Poeminto

Poesia de quinta

Eu não costumo fazer poesia
Porque é preciso, pra isso, boas mãos
E as minhas que escrevem o dia a dia
Não são…
Por ti, esculpida com maestria
É como se me redimensionasse
Cabendo de novo em peito
Fazendo com que fosse outra
Mas a mesma
Há um tempo congelada
Como se a vida por mim passava
E eu não via
Essa malacabada que não faz poesia
Rima fácil dedo a dedo
Concreta passagem pelo corpo
Do lábio ao pêlo
E se, ainda que não faça poesia,
Hoje eu te entregue essa
É que ainda é quinta-feira
E minha saudade tem pressa.

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2017 me ensinou: uma retrospectiva!

Fim de ano a gente faz um trabalho de rememoração que é sempre muito doido. O final de 2016 foi um estouro pra mim: exaustivo, cheio de feridas, mudanças drásticas na vida. Acontece que eu me deparei com uma mudança que eu achava que fosse a ideal: a moderação. Afinal, eu tinha passado 27 anos vivendo a loucura de ser quem eu sou, isto é: intensa, verborrágica, entregue, passional.

Olha, eu sempre gostei muito de ser quem eu era e me gabo, hoje aos quase 29 anos, dos meus feitos imateriais, já que construí, com muito amor, relações sólidas de amizade, admiração e parceria. Uma profissão que eu amo, uma família ponta firme e uma vida material estável e suficiente encerram o cômputo geral das coisas que eu diria que me classificam como alguém muito, mas muito feliz e realizada…

Aliás, seria absolutamente mentiroso se eu dissesse que eu não fui feliz em 2017. Eu fui. Vivi emoções memoráveis, um relacionamento amoroso de carinho – que acabou, porque as coisas acabam, mas sem dor alguma – conquistas profissionais inigualáveis, emoções fora do meu controle, como ser paraninfa/patronesse da turma de terceiro ano que eu tanto amei. E, ca ra lho, eu acabei meu doutorado: uma pesquisa muito violenta, porque mexeu com vários mundos de dentro de mim que, ou eu não conhecia, ou conhecia e não gostava.

Porque eu sabia que 2017 seria um ano de muita intensidade, eu não me entreguei tanto. Foi só agora no finalzinho que eu me deixei tomar de vez. Eu treinei o ano todo a moderação: sem grandes brigas, é verdade, mas também sem grandes declarações. Se só a tese foi capaz de me levar ao inferno, também não me permiti que nenhuma sensação boa me levasse ao céu.

Valeu à pena?

Tudo vale, diria o Pessoa.  E vale mesmo, porque – bem ou mal – a gente aprende.

Entre alguns choros e outros sorrisos, eu lembrei que eu prefiro o desespero e a gargalhada. Essa coisa de moderação não é comigo não, gente. O ônus de sofrer pouco foi sentir pouco… Até beber pouco, eu bebi. Pude contar nos dedos as madrugadas memoráveis que tive, logo eu, que tanto adoro juntar uns amigos e virar a noite em torno do vinho, criando memórias.

Eu vi pouco minha família, porque eu precisei me enclausurar. Longe deles, fiquei mais longe de mim mesma.

Eu senti pouco, muito pouco.

e eu sinto muito, mas eu sinto muito.

e eu gosto…

gosto quando arrebata, dói, confunde. Eu gosto de me afundar nas pessoas, nas relações, nas palavras. Eu gosto de mergulhar no que eu tô sentindo e fazer disso palavra, texto, vida, em cinquenta mil tons de vermelho vibrante. Os tons pastéis podem até me deixar elegante, mas me afastam de mim, também. Eu gosto de dizer o que eu calei. EU GRITO! Eu me jogo no sofá. Eu não disfarço que tô apaixonada…

Eu aprendi que fugindo da paixão, ela me caça de volta. E tudo que eu não disse, acaba saindo num jato de vômito, misturando um sentimento que nunca passou com duas garrafas de vinho.

Eu voltei pro tinto. Eu não sou quieta. Eu não disfarço amor. Eu beijo e abraço sem parar. Eu não sento no sofá enquanto tiver música para dançar. Gostei de ser moderada, o momento da vida exigia isso. Mas agora eu volto, no melhor estilo réu confesso, devolvida a mim mesma, doida pronta para dar uns mergulhos bem loucos e eventualmente me afogar.

Se precisar, aceito respiração boca a boca.

 

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Cartas d'ela.

É você

que tem os olhos tão gigantes e a boca tão gostosa

tá tocando Rubel e tô caindo de sono, tentando terminar os cronogramas da semana.

não tem medo não, eu sei vai dar errado…

eu morro de medo, deus do céu como eu tenho medo. Eu só pareço forte, eu não sou.

eu tô com uma vontade danada de entregar todos os beijos que eu não te dei…

mas parei com essa história de não ditos.

É curiosa a minha vida.

Eu sempre

Dizendo

Me fodendo

Não dizendo

Me fodendo

Prefiro me foder com as palavras ditas.

(com você)

 

Que aí é uma dor por vez.

Arrependimento e culpa são insuportáveis.

 

A gente até se esconde…

é como disse meu amigo: é fechar o computador, abrir de novo, recomeçar exatamente de onde tinha parado.

É tudo de novo,

Mas é novo

de novo

 e volta a namorar depois…

 Não corre, não, que eu tenho paciência.

Pela primeira vez na vida, eu acho que vale a pena esperar alguma coisa.

Você vale terrivelmente a pena.

Vou começar gastando escrevendo tudo que você já deveria saber.

A começar, que é você

que tem olhos tão gigantes

e a boca tão gostosa.

Eu não vou aguentar.

 

 

 

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Cartas d'ela.

Relicário

Vida.

Comecei a escrever esse texto em um sonho, desenvolvi enquanto lavava a louça – o molho branco desgrudou, mas o machucado ainda dói e tem caco de vidro pelo chão – e pretendo terminar agora, estirada no sofá e exausta. Não sei se terminar é o melhor verbo, porque tem textos que nunca acabarão de ser escritos e eu desejo sinceramente que essa seja um desses.

Não será 6 de novembro de 2017 de novo, e eu realmente me incomodo com os dias que passam sem que eu os viva, só os observe.  Não foi o caso dessa semana. E ainda que tenham sido dias doloridos os últimos, muita coisa se construiu aqui dentro, na ilha que eu reservei para você. Eu poderia, é claro, enviar isso por email, mas eu quero ser surpreendida daqui alguns anos, quando o facebook me lembrar – haverá facebook? – ou algum leitor comentar por acaso, ou eu mesma resolver rever que é mesmo que eu sentia em 2017. Eu quero lembrar, letra por letra, da sensação que eu tenho hoje e só posso eternizar por palavra. É por isso que eu guardo mensagens antigas, meu bem. Eu faço delas uma recordação doce, não de você ou de mim, mas da sensação – tão intensa e fugaz – que elas me proporcionaram. Se eu bem fechar os olhos agora, consigo reproduzir o riso que eu soltei, as lágrimas que sempre caem primeiro do olho direito e a sensação de explosão.

Depois, as lágrimas secam, o sorriso se desmonta até virar um lábio mordido de preocupação, o coração se ajeita, o trabalho chama de volta. Mas é isso que é criar memórias, não é? É isso que no cômputo final das existências significa ter vivido uma vida.

Eu amo relicários, você bem sabe. Uso um todos os dias.  Acho que carregar pessoas que amamos talvez seja a proteção que santinho algum é capaz de proporcionar, a proteção de saber que se ama e se é amado de volta.  E existe, vida, alguma coisa que seja mais forte, importante e poderoso que amar?

Eu amo você, indubitavelmente. E porque o amor é isso – lembra do Drummond, né – talvez eu não o ame mais quando eu reler esse texto daqui alguns anos, ou talvez eu ame mais.  Talvez eu nem lembre o dia que você nasceu (22, tá?) ou esteja comprando o vigésimo presente de aniversário. Vai saber. Você me ensinou bastante sobre impermanência e sobre não fazer planos. Vivamos o agora.

Hoje, agora, nesse minutinho que bate um vento curiosamente gelado para novembro, nessa casa que eu fiz quase um templo pra mim – eu o amo muito e me sinto realmente protegida por esse amor, tão base de mim que me recobra o juízo quando eu perco. E como um diário inesquecível, eu construo esse texto, para ser visitado quando uma sombra me ludibriar de madrugada, ou na tarde triste dos  domingos. Faço isso em diários de papel, e não digo. Escrevo mais do que eu permito que você leia, mas é só por medo. Tenho amado bem mais do que tenho dito, mas ando sem capacidade de dizer. Acho que me acostumei com alguns silêncios.

Mas hoje era como se todos os alarmes disparassem em meio ao jogo do corinthians X palmeiras, com crianças berrando, cachorro latindo e gato minado. Tudo aqui dentro, misturado no meu estômago e subindo incontrolavelmente pela boca: caralho, como eu amo você.

Estando assim e mesmo distante, eu posso, hoje, fechar os olhos e saber exatamente o esforço que vai ser roubar um beijo e o quanto vai valer a pena, nem que dure por segundos.  Eu consigo sentir o movimento que as suas mãos fazem pelas minhas costas quando você quer me acalmar. E porque hoje eu consigo reconstruir pedaço por pedaço essa memória é que eu a escrevo. É incrível como você vale à pena.

Que essas palavras também sejam o meu relicário,

M.

ps1. nenhum quadro dá conta para ilustrar.

ps2. não vou mudar nada, independente de qualquer erro.

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Vinte/e/sete

E que outro nome eu poderia dar senão amor, ao que me fez redescobrir um novo mundo todo dia? É como se eu pudesse escolher de novo a cor das coisas e o gosto das comidas. É como se eu pudesse sentir de novo uma certa esperança que a gente perde quando vira adulto. Gostar de você me lembra o prazer que sentia quando aprendi a ler e fiquei lendo cada placa em todas as esquinas em que passei. É a redescoberta do que sempre esteve ali. Como poderia ser menos do que amor a sensação de que existem formas sinestésicas de vida que eu ainda não tinha encontrado? É quase como se páginas novas surgissem no meio do meu livro favorito e mais um poema do Murilo fosse publicado, todo dia. Você é um podcast na segunda de manhã. Uma mensagem no meio da madrugada. Uma bondade da vizinha que eu acabei de conhecer. Uma textura inimaginável de mandioca. Você é o novo de novo: não é que não havia nada antes de você chegar. Sempre houve tudo, só me faltavam os instrumentos para ler. 

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Cartas d'ela., Num é?, Uncategorized

Ermão

Encontrei umas postagens de dia do irmão por aí, inclusive minhas. Quase sempre zuando você de alguma maneira e percebi que eu nunca tinha escrito um texto aqui diretamente para você – mesmo que em tudo que eu escreva sejam visíveis as letras que você traçou em mim.  Acho que não tem porque tudo que eu faço tem tanto do que você faz por mim que é como se eu acabasse repetindo à exaustão. Além disso, é bem provável, ficasse repetitivo, já que existe uma declaração imensa de gratidão em amor tudo que circula em torno de você na minha vida.

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Lembro que eu sentia muita raiva de você quando era pequenininha, porque você adorava me assustar e eu morria de medo da própria previsão do susto: por saber que você viria, eu já temia. E você vinha mesmo e dava um jeito de me surpreender até quando eu já tonha ensaiado as mil formas de me proteger de você.  Mas o que me dava mais raiva ainda é que eu não sentia raiva de verdade de você. Eu fui descobrir isso só adulta: quando a gente está com raiva, a gente simplesmente vai embora. E eu nunca fui embora e quantas vezes – insuportáveis vezes – eu voltei no minuto seguinte, porque eu sabia que você ia me assustar (ainda sei), mas sabia também (ainda sei) que o perigo real era justamente você que afastava de mim.

Você me protegeu de inúmeras formas: das subidas íngremes, das quedas bruscas, de mim mesma – que, vamos combinar, já era suficientemente perigoso – dos meninos e das pedras, dos acidentes e das bebedeiras erradas. Mas o que você não sabe é o quanto você me protegeu do medo do outro. Você sempre foi o meu outro: eu com meu chocolate amargo, você com o branco; eu intempestiva, você calmo; eu chorona, você comedido;eu invasiva, você discreto. Você sempre me ensinou que o outro, o diferente, o oposto: ele é possível.

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Não que você fosse insuportável e tenha me feito conviver com dificuldade com você: ao contrário. Você, vendo o universo de diferenças que eu era, a violência incontrolável que eu carregava dentro de mim, me permitiu ser assim. Você disse que eu podia ser exatamente quem eu era – contra a corrente do mundo que queria eu fosse mais parecida com você. Você me amou diferente, opostamente diferente, de você.

E se é um fardo carregar a expectativa do mundo quando se é irmã mais nova do homem mais incrível do mundo, esse fardo vira um presente quando, justamente, esse cara é o mais incrível do mundo.

Amo você, do tamanho da sua imensa cabeça.

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Cartas d'ela., Pensamento Desvairado

(d)o amor

Porque eu tinha uma ideia certa do que é o amor, não reconheci que havia amor no modo como você às vezes me afastava de você. Por achar que o amor era um só, eu não soube distinguir seus jeitos complicados de me dizer que estava ali. Tendo vivido o que você viveu, tendo sentido o que você sentiu, continuar ali era também dizer que havia amor – ou, mais importante que isso: disposição torta para amar. Mas eu não via. Como meu culpar se eu tinha os olhos tapados pela dor que me escureceu a vista antes de você? Muita lágrima embaça a vista e, até você chegar, muito pouco eu enxergava. Por desconhecer ainda o que é o amor, sei racionalmente que ele é meu e sorte a minha poder sentir, mas enlouquecidamente desejei que ele retornasse até mim. O amor tudo supera, eles me disseram: mas houve dias que eu não pude superar. O amor nada pede, eu aprendi: e me machuquei por te cobrar. O amor verdadeiro é incondicional? Houve vezes em que houve condições para amar. Por não permitir que você me amasse ao seu modo, acreditei que eu pudesse deixar de sentir. Logo eu, que vi seu rosto no prato de macarrão e me virei inteira para encontrar uma vaga no espaço  apertado que você deixou para alguém preencher. Eu,espaçosa. Eu, folgada. Eu, que rasguei com unha toda proteção que me impedia de entrar. Eu, que lutei para caber.  Eu que exauri tentando e achei que se fosse amor, eu não cansaria. Porque eu achei que tinha uma ideia certa do que é amor, achei que ele viria como eu o esperava e quase não o reconheci assim que ele chegou. O amor que é ego; o amor que é cego. Eu, que não percebi que o amor não era uma consequência evidente do “tudo é perfeito”; tampouco uma criação espontânea, eu, que quase esqueci de olhar para o único lugar que poderia responder o que é o amor: dentro – lá bem dentro – de mim

e adivinha? você continua ali.

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