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Vinte/e/sete

E que outro nome eu poderia dar senão amor, ao que me fez redescobrir um novo mundo todo dia? É como se eu pudesse escolher de novo a cor das coisas e o gosto das comidas. É como se eu pudesse sentir de novo uma certa esperança que a gente perde quando vira adulto. Gostar de você me lembra o prazer que sentia quando aprendi a ler e fiquei lendo cada placa em todas as esquinas em que passei. É a redescoberta do que sempre esteve ali. Como poderia ser menos do que amor a sensação de que existem formas sinestésicas de vida que eu ainda não tinha encontrado? É quase como se páginas novas surgissem no meio do meu livro favorito e mais um poema do Murilo fosse publicado, todo dia. Você é um podcast na segunda de manhã. Uma mensagem no meio da madrugada. Uma bondade da vizinha que eu acabei de conhecer. Uma textura inimaginável de mandioca. Você é o novo de novo: não é que não havia nada antes de você chegar. Sempre houve tudo, só me faltavam os instrumentos para ler. 

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Cartas d'ela., Num é?, Uncategorized

Ermão

Encontrei umas postagens de dia do irmão por aí, inclusive minhas. Quase sempre zuando você de alguma maneira e percebi que eu nunca tinha escrito um texto aqui diretamente para você – mesmo que em tudo que eu escreva sejam visíveis as letras que você traçou em mim.  Acho que não tem porque tudo que eu faço tem tanto do que você faz por mim que é como se eu acabasse repetindo à exaustão. Além disso, é bem provável, ficasse repetitivo, já que existe uma declaração imensa de gratidão em amor tudo que circula em torno de você na minha vida.

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Lembro que eu sentia muita raiva de você quando era pequenininha, porque você adorava me assustar e eu morria de medo da própria previsão do susto: por saber que você viria, eu já temia. E você vinha mesmo e dava um jeito de me surpreender até quando eu já tonha ensaiado as mil formas de me proteger de você.  Mas o que me dava mais raiva ainda é que eu não sentia raiva de verdade de você. Eu fui descobrir isso só adulta: quando a gente está com raiva, a gente simplesmente vai embora. E eu nunca fui embora e quantas vezes – insuportáveis vezes – eu voltei no minuto seguinte, porque eu sabia que você ia me assustar (ainda sei), mas sabia também (ainda sei) que o perigo real era justamente você que afastava de mim.

Você me protegeu de inúmeras formas: das subidas íngremes, das quedas bruscas, de mim mesma – que, vamos combinar, já era suficientemente perigoso – dos meninos e das pedras, dos acidentes e das bebedeiras erradas. Mas o que você não sabe é o quanto você me protegeu do medo do outro. Você sempre foi o meu outro: eu com meu chocolate amargo, você com o branco; eu intempestiva, você calmo; eu chorona, você comedido;eu invasiva, você discreto. Você sempre me ensinou que o outro, o diferente, o oposto: ele é possível.

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Não que você fosse insuportável e tenha me feito conviver com dificuldade com você: ao contrário. Você, vendo o universo de diferenças que eu era, a violência incontrolável que eu carregava dentro de mim, me permitiu ser assim. Você disse que eu podia ser exatamente quem eu era – contra a corrente do mundo que queria eu fosse mais parecida com você. Você me amou diferente, opostamente diferente, de você.

E se é um fardo carregar a expectativa do mundo quando se é irmã mais nova do homem mais incrível do mundo, esse fardo vira um presente quando, justamente, esse cara é o mais incrível do mundo.

Amo você, do tamanho da sua imensa cabeça.

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Pois é, professor

Tem coisa que a gente não explica, nem mesmo sendo professor. A gente mal entende, como poderia começar a tentar explicar? Poderia ser com um exemplo, mas tem coisa que não se repete. Podia ser com dados, mas a lógica escapa escorrendo entre os dedos cheios de giz. A gente não explica porque a gente não sabe qual é a causa e fica insegura sobre a consequência. A gente não explica porque a conclusão fica vazia, tem coisa que nunca chega ao fim. Eu não saberia nem que ponto usar.

A gente escreve escreve e não diz nada. Repara bem, até aqui eu só disse que eu não sei o que mais te dizer. Especialmente pra você. Nada explica essa mensagem. Nada explica sua honestidade. Nada explica eu superar esse cansaço todo só porque tá muito bom rir mais um pouco de você. Nada explica – nem planejamento, nem conselho de fim de ano – as coincidências. Coincidências são um jeito do universo de lembrar a gente que, afinal, o mundão – ao contrário do que a gente pensa – não acaba e a gente sempre pode escrever mais algumas linhas para falar da nossa (bem nossa) incrível mania de ter dificuldade com o idioma – melanoma? -, porque a vida não é só recreio não, professor.

Já te contei que professor tem dessas de esconder o jogo? A gente vive achando que é uma coisa, mas é outra. Professor tem um ego imenso, sabe? Precisa ser ouvido, ser lido, ser contestado. A gente quer falar tanto que quase engole um ao outro. A gente que, no fundo, ama tanto que não sabe mudar de assunto; quase sempre, sala de aula. Raramente a gente fala da gente, mas, até quando fala, é a lógica do tablado que se reproduz.

Nosso negócio é aula – essa que me ensina um pouco de tudo e que sempre começa meio atrasada. A vida tá aí e não vai sair da frente. Não adianta pedir licença. Ela traz uns diários pra gente preencher, um monte de coisa pra preparar. E, no fim, o que fica é o improviso.

Fica quieto, abaixa o som. Vamos ouvir a dúvida.

Eu não posso perder mais nenhum detalhe mais.

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Cartas d'ela., Uncategorized

Memories

Aqui estou eu e a minha ingrata memória.  Que olhos têm a minha memória. Que olfato. Trombo com ela toda vez que me esquivo das lembranças que me levam até você. Eu não queria abrir aquele armário, e a memória puxou meu braço e pousou sobre ele a camiseta que você esqueceu ali. Eu, que sou esperta, dobrei com cuidado para jogar no fundo da mala, mas a minha memória – que é sacana, a gente sabe – puxou o meu nariz roçou no tecido, soltando um perfume. O perfume, sabe, é serviçal da memória. Vai com as mãozinhas puxando e repuxando as coisas que eu podia passar sem lembrar.

A memória, essa sádica, vê graça em brincar de lusco-fusco comigo: ela quase me faz esquecer para, de repente, reconstruir com detalhes o formato do seu rosto e da curvatura da sua cintura, conforme as minhas mãos – meras serviçais da memória – registravam o ponto exato em que você se contorcia.

Os ouvidos também não são confiáveis. Eu não sei nada de música, eu nem diferencio um gênero de outro e tudo que eu consigo dizer é se gosto ou não gosto do que escuto. Eu gosto do tom da sua voz, e pra mim é tudo. Não é música, você me diria, mas eu sempre posso usar da desculpa da ignorância para dizer que, para mim, soa como se fosse.

Sinto gostos variados, mas têm combinações que me levam a você. Na realidade, o seu gosto, que eu queria lembrar toda hora, esse a memória rouba de mim. Ela sabe que eu faria de tudo para continuar sentindo. Quando resolvo tomar um chá, ela me traz a sua cerveja, e já o suficiente para me conduzir para outro dia, em que eu tocava..

Ah é, o tato… É que o sofá é de um tecido tão macio: de pijama, cobertor, eu podia só sentir a delícia que é descansar no meio da tarde, mas não dá. Todos os meus sentidos são vendidos para a memória, e a única coisa que me consola é a autonomia que meus sonhos têm: eles não obedecem a ela. Eles não dependem do que eu vivi.

Ali, e só ali, eu tenho total liberdade para ser o que combina mais comigo, especialmente nessas noites longas de inverno: um amontoado de lembranças com uma dose considerável de loucura.

 

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Feminismo, Num é?, Uncategorized

a amiga do meu namorado é minha amiga também.

A amiga da sua amiga pode ser sua amiga. A amiga do seu namorado pode ser sua amiga. A ex-peguete do seu namorado pode ser sua amiga. A atual do seu ex pode ser sua amiga. A namorada do seu irmão pode ser sua amiga. A irmã do seu namorado também. A sua sogra pode ser sua amiga. As primas do seu namorado podem ser sua amiga. A sua nora também. As alunas do seu namorado também. A chefe dele, a estagiária ou a dentista. Ah, as suas alunas também.

Não precisa necessariamente, porque a vida tem mil variáveis. Mas pode.

Uma das grandes armas do patriarcado foi ter posto as mulheres em competição. Objetificadas e sem poder, deveríamos competir para conseguir a atenção do sujeito da ação: o homem.

Os filmes nos ensinam que toda princesa ganha o príncipe de outra mulher (claro que temos recentes exceções, belíssima Malévola). As mães dão esse exemplo, quando odeiam a secretária do marido. Os professores fazem piadas sobre isso. A TV cria novelas cuja trama toda se passa sobre a competição entre mulheres. Usamos o possessivo em fotos do facebook “ele é meu”. E queremos tirar do nosso objeto de amor a possibilidade linda – e maravilhosa – de uma amizade.

Não tenho ciúmes das amigas do meu namorado, mas tive, por anos, das novas amigas das minhas amigas. Há um tempo eu descobri a idiotice disso, e passei a me esforçar sobremaneira para conhecer – e depois amar – as amigas das minhas amigas. A lógica que esquecemos é tão importante: se alguém que eu amo ama aquela pessoa, é mais provável que eu goste do que desgoste dela.

E, desde então, venho ganhado amigas todos os dias.

Nesse dia do amigo, fica um pedido: que seja dia da amiga, acima de tudo. Se você gosta tanto assim do seu namorado, a ponto de achar que ele tem que ser só seu e de mais ninguém, talvez você esteja se esquecendo de amar outra pessoa: você mesma.

Abrace uma amiga hoje. De longe ou de pertinho. E para as minhas amigas: aquele beijo borrocado de batom.

fauvismo

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Falta

não há cena mais comovente que o abraço no vazio de ghost. Ele é triste justamente por não ser no vazio. Ele acontece em alguém que a gente não vê, mas sente. Mas a vida é esse mundo esquisito, tão esquisito que consegue ser mais pirado que filme: tem, em volta de mim, fantasma que eu vejo, mas não sinto. Nesse mundão, cheio de pessoas que preferem o mal ao bem, trombar com a beleza, com o amor e a generosidade é algo maravilhoso. Mas tão rápido ele vem, às vezes ele se esvai. Pior, a gente afasta o que mais ama, por puro medo de abraçar o nada.

tenho sentido falta. Alguns abraços são dados, mas eles não nos confortam mais. Sentimos falta da sensação maravilhosa de proteção que só um abraço certo, com um beijo no cocoruto, pode dar.  Pelo visto, crescer é ter mais fantasma na vida, e menos cochilo no sofá depois do almoço. Mais cheiro do que pescoço para fungar. Mais saudade para doer do que para matar.

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em ghost, morreu alguém. Na vida, algumas pessoas morrem, mas ficam; outras, curiosamente, por mais vivas que estejam, vagam por aí na forma volúvel da falta… Sempre esfria de algum jeito. Se o inferno existir, deve ser frio pela falta de abraço.

acho natural todo o medo. De tanto machucar, a gente aprende a não bater mais. Ou deveria aprender. Eu, com os joelhos ralados e as maos calejando, ainda fico tateando o escuro. Eu, que não tenho medo da queda, e sigo abraçando o nada, na esperança mundana – tão corpórea – de cair num abraço (o seu)

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é que adolescente sofre.

Antes de começar a escrever, um aviso: não tenho pretensão nenhuma de escrever um “manual para melhorar a vida do adolescente”, nem dizer aos pais como tratar os filhos adolescentes, menos ainda criar um “manifesto pelo direito de adolescentar”. Eu só quero dividir as minhas impressões de professora, que vêm mescladas com minhas memórias (já não tão) recentes da adolescência. Mais que isso: vou tentar explicar aos meus amigos, colegas, conhecidos, desconhecidos que acham esquisito e quase inacreditável quando eu digo: adoro adolescentes.

Mas eu adoro mesmo, e explico o porquê:

Para mim, o sorriso do adolescente vale o dobro. Adolescente sofre, gente. E não é tipinho não. Veja: eles não são nem adultos, nem crianças; têm e não têm responsabilidade; sabem e não sabem o que fazer. Não, não é fácil. E os problemas deles são reais. Não é porque eles não pagam conta que eles não têm preocupações. Uma espinha pode, sim, ser tão grave quanto o atraso do iptu, porque ambos são parâmetros que a sociedade nos impõe para nos cobrar. É preciso ter paciência com a dor e o sofrimento deles. Se houver paciência, há empatia. Quando há empatia e reconhecimento: a gente toca. E eles sorriem. SIM, ADOLESCENTES PODEM SORRIR. E quando eles sorriem para mim (ou riem de mim, tudo bem), eu ouço os sinos da glória.

A mídia não facilita. A vida, essa bandida, já não está fácil para ninguém que consome, minimamente, a grande mídia. É mentira para todo lado, lavagem cerebral pesada e um movimento invisível e massacrante sobre estética. Se está difícil para mim, com 26 anos e o mínimo de noção do que eu sou, imagine para alguém de 15, que não se localizou nem esteticamente, nem socialmente, nem culturalmente. Para alguém que é medido e analisado meramente pelo seu corpo, para lguém que cresceu envolto às redes sociais e que precisa provar seu valor pela imagem? É dureza crescer nos dias de hoje, galera. Eu era popular porque sabia falar outra língua, enquanto esses meninos nascem sabendo falar outra língua e precisam ganhar curtidas para entenderem que

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