Poeminto

Poesia de quinta

Eu não costumo fazer poesia
Porque é preciso, pra isso, boas mãos
E as minhas que escrevem o dia a dia
Não são…
Por ti, esculpida com maestria
É como se me redimensionasse
Cabendo de novo em peito
Fazendo com que fosse outra
Mas a mesma
Há um tempo congelada
Como se a vida por mim passava
E eu não via
Essa malacabada que não faz poesia
Rima fácil dedo a dedo
Concreta passagem pelo corpo
Do lábio ao pêlo
E se, ainda que não faça poesia,
Hoje eu te entregue essa
É que ainda é quinta-feira
E minha saudade tem pressa.

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Poeminto

Não dê

Não dê a qualquer um os seus poemas

Eles são fracos demais para aguentá-los

culpam os outros, contornam o espaço

para negar tua rima entregue.

Não importa os olhos que lhe comovem

Não dê a qualquer um os seus poemas

Rasos, fundos, úmidos, secos

Falta mão para segurá-los

Os poemas gritam no colo dele

e você mal pode acalmá-los.

Não dê a qualquer um os seus poemas

Se a tocam fundo é porque levam consigo

O que há em você de mais esquecido

Não importa que mãos a enlaçam

Não dê a qualquer um os seus poemas

Que a palavra uma vez dita

faz do sonho falado a ação vivida

e faz da história imaginada

a verdade fundante desse mundo.

Por isso

escuta

NÃO DÊ A QUALQUER UM

(os seus poemas)

 

Eles são a sua proteção mais certa

da sua expressão mais errada.

varo

 

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Poeminto, Tra-lá-lá

Cantiga de sorte

Eu não sou esse batom vermelho

nem as minhas tatuagens.

Eu não sou essas roupas coloridas,

nem as milhões de bijuterias balançando e te distraindo.

Eu não sou essa cerveja,

nem essa ressaca.

Gosto do sacolejo da música que toca ao fundo da gente.

exatamente aqui, olhando pra você.

Eu não sou, lembre-se sempre, essa história mal contada de mim.

Eu não sou as suas expectativas – uma pena,

eu não sou seu ideal.

(nem seu mal, nem seu mal)

Eu não sou aquela aula,

nem o livro que eu carrego debaixo do braço.

Eu não sou só a fome

mas queria mastigar cada pedacinho de você.

Eu não sou os meus textos,

nem meu apartamento bagunçado.

Eu não sou essas plantas,

nem o leite,

nem o suco,

nem as frutas que eu trouxe pra ti.

Se eu pudesse,  quer saber, acho que eu te engoliria.

Porém

eu não sou esse vestido preto,

nem esse comentário confuso

Eu não sou nem poeta,

nem nada de novo no mundo.

Eu não faço a mínima ideia do que eu sou

e de quantas de mim eu ainda posso criar.

Um universo todo

uma mulher

– sortuda, isso eu sou!-

‘múltipla, desarticulada, longe como o diabo’

é só amor que me fixa nos caminhos do mundo.

 

picasso7

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Poeminto

Poesia é brega

Eu queria te escrever poesia

Fazer café

e dormir cansada,

sem medo.

Eu queria gritar teu nome pela janela,

Calando minha voz aqui dentro.

Queria te ligar pra dizer nada,

E alisar esse teu cabelo.

Eu queria contar do meu dia

E na contramão do teu,

Sorrir um monte.

Pedir pra ficar do teu lado.

Eu quero uma taça de vinho,

Meu chocolate amargo

Quero sempre um chá quente

Uma massagem no pé.

O fim das guerras,também

O fim do sofrimento, claramente

O fim das opressões, para logo

Tudo que eu mais amo, eu quero,

continuamente

insistentemente

Exceto você, assim leve…

Eu não quero amanhã

Eu não quero a vida toda

Eu não sei da semana que vem

Só que agora

especialmente nessa hora

eu só queria você.

arcadismo

esse poema só não é mais brega que esse quadro árcade

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Poeminto

Pela metade.

“frustrado ele, apavorada ela,
mulher inteira, homem por metade”
(Saramago)
A gente cansa de gente pela metade. Eu meio que te amo, eu meio que quero ficar com você, eu meio que acho, meio que devo. Pela metade ninguém vale a pena. Metade amigo, metade companheiro, metade ser humano. Não, não vale a pena. Pessoas pela metade insistem na busca pela outra metade. E só há como dar metade de si sendo, um dia, inteiro. Vontade de ser inteiro, bando de incompletos. E hoje, acredite, só se pode ser de outro sendo antes seu. Entenda, só ama aquele que é inteiro sozinho. Não ama nem aquele que ama por dois, nem aquele que se deixa ser amado por dois. Uma hora isso passa, e aquele que amava por dois cansa de falar para o vazio, e aquele que era amado por dois cansa de não dedicar nada a ninguém. E assim, pessoas pela metade sentem pela metade e, quando por trapaças do destino, resolvem olhar pro lado de lá, percebem que não tem nada. E o nada, saiba, pode ser só metade do vazio que sobrou de você.
grécia-picasso-quadro-roubado-m
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Poeminto

Condicionais.

E se ela não ligasse

E se ela não chegasse

E se ela não esperasse

Você o faria?

E se ela se negasse

E se ela repetisse

E se ela te odiasse

(E se ela sequer te visse)

Você sentiria?

E se ela por ali saísse

E se ela por um acaso fugisse

E se ela de repente sentisse

Você saberia?

E se ela despertasse

E se ela sorrisse

E se ela te escrevesse

Você a leria?

E se ela, enfim, reconhecesse

E se ela, no fim, vivesse

E se ela, por fim, te esquecesse

Você existiria?

Vit. Samotrácia

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