com pizza, acompanha beijinho na nuca, é cor de sol renovando a energia dos diurnos.

Que injusto eu dizer que desprezo tanto o amarelo. Eu que sou uma criatura do dia. Bem mais girassol que rosa.

Luz amarela de semáforo eu também gosto, porque num tem resposta certa, ali. Eu que lido tanto com alternativas e soluções, gosto de me lembrar que, na verdade, vida nenhuma tem gabarito. E não são poucas as vezes que, não querendo ter que decidir, a gente espera que decidam por nós. É fácil lidar com proibições e permissões totais: verde anda, vermelho fica. Mas o amarelo pede decisão, autonomia: será que tá mesmo na hora de entrar de cabeça nisso? Será que eu deveria recuar de vez? O amarelo me lembra que é bom pensar mais um pouquinho em como não pensar em nada e aproveitar aquela esquina com semáforo para abrir a janela, cantar aquela música que tocou em lopping nos últimos dias e respirar o ar da cidade. Pressa pra quê?

Tem gente que é luz amarela, que tem gosto de cerveja (amarela!), de fim de tarde amarela, de soneca depois do almoço, de semáforo indeciso, de mão percorrendo as costas da gente e voltando com a certeza de mais um arrepiozinho. Gente que vem pra sacudir as imposições vermelhas e as liberdades – às vezes livres demais – verdes. Gente que faz a gente pensar mais cinco minutinhos. Gente que lembra a gente que a decisão é nossa – até de decidir não decidir nadinha e abrir mais essa amarela cerveja.

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Cartas d'ela., Pensamento Desvairado

Há um espaço

Aqui nessa cama, há um espaço: tento preenchê-lo esticando ao máximo as pernas, quase em forma de estrela, mas eu não preencho o espaço.

Entre nós, há um espaço: tento preenchê-lo esticando ao máximo as minhas palavras, quase em forma de trilhos, mas eu não chego aí, eu não preencho o espaço entre o tem timbre e meu tímpano.

Insanamente, eu fico tentando preencher o espaço: procurando um último cheiro, buscando suas fotos, tentando lembrar como sua voz soa pessoalmente. Lembro perfeitamente do seu toque e do espaço entre o nariz e os olhos, que eu gosto de beijar. Mesmo assim, o espaço fica, me espreme, me lembra como é difícil quando o vazio fica encarando a gente, esperando por respostas que eu não sei nem se começam por pois ou talvez.

Você é melhor que eu; aceita o espaço, faz dele parte do seu dia, da sua cama, da nossa vida. Você fica no cantinho, sabendo que não dá pra preencher sem matéria o impossível espaço da saudade.

Você, mais racional que eu, espera com calma o dia que a tua gravata volta a encontrar meu salto vermelho, naquele baile de gala (e máscaras) que é o nosso encontro. 

Tá tudo bem, respirando, eu sigo contando os dias, enquanto meus dedos acarinham sua lembrança no escuro.

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Cartas d'ela., Pensamento Desvairado

As criaturas da noite

Eu sou um ser humano diurno. Gosto de acordar cedo, gosto de fazer render a manhã, gosto de sol e de balada que começa depois do expediente e acaba antes do dia seguinte chegar.

A despeito disso: sempre me apaixono pelos notívagos. Sou filha e irmã de notívagos. Sou errada na família, durmo antes de todo mundo e acordo quando eles tão no auge do sono. Invejo os notívagos porque eles podem contar estrelas como quem conta saudades, porque eles têm o silêncio do sono alheio para deixar a música, os filmes e os pensamentos mais indecentes dançarem em si.

Essas criaturas da noite que tem a pele quente e não precisam do sol como eu, que quase sempre tô morrendo de frio.

Eles que podem esperar o sol nascer para dormir, enquanto esse nascer é o meu despertar. Acho que todo notívago tem um charme esquisito no modo de levar a vida? Um quê de vampiresco. E eu, que tenho vocação para Mina, entrego meu pescoço rapidinho e dou a eles minhas noites, enquanto morro de sono o resto do dia, sonhando acordada.

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