Tra-lá-lá

Sobre cafés e mulheres

Há muito tempo não fazia café árabe, do jeito que a minha mãe ensinou, logo que acordava. Ele é um café que não se faz para uma pessoa só e eu morava há um tempo sozinha. Deixava para fazer quando tinha gente em casa.

Agora, tenho uma companheira de casa, uma grande amiga, uma mulher que todo dia me ensina um pouquinho.

Curiosamente, enquanto eu fazia o café pra ela – a Gabi -, eu recebi a mensagem da Miriam, dizendo que sentia saudade do meu café. E fui me lembrando de algumas pessoas muito especiais pra mim que gostam muito do meu café – gente até que nem gosta tanto assim de café, mas gosta do meu.

Olhei pra Nespresso com carinho. Ela me salva na correria do dia a dia, é verdade, mas é claro que ela não é o meu café. O meu café não tem só café. Tem café e tem carinho. Tem café e tem história.

Sabe quem me ensinou a fazer café? Eu já disse lá em cima, minha mãe. Ela que me ensinou a acolher as pessoas na minha casa, no peito, no meu colo, no meu abraço.

Minha mãe tem o melhor abraço do mundo, o meu fica pequeno perto do ela, mesmo ela sendo cotoquinha. Ela também tem o melhor café do mundo, mesmo que eu ache o meu muito bom.

Café sempre vai ter pra mim um quê de cuidado. Não faço café pra qualquer um, não. Até faço na Nespresso, mas não dá para colocar amor e pó na água de quem não sabe retribuir. Em quem não aprendeu a amar.

Hoje, então, enquanto eu fazia café pra Gabi eu agradeci minha mãe. E minha avó que ensinou minha mãe. E minha bisavó que ensinou minha vó. E todas as mulheres que às precederam com tantos cafés, amargos e doces, como a vida diz que é.

E à Gabi, por estar ao meu lado. E, mentalmente, à Miriam, que me lembrou da importância do meu café e das mulheres que, lado a lado, constroem, quente como café, a minha história.

Minha mãe vai achar esse texto liiiiindo. Ele é bobinho. Mas ela me ensinou, também, a ver a beleza nas menores coisas. O mundo é lindo mesmo, mamãe.

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Poeminto, Tra-lá-lá

Cantiga de sorte

Eu não sou esse batom vermelho

nem as minhas tatuagens.

Eu não sou essas roupas coloridas,

nem as milhões de bijuterias balançando e te distraindo.

Eu não sou essa cerveja,

nem essa ressaca.

Gosto do sacolejo da música que toca ao fundo da gente.

exatamente aqui, olhando pra você.

Eu não sou, lembre-se sempre, essa história mal contada de mim.

Eu não sou as suas expectativas – uma pena,

eu não sou seu ideal.

(nem seu mal, nem seu mal)

Eu não sou aquela aula,

nem o livro que eu carrego debaixo do braço.

Eu não sou só a fome

mas queria mastigar cada pedacinho de você.

Eu não sou os meus textos,

nem meu apartamento bagunçado.

Eu não sou essas plantas,

nem o leite,

nem o suco,

nem as frutas que eu trouxe pra ti.

Se eu pudesse,  quer saber, acho que eu te engoliria.

Porém

eu não sou esse vestido preto,

nem esse comentário confuso

Eu não sou nem poeta,

nem nada de novo no mundo.

Eu não faço a mínima ideia do que eu sou

e de quantas de mim eu ainda posso criar.

Um universo todo

uma mulher

– sortuda, isso eu sou!-

‘múltipla, desarticulada, longe como o diabo’

é só amor que me fixa nos caminhos do mundo.

 

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Pensamento Desvairado, Tra-lá-lá

Deixa eu bagunçar você?

Eu sou muito bagunceira. Sempre fui. A minha mãe, uma santa, tentou inutilmente me ensinar que as coisas aparecem mais fácil se a gente as deixa sempre no mesmo lugar. Ela também tentou me ensinar que se a gente arruma sempre, não precisa passar dois dias para deixar o quarto habitável. E que seria uma boa devolver o que a gente tirou e não usou. Ela tentou, coitada, e eu – não por maldade, eu juro – nunca consegui aprender. Eu bagunço muito, o tempo todo.

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É assim: eu sou ansiosa demais pra procurar as coisas com cuidado, apressada demais pra devolver tudo. Louca demais pra me achar na organização. Não acho que existe um lugar óbvio para as coisas ficarem; além disso, é muito chato que alguém diga que existem posições óbvias para a gente ocupar. E se, por um lado, às vezes tenho raiva de mim mesma por ser assim – tipo quando tô com pressa e não acho minha chave – por outro, devo dizer, tenho uma espécie de orgulho. Afinal, todo bagunceiro de verdade é, por excelência, um antirrotulador e alguém que gosta das coisas bem juntas.
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O fato é que, sim, eu sou desorganizada: em todos os cômodos da minha casa, mas também meu cabelo e minhas roupas; minha lousa e minha geladeira; meus sonhos e as minhas opiniões. Tudo em mim está misturado e é muito difícil que se separem. Todas as partes de mim se confundem entre si e, às vezes, não me deixam decidir qual das minhas versões é que fala agora. 
Queria dizer, mãe, que às vezes é bom não saber nem onde, nem como as coisas estão. Que procurar de novo pode nos fazer achar algo incrível que a gente nem percebeu que tinha perdido. E que fazer uma limpeza no armário e no coração, depois de acumular muita bagunça, pode ser libertador.
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Na minha casa, tem livro na cozinha, tem café no quarto, tem sabonete na sala. Lá, as minhas amigas esquecem suas coisas. Lá, tem sempre uma xícara de chá esquecida no canto, uma rolha de vinho jogada por aí. A minha casa, igual a tudo o que eu tenho dentro de mim, não segue nenhum padrão de organização. Isso porque, lá e aqui, cabe todo mundo, sempre. Não tem essa do lugar ser só de uma pessoa, a galera toda é bem vinda e a minha bagunça sempre pode acolher.
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Casas arrumadas demais, impecavelmente organizadas, não recebem pessoas. Casas com tudo exatamente no lugar não recebem nem os amigos, nem a ressaca deles. Casas impecáveis não tem espaço pra vida, pra soneca pós almoço, pra ver filme, comendo chocolate no sofá. Onde houver vida humana, tem que ter bagunça. Onde houver amor, vai ter roupa jogada no chão: porque o amor, às vezes, tem muita pressa. Casas não podem estar perfeitas se, afinal, pessoas imperfeitas habitam nelas…
Aliás, desconfio, que isso diz mais do que casas: pessoas que sabem muito bem a que pertencem, quem são, o que estão fazendo aqui  são iguais as casas em que o tapete não se mexe: não tem mais ninguém caminhando dentro.
É por isso que o verso faz todo o sentido do mundo: deixa eu bagunçar você?
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Pensamento Desvairado, Tra-lá-lá

A música que não acaba

Tem dois tipos de músicas nesse mundão: a que acaba e a que não acaba. Mentira: ambas acabam; mas uma honestamente, outra não, vai repetindo loucamente alguma parte da música – o próprio refrão, possivelmente – até o som ir baixando, baixando e minguar. Não respeito esse tipo de música.

As consequências do refrão repetido à exaustão são cruéis: recorrentemente, pegamos raiva desse refrão; além disso, a gente fica com a impressão de quem tem mais. E se tem algo que eu não gosto de sentir é uma falsa esperança de continuidade. Ou tem ou não tem mais vinho. Ou tem ou não tem mais pizza. Ou tem ou não tem mais carinho. Não me forcem a subir o som e tentar entender o que está acontecendo: ou termina ou continua, ficar nesse meio termo é cruel, sabe? E se a gente não pega raiva do refrão, pega raiva de si mesmo, já que se pega repetindo as mesmas palavras junto com a canção, como se fizesse algum sentido isso.

Até aquela que acaba antes da hora é melhor do que a que morre no próprio refrão, pelo menos – seja por imaturidade, ou por não ter mais nada a dizer – ela soube a hora de partir.

Sabe o que é pior? Que escrevo esse texto enquanto uma música acaba assim, repetindo o refrão. E eu? Eu sigo mesmo assim cantando. Aprendi bem certo a lição do desapego, mas ela sempre foi muito teórica e pouco prática. Na hora de desligar o som – considerando que eu o faça – eu sigo cantarolando sozinha o refrão infinito.

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Tra-lá-lá

a diferença entre querer e dever.

Querer é diferente de poder, já nos disseram. Acontece que o que não nos é dito é que não e essa a grande questão, mas a diferença entre querer e dever. Porque poder, com um certo esforço – e salvo raras exceções – a gente quase sempre pode tudo (estou falando de atitudes, não de chorar lágrimas de petróleo ou comer sem engordar). A gente pode muita coisa: ser cruel, ser negligente, ser preguiçoso, ser ausente, ser recluso. E quando é que o que a gente quer é o que a gente deveria querer? Raríssimas vezes. Ao longo da vida, optamos ora pelo desejo, ora pelo dever. E talvez uma das definições de felicidade seja a incrível – e rara – coincidência entre querer e dever. Todo mundo sente que é um momento especial quando isso acontece.

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Outro momento marcante a vida é quando optamos pelo dever, em detrimento do querer, por maturidade. Talvez seja por isso que crescer dói tanto. Por um certo período de tempo, nossos pais se responsabilizam por ser objeto de negação, enquanto nós seguimos apenas desejosos de tudo que nos parece interessante em algum aspecto. A idade, então, dá a dimensão de algo que era exterior – as consequências. Antes, sofríamos as consequências externas de não fazer o que deveríamos – castigo, briga, bronca. Agora: é sentir, no que há de mais interno na gente, que isso não pode. Evidentemente, isso não descarta que a vida, hora ou outra, esbofeteie a nossa cara. E também nos afague, porque é preciso um pouco de carinho.

Optar não fazer algo que se tem desejo, mas não deve é uma escolha difícil e é bastante provável, enfim, que essa seja a prova mais dura da vida adulta. Mas não sempre, não em todas as escolhas: se a gente não tentar seguir o desejo, como teremos o prazer de lidar com algumas deliciosas consequências?

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Tra-lá-lá

12 de junho.

Abro as redes sociais:

Gosto de vocês juntos. Gosto do seu sorriso olhando o sorriso dela. Acho bonito que ele mostra os dentes, e ele sorri só com os lábios. Legal ver os dedos cruzados. Bonita foto com as tatuagens. Tanto amor entre as duas. Tanta beleza nos abraços. Gosto até dos textos semi-ridículos e sem concordância que são produzidos por aí.

Gosto do amor que invade. Gosto das comidas. Gosto das flores. Não gosto tanto das cestas, mas gosto também.

E as legendas:

Não poderia viver sem ela? Na verdade, poderia.

Não saberia como seriam seus dias sem ele? Seriam dias, com horas e minutos e segundos.

Precisa dele para ser feliz? Não, não precisa.

Então o que move o mundo a se meter em diferentes relacionamentos, a dois, a três, a seis, e não a sós? Se a gente não precisa – e ninguém precisa – o que há nesse esforço sincero (não de todos, eu sei) em dividir a vida? Acho que alguns amores são a contra resposta ao mundo violento. Amor é a coisa menos lucrativa do mundo (amor, não necessariamente casamento); menos óbvia, e pouco funcional. Afinal, para que ficar junto?

Não tem para que, porque não tem finalidade. Só finalidade em si.

Não tem por que, porque nenhuma justificativa daria conta. E os esforços em justificar geram belíssimos poemas ou breguíssimas declarações. O amor, oposto do individualismo. Como pode insistir?

E na contramão do utilitarismo: amar é um pouco inútil. E na contramão do determinismo violento: amar é uma opção.

Minha opção :)

Minha opção 🙂

O amor, essa coisa bonita, é a melhor – e mais curiosa – expressão do livre arbítrio.

Que se comemore, todos os dias, a opção. E que, tendo optado, nunca ninguém o impeça de acontecer.

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Manuel de sobrevivência do casal feliz OU de como a xuxa também caga.

“A Xuxa também caga” é uma pichação que tem num muro bem perto de onde eu moro. Ela já está lá há pelo menos 8 anos, mas sempre me encanta pela sua genialidade. Talvez ela não toque tanto os adolescentes atuais que veem a Xuxa com um olhar mais defasado, mas aplique isso à Sasha, a Gabriela Pugliese, ou qualquer bloggueira da moda e você terá o mesmo efeito: é preciso lembrar que no fim, como diria o protagonista do filme “Eu sei que vou te amar”(1989): somos todos tubos processadores de merda.
A função dessa lembrança é simples: se a Sandy caga (dessa até eu duvido, mas é uma mácula de quem cresceu nos anos 90) é porque ela tem muitos outros defeitos os quais desconhecemos.
Eu sei o quão óbvio isso parece, mas o crescimento das redes sociais tornou inatingíveis pessoas que nos deveriam parecer próximas e reais.
E, sinceramente, eu não me importo tanto com esse crescimento absurdo da mentira deslavada. Todo mundo sabe que é mentira que a Xuxa usa Monange e que as bloggueiras “comem de tudo” porque “tem metabolismo acelerado naturalmente”. Todo mundo sabe que as panicats não ganharam tantos músculos com batata doce. Todo mundo sabe. E esse tipo de mentira nem me incomoda tanto, ela beira o pitoresco e me diverte.

Xuxa-Monange

Certeza que a Xuxa esquece de passar hidratante depois do banho, às vezes.

O problema é o que eu vejo acontecer especialmente em relação à ideia de felicidade.
Vejam só: eu sou gordinha, totalmente fora do padrão estético, não sou famosa e tudo que eu tenho de “público” são os meus alunos – cerca de 400 por ano. Considerando que metade deles me detesta, isso reduz consideravelmente minha “””””influência””””” e, mesmo assim, minhas alunas, especialmente as mais novas, idolatram alguma atitude minha, foto, viagem etc como se fosse o ápice da felicidade.
Eu acho bonitinho. O problema é que eu adoro essas meninas e vejo nelas um sofrimento que não deveria estar ali.
‘Ai, professora sua pele é perfeita’. E eu respondo sempre ‘Eu tenho 25 anos e você 14. Ninguém tem a pele perfeita aos 14 anos’
‘Ai, professora, queria saber tanto de X – qualquer assunto que as interesse – quanto você”
‘eu tenho 25 anos e você 16, é natural que eu entenda mais disso’
‘Ai, professora, queria me sentir segura como você’
‘Eu já me ferrei uma adolescência inteira até me sentir segura. Logo você descobre como fazer isso’

‘Ai, professora. Você e seu namorado parecem de conto-de-fadas’

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Eu e meu namorado perfeito numa foto perfeita na viagem perfeita. Eu tive a maior dor de barriga da história nesse dia.

E isso são alguns pouquíssimos exemplos. E isso prolonga o sofrimento. E não se reduz às adolescentes.
Quando vemos famosos fantasiados de casais perfeitos já nos sentimos socialmente pressionados a ser um casal perfeito. Pior: hoje em dia, qualquer subcelebridade sustenta a imagem de amor perfeito e violenta os sonhos de cada casal que se forma por ai.
A lógica é simples e já foi denunciada por muitos, bem antes de mim: eu seleciono o que te mostro, porque você não tem acesso a minha vida completa. E pronto. O que eu te mostro é um mundo de felicidade que você não vive. E veja: nem acho que esses perfis que revelam a vida perfeita dos casais perfeitos no mundo perfeito devam ser abolidos e crucificados. Eles estarão ali sempre, de uma maneira ou de outra – antes do instagram, já tinham as revistas, e os contos e as pinturas rupestres de casais perfeitos. Lembrando que: heterossexuais, brancos e magros. Que senão a inveja fica pela metade.
Enfim, eu só acho muito violento que vocês insistam em reproduzir uma lógica cruel e inatingível dessa em casa. “Amor, o namorado da Maricotinha cozinha comidas saudáveis para ela todos os dias, olha as fotos. E você trazendo pizza pra mim…” Eu ouvi esse comentário por ai. Olhei bem pra cara do rapaz, que tinha trabalhado o dia inteiro e pensei que crueldade era aquele pedido.
Daí eu me lembrei que podia sair dele o desejo de que a namorada fosse sempre linda, cheirosa e bem vestida. E que ela não reclamasse. E que ela fosse assim e assado, como a tal Maricotinha. Reproduzindo a lógica machista disfarçada de vida saudável e feliz.
Acontece que os casais perfeitos discutem, se irritam. Ninguém tem borboletas no estômago o tempo todo – a não ser que seja diarreia..

Ninguém não briga. Ninguém sorri o tempo todo. A Xuxa também tinha – acho que não mais – tpm. O George Clooney também não quer transar toda noite. A Natalie Portman não discute só assuntos interessantes o tempo todo. O anel de noivado da Lady Gaga é lindo, mas ela também já brigou com o noivo pelo canal da televisão.
E acima de tudo, é preciso lembrar que todos eles cagam: inclusive no relacionamento, tratando mal aqueles que amam. Porque somos naturalmente errados. É porque isso é normal.
Não tenha tanto medo de ser normal. Aliás, é uma delícia ser normal.

ps: fuja de textos que te digam como é a mulher perfeita e o homem perfeito. Acontece que cada um gosta de um jeito. Eu juro.

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