Sala de Aula

Um universo inteiro, vocês…

Estamos vivendo uma crise séria na educação brasileira e tem muito a ser dito e escrito sobre isso. Deixo a quem o fará melhor que eu. Deixo, inclusive, aos alunos, que são a voz mais importante a ser ouvida nesse momento.

Escrevo no egoísmo. Escrevo para ser lida só por alguns, hoje. Escrevo para os meus alunos, que estão, hoje, absolutamente envolvidos pela ansiedade da bateria de provas que tá começando.

Vocês têm uma memória de merda, eu sei. Lembram da roupa que eu estava na primeira aula, mas nunca do Art. 5º (aproveito e deixo aqui a deixa para revisar). Com um pouquinho de esforço, porém, vocês vão se lembrar de algo que eu disse quando nos vimos na primeira aula: vocês são um universo inteiro, cada um de vocês.

Universos que se encontram, se tocam, se relacionam, mas continuam ali: fortes, completos, capazes. A prova não é o universo, o universo é você. Não falta nada a você, não falta nada para completá-lo. Você é pleno e inteiro.

Você tá morrendo de medo, obviamente, e o que  o espera é mais que a prova, é a prova e as expectativas – suas e do mundo – sobre ela. É a prova e os sonhos que você construiu. É a prova e o sono acumulado. É a prova e o medo de se sentir incapaz. É a prova e a vontade de receber de volta, em forma de recompensa, o empenho todo…

Olha bem pra titia: eu falho, todo dia. Minhas expectativas se frustam, meus sonhos não se realizam. Meu sono acumulado nem sempre respalda em sucesso. Eu me sinto absolutamente incapaz, dia ou outro. E tô viva! E tô feliz!

Essa sensação vai voltar várias vezes na sua vida ainda. Impossível impedi-la. Mas ainda dá tempo de fazer como um dia me ensinaram a fazer: fique aí, inteiro, isso é só um momento difícil. Encarem essas provas como elas são: provas, dentro de um sistema injusto e cruel. Não tire sua responsabilidade, mas não se culpe por tudo. Não se impeça de sofrer se precisar, mas não ache que o sofrimento não acaba. Não pense no ano que vem. Não adie felicidade. Não pense que só vai ser bom “quando…”. Pode ser bom agora, pode ser bom hoje ainda. Você nunca pode ser medido por nada que você faça. Aliás, você não poderá nunca, na riqueza do que você é, ser compreendido por uma parte que escapa de você. É muito mais que nota, que medo, que aprovação. Gente é muito mais que qualquer coisa que possa ser calculável.

Em hipótese alguma, pense que você é incapaz. Um ventozinho que balança a árvore, nunca vai destruir um universo inteiro ❤

Eu amo vocês. Eu tô aqui. Boa prova!

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Sala de Aula

Do dia 15 de outubro de 2016

Se você conhece esse blog, já reparou que no subtítulo dele tem “sala de aula”. Sala de aula é meu rolê. Tablado é meu lugar no mundo. Ou seja, mais da metade dos textos que você vai encontrar nesse blog foram escritos para pensar na minha vivência lecionando. Da porcentagem que sobra, muitos deles são recados para os meus menines.

Eu tava bem indisposta de escrever sobre a profissão. Meus colegas professores fizeram uma leitura muito boa do que tá acontecendo por aí e o quanto é difícil falar dessa profissão, que é tão elogiada, mas de alguns elogios tão vazios quando respaldados na prática. Na dureza do dia a dia, a maioria dos ‘parabéns pelo seu dia’ são trocados por ‘professor é privilegiado’; ‘professor tem duas férias ao ano’, entre outras coisas bem mais violentas. Isso sem contar no total descaso político…

Os tempos são de escola sem partido. Se antes o adjetivo que costumeiramente ouvíamos era ‘vagabundo’, agora é ‘doutrinador’. Eu sempre solto uma gargalhada desesperada, repleta de um desesperado sarcasmo de quem não tem certeza se é fantasia ou realidade o que tá vendo acontecer.

O contraponto dessa loucura – e e bem louco MESMO – é que, mais do que nunca, os nossos alunos precisam da gente. A velocidade com que as mudanças do mundo estão acontecendo não é desculpa para gente travar. Idade não é desculpa para não se atualizar. Cansaço não pode ser desculpa para violência. O medo não pode nos paralisar, não agora. Especialmente não agora. Se a gente ficar quieto, quem lutará pela gente?

A gente tá bem cansado, pessoal. E eu não tô falando só do fato de ser outubro e fim de semestre. A gente tá cansado é de ficar na corda bamba! A gente tá exausto de ser desvalorizado. A gente não é importante “porque formamos médicos, engenheiros e advogados”, a gente é importante porque a gente forma gente. O nosso privilégio é um só, pessoal: ter alunos. É esse o único e irrestrito privilégio. Aluno é um negócio massa, uma relação que transcende muito. Uma troca de energia que não é explicável nesse texto. É uma cumplicidade pro resto vida.

Por isso, não posso lidar com professor que não tá disposto a aguentar a treta. A treta do dia a dia e a treta das ruas. Não posso lidar com professor que entra e sai da sala de aula, traduz o conteúdo na lousa, repete a frase quando o aluno diz que não entendeu – mas não explica, ainda assim. Não posso lidar com professor que coaduna com o que estão fazendo com a gente.

Eu fico imensamente grata e fortalecida pelo que me escreveram meus alunos hoje. Eu tenho um amor por vocês que não existe em outra relação da minha vida. Essas mensagem me fortalecem a aguentar mais um cadinho o ringue que virou a minha vida.

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Num é?, Sala de Aula

Da paixão e da gripe…

Não sei se todo mundo aqui sabe, mas professor também faz uns outros bicos além de dar aula – que não é bem trabalhar, né? – nessa vida. Por exemplo, eu sou consultora de moda dxs alunxs, conselheira amorosa e apoio para quaisquer tretas.

Tem hora, confesso pr’ocês, que eu preferia responder sobre o existencialismo sartriano do que explicar por que, afinal, o fulaninho deu um pé na bunda do ciclaninho, que é tão lindo, meigo, maravilhoso. Eu não sei o que dizer: “eu jamais terminaria com você” é minha reposta clássica. Mas a vida, babys meus, é mais que só o que a gente pensa que faria…

Esse texto – saia daqui se você é velho amargurado – é uma explicação leve sobre uma coisa que vai acontecer muitas e muitas vezes na vida dos meus alunxs (e na minha também): a marvada da paixão.

A maioria está conhecendo essa coisa linda pela primeira vez: coração acelerado, perda de apetite, saudade 5 minutos depois de ver a pessoa, vício, abstinência, enxergar a cara dela até no arroz (e no feijão também). Eu, que sou macaca velha, ainda tenho esses sintomas. Que dirá os meus pimpolhos?

Daí que eu trombo com essas caras apaixonadas pra cá e pra lá (e tem coisa mais linda quando isso daí é recíproco e a gente tem a impressão que só cabe nóis doisinhos no mundim todo?); eventualmente, porém, trombo com a carinha de tristeza…

Eu queria explicar pra vocês que paixão, gente, é que nem gripe: a gente até toma uns remédios para disfarçar os sintomas, mas só o tempo cura. Igualzinho gripe, mesmo que você já tenha pego naquele mês, ela dá um jeito de mudar de vírus e te pegar de novo. E machuca, dói, arde, esquenta, esfria, inflama, dá febre, dá piriri, dá de tudo.

A gripe chega na gente quando a resistência cai; a paixão quando a guarda baixa. Elas tiram o nosso sono e deixam a gente meio fora do eixo, mesmo. E não dá muito pra lutar contra, é mais fácil deixar levar, ir na mesma toada, ao invés de brigar com algo que, enfim, tem seu ciclo e sempre vence a gente…

Claro que paixão tem uma vantagem e uma desvantagem sobre a gripe. A vantagem é a parte boa e a possibilidade da reciprocidade (já acordou pra fazer xixi e tinha uma mensagem que não tinha nada, só vontade de dizer algo?); a parte ruim é que ela às vezes marca a alma da gente pra sempre, até quando passa – tipo marquinha de catapora. Mas sabe? Isso faz da gente o que a gente é. Com medo das marcas, uma galera não se apaixona. Euzinha, meuzamô, deixo marcar memo: ainda arranco a casquinha pra ver se dói mais um pouquinho… Tem doido pra tudo, né?

Apesar disso tudo, uma coisa você pode ter certeza: e você alimentar a paixão, ela guenta um tempão, daí nem parece gripe, fica tipo lombriga, verme etc. E dá cada vez mais fome de mais e mais paixão. A gente nunca fica satisfeito e é uma delícia. Porém, se você deixar a paixão pra lá, uma hora ela passa, eu prometo. Aos poucos a febre vai embora, depois você já não tosse. De repente, o nariz parou de escorrer (os olhos também) e tcharã: você já tá pronto pra correr na chuva…

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…e trombar com outro vírus poderoso por aí.

(paixão pode doer – igual gripe – mas lembra sempre que a gente tá é vivo!)

 

 

 

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Cartas d'ela., Sala de Aula

Tá tudo bem, vem cá.

Esses dias, enquanto dirigia, eu ouvia uma música bem bobinha da Pitty, que eu adoro. Logo em seguida, o flow colocou Queen, que eu adoro. Mais duas músicas depois, Caetano. Depois, Novos Baianos, depois Led Zeppelin, Rolling Stones – para, enfim, eu trocar para rádio e estar tocando roupa nova. E eu cantei interpretando. Ri de mim mesma, na adolescência, eu jamais admitiria que amo pagode anos 90, que Fundo de Quintal e Raça Negra me fazem sair da cadeira e que estendi esse chamego até os 2000 e bolinha junto com Inimigos da Hp. Jamais a gótica que eu fui admitiria que, sim, ela amava (amo ainda) AC/DC, mas que também se sacudia com Zeca Pagodinho. Adolescente tem dessas.

E eles continuarão tendo, mas a gente – que é adulto e tão ou mais perdido – tem que avisar que tá tudo bem.

Tá tudo bem gostar de Megadeth e Sandy e Júnior. Gosto musical não é pílula do matrix, pode escolher os dois.

Tá tudo bem ser amiga do fulano e do beltrano, essa coisa de que a gente tem que criar inimigos é lendinha.

Tá tudo bem ser cristã, sabe? Não, não é verdade que o ateísmo é a marca da ciência e da inteligência suprema. Idiota é que não sabe dar espaço para a religião do outro. Aliás, tá tudo bem ser cristã e feminista; cristã/cristão e homossexual; cristão e curtir ir para festa. É claro que você pode optar seguir quaisquer dogmas, mas tá tudo bem se você optar só seguir seu coração e seu senso de justiça e bondade.

Tá tudo bem gostar de exatas e de humanas, essa separação só serve mesmo para fazer piada. Levá-la a sério demais põe em risco o que você tem de mais bonito: a chance de aprender um pouco de tudo.

Tá tudo bem se você não sabe do que você gosta, e pode ser em termos de roupa, de sexualidade, de profissão. É absolutamente normal. A diferença é que adulto não tem que prestar contas só para mãe e pai; a gente presta para uma sociedade inteira, e, às vezes, é mais fácil a gente fingir que sabe o que está fazendo só pra ninguém encher muito o nosso saco.

Tá tudo bem se sua mãe e seu pai não forem heroicos e invencíveis. Dói admitir que eles são só humanos e erram, mas com o tempo você vai parar de ver isso como defeito e tristeza, e vai ver como a possibilidade de que a vida é aprendizado mesmo, e tá tudo tá dando certo, então.

Tá tudo bem se você não quer ir na escola hoje, se tem preguiça da vida, se acha que ninguém gosta de você. Tá tudo bem ACHAR isso, mas não pare sua vida, ok? Eventualmente, a sensação passa e você perdeu matéria, diversão e boas amizades dando vazão para um sentimento que nem é tão certo.

Tá tudo bem se você gostar de Romero Britto, Pequeno Príncipe e camiseta amarela. Não me leve tão a sério, é tudo um jeito de te fazer sorrir.

Tá tudo bem se você não tem certeza do curso que presta. Essa dúvida sempre existe. Até as pessoas mais confiantes (eu, tá bem? euzinha) se questionam sobre sua profissão, sobre sua própria capacidade, sobre se de fato tem talento.

Tá tudo bem, aliás, nem ter talento pra nada: a gente não é smurf para nascer com habilidade pronta.

Tá tudo bem se tiver tudo ruim, faz parte da vida e é possível que passe. Só não tá tudo bem se alguém está se machucando com a sua conduta, especialmente se esse alguém for você mesmo. Não se maltrate demais, não se cobre mais do que a vida já cobra. Eu tô aqui, vem cá. Dá um abracinho.

miró

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Sala de Aula

Tá uma merda

Trombo com meus alunos nessa virada de semestre para semestre e eles estão exaustos. Essa talvez seja a pior época do ano, porque dá tempo de pensar. No primeiro semestre, a gente tem o ano todo pela frente. De setembro em diante, a correria é tanta, que nem temos tempo de pensar na vida. Mas esse frio, esse julho, essas férias botam a gente comovido como o diabo.

E daí que o que eu queria dizer a eles é que não vale à pena sofrer tanto, mesmo que, no lugar deles, em outros tempos, eu também sofri. Eu queria dizer, com o risco de parecer pessimista – coisa que eu não sou – que, afinal, isso não vai parar nunca: tá uma merda, pessoal. Ninguém tem certeza de nada nessa vida.

Ser adulto, deixa eu explicar, tem muito de fingir bem, tão bem que até a gente mesmo acredita. Mas não é verdade: a gente não tem certeza absoluta do porquê acorda naquele horário, vai para aquele trabalho, bebe com aquelas pessoas. Alguns lapsos de paz interior fazem a gente sentir que está  no caminho certo, mas são lapsos, tá? E a gente tende a se apegar a eles para conseguir dar conta do resto dos dias.

Você vai trombar com uma galera que enche o peito para falar da sua vida perfeita e organizada. Eu não sou dessa galera: eu NÃO SEI O QUE TÁ CON TE CENO, mas eu tô sempre tentando entender. Conversar sempre ajuda porque lembra a gente que: basta estar vivo para dar bosta.

Quando somos mais novos, queremos loucamente aproveitar o momento (é justo, faça isso): a festa, o jantar, o bar, aquela noite. A idade dá medo disso, a gente acaba pensando mais na ressaca do que na bebedeira (tá, ora ou outra, falhamos e também não damos conta de viver com aquela dor de cabeça). Mais que aproveitar o momento, a gente (eu pelo menos) passo a querer aproveitar as coisas que existem de verdade: sabe, aquelas que deixam a gente plena, bem, em paz?

É absolutamente normal ficar com medo e eu tenho medo todos os dias. Quem tem medo é porque tem algo a perder, e se a gente tem algo a perder é porque a nossa vida tá valendo à pena até aqui. Então, a gente vai ter que aprender a lidar com esse medo. Rola ser juntos, rola ir abraçadinho, sim. O que não dá é para ficar parado, deixando a brisa empurrar.

Eu tenho uma aluna que sempre me diz: a gente tem que respirar. É isso, só não esquecer de respirar, ser honesto com o que você sente e pronto. A liberdade é um trem difícil e a sua vida é sua, ela não vai sair existindo sem você por aí para decidir as coisas por ela. Aceite!

miró

fique pensando por que escolhi esse quadro

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Cartas d'ela., Feminismo, Sala de Aula

Carta à M.

M.

minha tela piscou com uma mensagem sua, e eu fiquei muito feliz, porque adoro quando você me escreve. Quase sempre falando alguma besteira para me ridicularizar – não esqueci que você me disse que eu parecia te odiar nas primeiras vezes que nos falamos e terminamos amigas e casadas na festa junina. Bem, eu obviamente não odeio você, ao contrário, gosto muito e admiro muito tudo isso aí que você é. Apesar da felicidade, não durou nem cinco segundos. Você me enviou um link. Na notícia, uma brutalidade horrível. Você tá péssima, eu tô péssima. Mas eu precisava escrever publicamente o que essa história me causou.

Primeiro, eu me senti impotente. Enquanto meninas estão sendo estupradas, a gente se sente impotente. Mas não as meninas do mundo, minhas alunas também estão. Você e eu, também. E eu não consigo fazer muita coisa além de ouvir, abraçar e lutar com elas. Outras vezes, M., eu também recebia mensagem das minhas alunas, como você fez hoje, e corria para ler empolgada. Não foi uma, nem duas, mas várias as vezes que as mensagens estavam ali para me reportar mais um caso de sofrimento. M., que é que eu posso fazer?

Queria levar todo mundo para casa e cuidar. Mas eu não posso cuidar nem de mim, você percebe? Meu corpo circula comigo para onde eu for, eu não posso esquecê-lo em cima da mesa da escrivaninha e achar que, ufa, essa noite ele não vai ser roubado. Eu só tenho algo que é meu porque sim: esse corpo e essa alma. Mas, aparentemente, ele pertence a todo mundo, menos a mim. E alma. Essa vai diminuindo conforme o meu sorriso apaga lendo a sua mensagem.

Piora quando a gente se fala e sabe que tem gente que simplesmente não se comove. É isso: a comoção é seletiva, e vem junto com uma certa consciência que não temos como obrigar outras pessoas a terem. A gente é só palavra, M., só essa arma a gente ocasionalmente consegue usar para explicar o inexplicável: o tanto que ser humano pode ser ruim.

Por isso, M., eu gosto tanto de vocês. Por isso que, por trás da carcaça odiosa, tem um abração aberto para vocês se enfiarem, depois da aula, no intervalo, virtualmente no computador. Porque eu só tenho isso a oferecer, mesmo.

Escrevi, enfim, só para dizer, publicamente, que eu estou com você; com ela, e com todas as outras. E que se eu não posso prevenir (e nem você pode) que elas sofram, que eu possa remediar com o amor imenso que eu registro aqui.

M.

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Feminismo, Sala de Aula

Não você, todos.

Depois da atrocidade que foi amplamente divulgada essa semana – e que, infelizmente, e só mais um caso dos inúmeros que existem de violência contra a mulher – escrevi um desabafo no facebook que falava da cumplicidade que há em tomar certas atitudes nessa vida. Copio na íntegra o que eu escrevi:

Se você desmerece professorA, se você faz piada sobre “lugar de mulher é…”, se você segura pelo braço da balada, se você encoxa no busão, se você viraliza nudes, se você delimita o caráter de uma mulher pela roupa, se você contribui para a indústria pornográfica, se você separa mulher entre ‘para casar’ e ‘para transar’, sinto dizer:

você é cúmplice. Não foram 30 homens, só. Foram bilhões, por 5000 anos.

Por alguns, fui amplamente apoiada, por outros, parcialmente. Por alguns homens, fui ofendida – recebi até “você é que deveria ter sido estuprada”, mas, em sua maioria, homens e mulheres (defendendo a pornografia – sobre isso já compartilhei um texto melhor do que eu poderia explicar) endossaram o coro do “não são todos os homens” ou, ao menos “não eu”.

Um, em especial, por ter sido de aluno meu, reproduzirei na íntegra:

Eu escolho com quem quero passar uma noite, ou minha vida inteira, assim como qualquer mulher tem direito de escolher. Me recuso a ser comparado com aqueles 30 animais, respeito você professora, mas dessa vez você vacilou.

Como bem marcou o comentário: eu sou professora. E posso desistir de explicar as coisas para todas as pessoas do mundo, mas eu jamais perderei a força para explicar as coisas para os meus alunos.

Mais que isso: sou professora de texto, literatura, interpretação, leitura. Então, vamos interpretar.

Ponto número um: eu usei a palavra cúmplice e não foi à toa.

Cúmplice, na leitura simplória do dicionário, pode ser definido como aquele que contribui de forma secundária para a realização de crime de outrem

Vejamos lá: obviamente que o sentido é metafórico, mas vou pressupor que o meu leitor – e talvez meu aluno, por falha minha – não saiba trabalhar com linguagem figurada. Quando dizemos que alguém não deve separar mulheres entre ‘para transar’ ou ‘para casar’ não estamos dizendo que as pessoas têm que se envolver e casar com qualquer outra pessoa, obrigatoriamente. Aliás, não queremos que você faça absolutamente nada. Na verdade, queremos que você não faça: que você fique quieto e não emita julgamentos sobre a vida sexual de uma pessoa.

Claro que você não é aquele rapaz que estuprou. Por isso, eu não disse que você é criminoso. Aliás, eu disse que era cúmplice apenas QUEM reproduzia esses padrões.

O direito é fundamental. As leis são fundamentais. Punições severas são fundamentais. Acontece que a coerção externa (o direito, a lei, a cadeia) precisam URGENTEMENTE virem acompanhadas de uma coerção interna (ética, consciência, mudança de paradigma, mudança de pensamento).

Eu já contei aqui que sou professora. Sabe o que isso significa? Que eu acredito que dá para mudar. Além de professora, sou feminista: acredito que vivo um problema cultura PASSÍVEL DE MUDANÇA. Do contrário, não lutaria. Aceitaria a derrota inata.

É claro que quando dizemos que os homens são opressores, estamos falando de uma categoria, para além do indivíduo.

Eu sei que é difícil, querido aluno e demais homens, não ser visto como um indivíduo iluminado e especial, como seus pais convenceram que você é desde sempre. Mas a sua categoria é opressora, HÁ 5000 ANOS, como eu mesma escrevi. É bem maior que você. Anterior, cultural, imenso, esmagador. É tipo a culpa pela destruição inesgotável da natureza. Não fui eu, sabe? Mas foi a minha categoria inteira de humanos que destruiu tudo.

Que tal, então, ao invés de gastar sua energia tentando me explicar o quanto NÃO é você o problema, seja um POUCO você a solução? Vai lá, seu amigo precisa de uns conselhos.

Quem vacila é ele, não eu.

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uma dica boa 🙂

 

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