Humorfina, Tra-lá-lá

Desolé, Le Petit Prince, mas você errou.

Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas, diria o príncipe loiro, pequeno e quase simpático. A personagem, que recheia o fichário das menininhas, as tatuagens dos alternativos-clichês e o coração das balzaquianas, é o típico pé-no-saco. É inseguro, é repetitivo (Quantas vezes ele precisa formular a mesma estrutura sintática? Prova disso é que a gente lê no francês II) e adora se vitimizar. Contexto feito, vamos à tese: Santo-Expurgo, por que vamos continuar nos vitimizando? A vitimização é responsável, na contemporaneidade, pelo número excessivo de infelicidades amorosas que redundam, inevitavelmente, na culpabilização injusta do amor.

E eu, senhores, sou uma entusiasta do amor. Quanto mais amor se dá, mais se tem. E assim, diria o velho afetado dos cabelos brancos, caminha a humanidade.

Primeiro argumento: por que as pessoas se vitimizam? Porque se acostumaram. Todo mundo se vitimiza, ora ou outra. Eu, por exemplo, vanglorio meu azar. Afinal, quem consegue dar pt em um carro, quebrar uma costela, perder um celular, ter o carro novo roubado em um prazo de dois meses? Só com reza brava  e macumba de aluno eu atingi esse patamar. Dai, sou uma vítima do azar. Pelo menos com muito bom humor – dado que é o que ainda me resta.

Volto às vítimas do amor: olha que cafageste, ele parou de me amar. Que vagabunda, ela não me quer. Se ele não me quer, é gay. Entre outras frases proferidas com constância e sem pudor, especialmente no dia de hoje, 12 de junho. Também já me desiludi, também quis culpar o outro pela minha tristeza. Pois bem: a culpa pode ser do outro. NAQUELE MOMENTO. Depois, o que você faz com sua tristeza, meu senhor e minha senhora, é um problema seu.

Beba. Coma. Durma. Chora, mas não se vitimize. Não ache que aquela pessoa passou a vida inteira cogitando te fazer sofrer. Ou que a sua dor é a maior do mundo. Ou que isso nunca passa. Ou – e essa é a minha favorita – isso só acontece com você. Não, isso acontece desde que o mundo é ,mundo e seguirá acontecendo enquanto houver gente. Porque gente é uma raça ruim. Porque bicho humano dá um trabalho só de abrir os olhos e ver que o dia começou. E que bom que é assim.

Argumento dois: ninguém gosta de vítimas, exceto ceral killer e nescau ball killer. As pessoas gostam de pessoas: loucas, felizes, tristes, cansadas. De pessoas, simplesmente. Nem daquele ser que carrega a culpa e o sentimento do mundo do Drummond nas costas, nem aquelas que acham que tudo está plenamente perfeito e maravilhosamente literalmente maravilhoso. Pessoas felizes demais nunca sabem usar o advérbio literalmente bem. Nem simplesmente. Enfim, pessoas felizes demais são dignas de desconfiança.

Contra-argumento: embora seja maravilhoso amar e se sentir cativado (né, Prince) por alguém, se isso acabar, o resto continua. E o dia 12 de junho segue sendo aquele que vem depois do 11 e antes do 13.

Conclusão: o amor se deteriora com a vitimização das pessoas. Culpabilizar o parceiro pelas expectativas criadas pelo indivíduo, além de inócuo é cruel. Le Petit Piegas Prince é a materialização estética da realidade de milhões de inseguros ao longo do mundo.

Eu poderia falar mais de expectativas, mas eu não posso trazer dados novos na conclusão.

E se fosse uma carta, eu assinaria:

a sempre sua, pelo menos por enquanto,

M.

Ps de fundamental relevância: não sendo uma dissertação, só um projeto de texto, usei a primeira pessoa. Não sou recalcada. Nem mal comida, menos ainda mal amada. Só ainda acho que tudo podia ser mais leve. Tipo o amor, ele mesmo, sabe?

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Cartas d'ela., Tra-lá-lá

Minhas Marias.

mulheres

“Maju”, eu chamei. “Você gosta que eu te chame de Maju?” – perguntei reparando a cara de insatisfação que aquele vocativo tinha produzido.”Eu prefiro Maria” – ela disse. Eu também: Maria é o meu nome favorito no mundo. Além de ser o nome da minha avó e duas amigas que eu amo muito, Maria sempre foi o nome da força pra mim, seja pela minha moral cristã, seja pelas Marias incríveis que eu encontrei por aí. Maria, então, aqui, vai ser o nome que vou dar a todas as minhas alunas que me inspiram, todos os dias, para continuar.

É preciso dizer que elas são lindas, lindíssimas. Elas passam pela sala de aula e não percebem (ou, às vezes, percebem) que o mundo vai mudando seu fluxo de existência. Elas enchem os meus olhos e, não adianta, eu sempre reparo nos detalhes que deixam cada uma ainda mais bonita: o lápis azul, o óculos retrô, o jeito de prender despretensiosamente o cabelo, os olhos verdes. Cada uma das minhas Marias tem um charme único. Mas não é isso que me põe a escrever nessa manhã fria de feriado: é o que elas me fazem sentir e como me motivam a continuar, independente de qualquer dor, qualquer mágoa.

Maria Fernanda gritou comigo. Mentira, gritou JUNTO a mim: eu não quero mais fazer um texto quadrado. Eu não quero escrever e ser julgada por esse tipo de texto: isso não diz a publicitária que eu serei. Não diz, é verdade, eu dividi o ódio dela. Imaginem, justo eu! Eu sempre odiei dissertação, mas…como eu sempre digo, a vida tem dessas. O que me admirou não foi a indignação pela indignação. Foi porque ela sentou ao meu lado e me pediu ajuda: ela sabe que está errado o sistema, mas ela sabe que precisa enfrentá-lo. Que mulher forte com 17 anos. Que bom é vê-la perceber, já agora, que o mundo tá todo errado mesmo.

Elas são fortes desde pequenas. No fundamental, elas já gritam sua energia para todos os cantos. Elas são infinitamente mais maduras. E sabem disso. E que Joana D’Arc permita que elas nunca se esqueçam.

Dias atrás dei uma aula sobre feminismo e violência contra mulher. Minhas Marias todas olhavam com um olhar misto de compreensão e revolta. Elas sabem o perigo que correm, mas também sabem que essas coisas estão ai para ser mudadas, medidas, discutidas. Uma delas saiu da minha aula chorando muito e eu me senti um monstro. Que ferida era aquela que eu tinha tocado sem nenhum tato?

Ela me contou, forte, a sua história. Um abuso dentro de casa. Um abuso sem a mínima chance de revolta. Ela era uma criança. No seu relato, ela era uma criança. Ali, me contando, ela era uma fortaleza inteira que segurava as dores de todas as mulheres desse mundo. Mulher é um trem danado de corajoso, mesmo. Foi essa Maria que me parou dia desses no corredor e perguntou como foi que eu descobri que queria ser professora, já que ela estava em dúvidas sobre que carreira seguir.

Eu não descobri. A sala de aula me aula me descobriu. Ainda bem, porque é dessas histórias que eu alimento minha alma. E dessas Marias, Dudas, Amandas, Fernandas, Heloísas, Sofias, Helenas, Beatrizes, Camilas, Anas e Paulas e tantas outras que eu continuo superando cada machismo que eu escuto, aqui e ali. É por elas, e porque eu as inspiro e elas me inspiram, que eu escolho cada roupa, cada batom. É por elas. Poderia ser pelos homens, poderia ser por vaidade, mas é por elas: é por elas que eu sou grossa às vezes: pra que o mundo saiba que mulheres sabem se defender. É por elas que eu dou respostas atravessadas: porque o mundo precisa saber que a gente sabe o que dizer e como dizer. É por elas que eu dou aula de cólica ou com tpm: porque eu sei que a gente aguenta.

Não seguimos o exemplo das mulheres de atenas. Mas da mulher da faxina, da secretária, da dona da multinacional. Seguimos o exemplo de quem vive, sabendo que isso é, inevitavelmente, uma luta.

É especialmente por vocês que vale a pena enfrentar uma sala dos professores (professores mesmo, porque praticamente só tem homem) logo após a rodada de futebol. É por vocês que eu escolho até a coruja que eu vou usar naquele dia. Porque eu sei que vocês reparam.

Um dia a gente vai se separar. Talvez a gente seja amiga e beba junto, talvez não, porque acontece. Talvez eu te veja na faculdade e você estar cada vez mais bonita e forte e, eu, mais orgulhosa. Talvez a gente se trombe e você não me reconheça mais. Mais eu sei que um pedaço de mim você levou: nem que sejam as batatas.

Marias, minhas alunas e professoras, vocês são as mulheres da minha vida.

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Educação sentimental com “O Casamento do Meu Melhor amigo”

Nota prévia da autora: spoiler de um filme de 1997 serão emitidos. Se você não assistiu “O Casamento do Meu Melhor Amigo” não leia esse texto. Baixe o filme e veja já.

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Mais de dez anos depois, tudo faz sentido. Em 1997, o “O Casamento do Meu Melhor amigo” foi lançado. Eu vi inúmeras vezes. Todas as vezes que passou na “tela quente”, na “sessão da tarde” ou no “cinema em casa”, eu vi. Dos oito aos vinte anos, vi esse filme. Hoje, aos 23, e com um pouquinho de história amorosa pessoal eu entendo: fui educada por esse filme. Resumo roubado da internet: Julianne e Michael combinaram certa vez que, quando fizessem 30 anos, casariam-se caso estivessem ainda solteiros. Ao receber um telefonema de Michael, às vésperas da fatídica data, anunciando o seu casamento, Julianne percebe, tarde demais, que sempre foi apaixonada pelo velho amigo. Ela é então convidada por ele para ser madrinha de casamento com a bela Kimberly, e aceita somente para atrapalhar e tentar desfazer esse romance. Agora eu acrescento: Kimberly é a aguada, loirinha e certinha da Cameron Diaz e Julianne é a ruiva, cacheada, desbocada e avassaladora Julia Roberts. Eu queria ser a Julia Roberts. Usar um terno risca de giz, ser crítica de gastronomia, ser descolada, fumar e não me casar. O final da história é realista, nada romântico: ele fica com Kimmy e a solteirona descolada de 30 anos termina o filme arrasando na pistinha com amigo gay. E eu segui minha sinopse. Talvez eu seja apaixonada por ele e um dia ele se case. Não serei a dama de honra porque não combino com o cargo. Talvez eu seja Julianne. Mantive os cachos loucos, o terno risca de giz e o jeito deslocado. Não sou a Julia Roberts (que pena), mas continuo vendo muitas Cameron Diaz terminando com os supostos mocinhos. E esse ainda é o que interessa por ai. A Julia Roberts fica triste no filme, mas passa. Ela é cuzona, mas passa. Ela mente, mas depois dá tudo certo. Eu fico triste, minto e sou cuzona.  Foi assim que eu me eduquei: o casamento não é pra mim. A fofura não é pra mim. Os cachos e o terninho risca de giz, sim. E quando dá medo ou tristeza de chegar aos 30 sozinha, eu abro um sorriso (e uma cerveja) e lembro: já fiz amigos gays o suficiente para me tirarem pra dançar.

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Tra-lá-lá

ponto-e-vírgula

ponto-e-virgula7

Poucas coisas nessa vida são mais parciais e pessoais do que a sensualidade. Todo mundo já se revirou na cadeira quando alguma amiga ou amigo fez um elogio sensual para aquele rapaz mais torto que o quadro do Picasso ou aquela menina que derreteu antes de chegar na festa. E são elogios sinceros, porque sensualidade é exatamente isso: ver o que ninguém vê. É claro que o Jamie Foxx vestido de Django é lindo para maioria da população com equilíbrio mental adequado, mas existem coisas que me tiram do meu estado normal de uma maneira que é preciso dizer: ponto-e-vírgula. Gente, sério, não pode existir nada mais sexy que uma pessoa que sabe usar com precisão o ponto-e-vírgula: é um ser humano seguro, decidido, que entende que aquilo, enfim, não é um ponto-final – porque, de fato, não é hora de terminar -, nem uma vírgula, porque esta tem uma certa falta de dramaticidade, fica assim sempre meio corriqueira e banal demais. Pensem, amigos e amigas, em homens e mulheres que sabem usar o ponto-e-vírgula: eles podem conquistar o mundo. Imaginem o que uma pessoa, capaz de produzir todo um período bem pontuado não é capaz de fazer quando questões gramaticais ficam irrelevantes? Nem posso continuar pensando, porque isso me desconcerta. Sigo imaginando que saber usar o ponto-e-vírgula não seja mero conhecimento de causa, pois isso qualquer consulta a uma gramática resolveria. O poder do ponto-e-vírgula é próximo a um talento, a um dom. O ponto-e-vírgula, meus senhores, é a prova cabal de que um homem ou uma mulher que o conhece nunca vai te deixar na mão quando a oração acabar e o sentido carecer, ainda, de uma longa e deliciosa extensão.

Nota.1.A autora não usou propositalmente ponto-e-vírgula nesse texto porque acredita ser antiético seduzir leitores despreparados.

Nota.2. A autora optou por hífen no ponto-e-vírgula por se sentir sincera e pessoalmente seduzida por essa grafia.

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