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Pois é, professor

Tem coisa que a gente não explica, nem mesmo sendo professor. A gente mal entende, como poderia começar a tentar explicar? Poderia ser com um exemplo, mas tem coisa que não se repete. Podia ser com dados, mas a lógica escapa escorrendo entre os dedos cheios de giz. A gente não explica porque a gente não sabe qual é a causa e fica insegura sobre a consequência. A gente não explica porque a conclusão fica vazia, tem coisa que nunca chega ao fim. Eu não saberia nem que ponto usar.

A gente escreve escreve e não diz nada. Repara bem, até aqui eu só disse que eu não sei o que mais te dizer. Especialmente pra você. Nada explica essa mensagem. Nada explica sua honestidade. Nada explica eu superar esse cansaço todo só porque tá muito bom rir mais um pouco de você. Nada explica – nem planejamento, nem conselho de fim de ano – as coincidências. Coincidências são um jeito do universo de lembrar a gente que, afinal, o mundão – ao contrário do que a gente pensa – não acaba e a gente sempre pode escrever mais algumas linhas para falar da nossa (bem nossa) incrível mania de ter dificuldade com o idioma – melanoma? -, porque a vida não é só recreio não, professor.

Já te contei que professor tem dessas de esconder o jogo? A gente vive achando que é uma coisa, mas é outra. Professor tem um ego imenso, sabe? Precisa ser ouvido, ser lido, ser contestado. A gente quer falar tanto que quase engole um ao outro. A gente que, no fundo, ama tanto que não sabe mudar de assunto; quase sempre, sala de aula. Raramente a gente fala da gente, mas, até quando fala, é a lógica do tablado que se reproduz.

Nosso negócio é aula – essa que me ensina um pouco de tudo e que sempre começa meio atrasada. A vida tá aí e não vai sair da frente. Não adianta pedir licença. Ela traz uns diários pra gente preencher, um monte de coisa pra preparar. E, no fim, o que fica é o improviso.

Fica quieto, abaixa o som. Vamos ouvir a dúvida.

Eu não posso perder mais nenhum detalhe mais.

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Cartas d'ela., Uncategorized

Memories

Aqui estou eu e a minha ingrata memória.  Que olhos têm a minha memória. Que olfato. Trombo com ela toda vez que me esquivo das lembranças que me levam até você. Eu não queria abrir aquele armário, e a memória puxou meu braço e pousou sobre ele a camiseta que você esqueceu ali. Eu, que sou esperta, dobrei com cuidado para jogar no fundo da mala, mas a minha memória – que é sacana, a gente sabe – puxou o meu nariz roçou no tecido, soltando um perfume. O perfume, sabe, é serviçal da memória. Vai com as mãozinhas puxando e repuxando as coisas que eu podia passar sem lembrar.

A memória, essa sádica, vê graça em brincar de lusco-fusco comigo: ela quase me faz esquecer para, de repente, reconstruir com detalhes o formato do seu rosto e da curvatura da sua cintura, conforme as minhas mãos – meras serviçais da memória – registravam o ponto exato em que você se contorcia.

Os ouvidos também não são confiáveis. Eu não sei nada de música, eu nem diferencio um gênero de outro e tudo que eu consigo dizer é se gosto ou não gosto do que escuto. Eu gosto do tom da sua voz, e pra mim é tudo. Não é música, você me diria, mas eu sempre posso usar da desculpa da ignorância para dizer que, para mim, soa como se fosse.

Sinto gostos variados, mas têm combinações que me levam a você. Na realidade, o seu gosto, que eu queria lembrar toda hora, esse a memória rouba de mim. Ela sabe que eu faria de tudo para continuar sentindo. Quando resolvo tomar um chá, ela me traz a sua cerveja, e já o suficiente para me conduzir para outro dia, em que eu tocava..

Ah é, o tato… É que o sofá é de um tecido tão macio: de pijama, cobertor, eu podia só sentir a delícia que é descansar no meio da tarde, mas não dá. Todos os meus sentidos são vendidos para a memória, e a única coisa que me consola é a autonomia que meus sonhos têm: eles não obedecem a ela. Eles não dependem do que eu vivi.

Ali, e só ali, eu tenho total liberdade para ser o que combina mais comigo, especialmente nessas noites longas de inverno: um amontoado de lembranças com uma dose considerável de loucura.

 

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Feminismo, Num é?, Uncategorized

a amiga do meu namorado é minha amiga também.

A amiga da sua amiga pode ser sua amiga. A amiga do seu namorado pode ser sua amiga. A ex-peguete do seu namorado pode ser sua amiga. A atual do seu ex pode ser sua amiga. A namorada do seu irmão pode ser sua amiga. A irmã do seu namorado também. A sua sogra pode ser sua amiga. As primas do seu namorado podem ser sua amiga. A sua nora também. As alunas do seu namorado também. A chefe dele, a estagiária ou a dentista. Ah, as suas alunas também.

Não precisa necessariamente, porque a vida tem mil variáveis. Mas pode.

Uma das grandes armas do patriarcado foi ter posto as mulheres em competição. Objetificadas e sem poder, deveríamos competir para conseguir a atenção do sujeito da ação: o homem.

Os filmes nos ensinam que toda princesa ganha o príncipe de outra mulher (claro que temos recentes exceções, belíssima Malévola). As mães dão esse exemplo, quando odeiam a secretária do marido. Os professores fazem piadas sobre isso. A TV cria novelas cuja trama toda se passa sobre a competição entre mulheres. Usamos o possessivo em fotos do facebook “ele é meu”. E queremos tirar do nosso objeto de amor a possibilidade linda – e maravilhosa – de uma amizade.

Não tenho ciúmes das amigas do meu namorado, mas tive, por anos, das novas amigas das minhas amigas. Há um tempo eu descobri a idiotice disso, e passei a me esforçar sobremaneira para conhecer – e depois amar – as amigas das minhas amigas. A lógica que esquecemos é tão importante: se alguém que eu amo ama aquela pessoa, é mais provável que eu goste do que desgoste dela.

E, desde então, venho ganhado amigas todos os dias.

Nesse dia do amigo, fica um pedido: que seja dia da amiga, acima de tudo. Se você gosta tanto assim do seu namorado, a ponto de achar que ele tem que ser só seu e de mais ninguém, talvez você esteja se esquecendo de amar outra pessoa: você mesma.

Abrace uma amiga hoje. De longe ou de pertinho. E para as minhas amigas: aquele beijo borrocado de batom.

fauvismo

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Falta

não há cena mais comovente que o abraço no vazio de ghost. Ele é triste justamente por não ser no vazio. Ele acontece em alguém que a gente não vê, mas sente. Mas a vida é esse mundo esquisito, tão esquisito que consegue ser mais pirado que filme: tem, em volta de mim, fantasma que eu vejo, mas não sinto. Nesse mundão, cheio de pessoas que preferem o mal ao bem, trombar com a beleza, com o amor e a generosidade é algo maravilhoso. Mas tão rápido ele vem, às vezes ele se esvai. Pior, a gente afasta o que mais ama, por puro medo de abraçar o nada.

tenho sentido falta. Alguns abraços são dados, mas eles não nos confortam mais. Sentimos falta da sensação maravilhosa de proteção que só um abraço certo, com um beijo no cocoruto, pode dar.  Pelo visto, crescer é ter mais fantasma na vida, e menos cochilo no sofá depois do almoço. Mais cheiro do que pescoço para fungar. Mais saudade para doer do que para matar.

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em ghost, morreu alguém. Na vida, algumas pessoas morrem, mas ficam; outras, curiosamente, por mais vivas que estejam, vagam por aí na forma volúvel da falta… Sempre esfria de algum jeito. Se o inferno existir, deve ser frio pela falta de abraço.

acho natural todo o medo. De tanto machucar, a gente aprende a não bater mais. Ou deveria aprender. Eu, com os joelhos ralados e as maos calejando, ainda fico tateando o escuro. Eu, que não tenho medo da queda, e sigo abraçando o nada, na esperança mundana – tão corpórea – de cair num abraço (o seu)

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é que adolescente sofre.

Antes de começar a escrever, um aviso: não tenho pretensão nenhuma de escrever um “manual para melhorar a vida do adolescente”, nem dizer aos pais como tratar os filhos adolescentes, menos ainda criar um “manifesto pelo direito de adolescentar”. Eu só quero dividir as minhas impressões de professora, que vêm mescladas com minhas memórias (já não tão) recentes da adolescência. Mais que isso: vou tentar explicar aos meus amigos, colegas, conhecidos, desconhecidos que acham esquisito e quase inacreditável quando eu digo: adoro adolescentes.

Mas eu adoro mesmo, e explico o porquê:

Para mim, o sorriso do adolescente vale o dobro. Adolescente sofre, gente. E não é tipinho não. Veja: eles não são nem adultos, nem crianças; têm e não têm responsabilidade; sabem e não sabem o que fazer. Não, não é fácil. E os problemas deles são reais. Não é porque eles não pagam conta que eles não têm preocupações. Uma espinha pode, sim, ser tão grave quanto o atraso do iptu, porque ambos são parâmetros que a sociedade nos impõe para nos cobrar. É preciso ter paciência com a dor e o sofrimento deles. Se houver paciência, há empatia. Quando há empatia e reconhecimento: a gente toca. E eles sorriem. SIM, ADOLESCENTES PODEM SORRIR. E quando eles sorriem para mim (ou riem de mim, tudo bem), eu ouço os sinos da glória.

A mídia não facilita. A vida, essa bandida, já não está fácil para ninguém que consome, minimamente, a grande mídia. É mentira para todo lado, lavagem cerebral pesada e um movimento invisível e massacrante sobre estética. Se está difícil para mim, com 26 anos e o mínimo de noção do que eu sou, imagine para alguém de 15, que não se localizou nem esteticamente, nem socialmente, nem culturalmente. Para alguém que é medido e analisado meramente pelo seu corpo, para lguém que cresceu envolto às redes sociais e que precisa provar seu valor pela imagem? É dureza crescer nos dias de hoje, galera. Eu era popular porque sabia falar outra língua, enquanto esses meninos nascem sabendo falar outra língua e precisam ganhar curtidas para entenderem que

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Respeitem minhas alunas.

Não faz muito tempo que eu descobri o feminismo. Não faz muito tempo que eu descobri a importância de lutar pelo meu lugar ao sol. Desde que eu entendi que, mesmo que eu seja independente financeiramente, bem resolvida com minha vida sexual e plenamente consciente da minha capacidade de participação política, eu continuo sendo diariamente (a cada segundo da minha vida) oprimida, eu decidi que eu tinha que lutar. Ensinar que sujeito e objeto saem do campo da gramática e ultrapassam a relação social é uma dor e uma luta que fazem parte do meu dia a dia.

(não queremos mais ser objeto, nem o seu falso sujeito indeterminado. Eu quero ser EXPLICITAMENTE autora da minha ação)

Cada um sabe da sua luta. Cada um sabe do que tem ou não coragem de dizer, fazer e viver. E eu devo dizer a vocês que, na situação de professora, tenho muito medo às vezes de confessar minhas verdades. Esses dias um documentário contava uma história de uma mulher que se engajou na luta pelo feminismo quando engravidou de uma menina. É triste ter que esperar por esse momento, mas é compreensível: o amor próprio nem sempre é tão latente (alguém ensinou você a se amar?).

Tem acontecido comigo cada vez que passa um ano letivo. Olha, não sou mãe (talvez não serei, ao menos, hoje, não pretendo), mas eu tenho muito carinho pelas minhas alunas. MAIS QUE ISSO: eu me reconheço nelas. Elas são eu, eu sou elas. Tudo que elas sofreram, eu já sofri; tudo que elas sofrerão, eu também sofrerei. É mais do que reconhecimento, é mais do que empatia, é amor (próprio, inclusive).

Eu tenho tanto a dizer a elas. Vocês não imaginam quantas lágrimas eu vejo por ano. Não porque a prova está difícil, não porque o pai está doente, mas tão somente porque chega um determinado momento em que elas entendem que são diminuídas pela sociedade inteira. E não são verdadeiramente livres; e que não estão realmente seguras. Mas elas entendem também que, comigo, elas nunca vão estar sozinhas.

Eu já tive uma aluna que me disse, não faz tempo, que, na minha aula sobre violência contra mulher foi a primeira vez em que ela não se sentiu culpada por ter sido abusada pelo avô.

Vocês sabem o que eu estou dizendo? Eu não posso ir brigar com esse avô. Não dá. Eu posso é ensinar e dar apoio para elas.

E depois de um dia dolorido em que fiz isso por horas. Depois de ver mulheres fortes se entregarem a ideia de objetificação. Depois de ouvir meninos, meninas, sangramentos e feridas do patriarcado, o que a internet me mostra?

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Eu poderia (pelo cansaço, inclusive) ter preguiça. Desistir. Achar que não vai dar em nada.

Mas eu não vou, não. Eu vou ser o exemplo delas. Não serão esses textos (feito por mulheres, inclusive), nem essas fotos, nem essas revistas. Eu não vou deixar.

Lembrando que: não dá para ter ódio de quem, sendo minoria, também oprime. estamos todas presas, meninas. todas nós. lembre: dê um abraço, não vomite uma violência. O seu feminismo é por você e por todas elas (nós)

E toda vez que isso aparecer: eu vou criticar. E dizer o porquê.  E toda vez que uma delas chorar porque não se sente adequada ao padrão – como se fosse possível -eu ressuscitarei 2 milênios de teoria para explicar a violência que está inerente ao padrão estético. E toda vez que alguma delas estabelecer competição com a outra (porque é isso que vocês ensinam a elas) eu vou fazer de tudo para estabelecer o companheirismo, a sororidade.

E elas, que são representantes de uma classe social com acesso ao estudo, vão fazer disso uma arma: e vão estudar exaustivamente e serão as melhores. Porque, minhas meninas queridas, o mundo vai tentar tirar a sua roupa, seu respeito, seu amor próprio, sua autoconfiança, sua segurança. Mas o seu conhecimento, ninguém vai tirar. E é isso que vai devolvê-las à luta por um lugar não só ao sol, mas na beira da praia e com água de coco. Porque elas merecem! Porque são autoras da própria existência.

Violência, machismo e objetificação:saiam daqui já! respeitem minhas alunas. 

– e todas nós!

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#somostodosprofessores, certeza?

Qualquer frase que inclua “todos” me parece problemática. Qualquer generalização é difícil, quando inclui uma categoria como professores fica ainda mais complicado.

Sempre fui a melhor aluna da escola, e toda vez que dizia que eu queria ser professora, as pessoas retorquiam: “mas você é tão boa aluna”. Curiosamente, até meus professores formulavam essa frase, querendo dizer “vá para uma profissão que vá te valorizar”. Mas veja: se a pessoa que gosta de estudar não puder ser professora, em que mundo é que eu estou?

No mundo contraditório em que professor segue sendo precarizado. E você, meu amigo, justo você que agora coloca no seu facebook que é um absurdo o que fazem com os professores, você não percebe que você faz parte desse processo. Se você é mãe ou pai e acredita que ser professor é lindo, mas não deseja isso para o seu filho. Ou, se você sempre acha que o professor é que é cruel demais quando questiona a prova. Ou se você acha que os professores cobram caro demais por uma aula. Ou você que acha que o ensino público é uma porcaria, mas não quer que mais dinheiro seja direcionado. Você que me encontra na rua e me pergunta: não valeria mais a pena ir trabalhar com outra coisa?

Todos vocês atiram em nós, cotidianamente.

Se você não entende que professor é artilharia de frente em qualquer luta, você não é um professor, nem entende o que é ser um. Porque se a gente não for exemplo, inspiração e garra, quem vai ser? (Ah, é, o neymar. ele tem garra)

Tudo faz parte do mesmo processo. Claro que o que aconteceu no Paraná é o limite da violência e um desrespeito pelo que há de ser humano. A gente deve se revoltar se isso acontecer com QUALQUER PESSOA. Quando, no entanto, acontece com um professor, é como se você me dissesse, agora com 26 anos: “mas você é tão inteligente para ser professora! Toma essa bala para aprender a fazer escolhas.”

Não, não sou. Você que é ignorante demais para não entender a importância disso tudo. E sim, somos perigosos demais. Tão perigosos quanto o conhecimento pode ser.

No entanto, seremos todos professores quando a educação do outro também for problema meu: porque ser professor é doar-se, acima de tudo – e não me venha com papinho de, já que é assim, devemos nos contentar com o que ganhamos, porque a realidade material é o que garante a sobrevivência. Aliás, vem desse papinho mais poético que pequeno príncipe a maioria dos argumentos (inconsistentes e incoerentes) da nossa desvalorização.

#nãosomostodosprofessores enquanto não formos todos éticos. Mas, não se preocupem, nós vamos sobreviver: seja acima do desrespeito, da dor, e mesmo da bala. Professor recomeça sempre: a aula, o semestre, o ano: a vida.

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