Cartas d'ela., Pensamento Desvairado

Vamo lá, time.

Não contra, junto; não versus, mas versos. Disparados no placar. Não há adversário que dê conta. Se você ganha, eu também ganho; se você perde, eu divido a culpa. Se eu posso, você topa; se você não pode, eu me ajeito. Sem jogo, pra gente não competir. Sem tacada, sem mentira, sem conversinha.

só a nossa boa e velha honestidade.

só o nosso bom e velho papo.

O maior erro é quando a gente faz do amor um jogo. Porque eu sou competitiva. E eu vou ganhar, eu sempre vou ganhar: ou eu ganho, ou o jogo acaba. Se você fica do outro lado, perco eu, perde você; perdemos nós os nós.

O maior erro é quando a gente faz do amor um jogo. Sabe o senso de pertencimento? Eu quero pertencer a você. Eu gosto de você lutando por mim assim como eu vou lutar por você. Gosto como a gente forma uma boa dupla. Gosto de como a gente fica mais forte. Não é que a gente precise; mas funciona melhor assim: tipo gangorra, eu quero ser teu impulso.

Sozinha eu dependo do chão pro meu balanço voar. Com você, só dos seus braços e do empurrão certo.

Não vai ter medo, sabe? Ninguém tem medo quando sabe que, se cair, tem quem segure. Que se tudo girar, tem quem centralize. Que tem alguém que fecha com você.

O amor acabou quando eu tentei ser mais que você e não mais com você. O amor acabou – e seguirá acabando – quando você quiser sorrir acima de mim e não comigo. O amor acabará quando você não puder mais comemorar as minhas vitórias cansadas e chorar meus cansaços vencidos.

Dupla é de dois. De um nem é time, não. Se a gente vai juntinho, vai bem.

Porque nós dois somos um time campeão.

maos-dadas

 

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Poeminto, Tra-lá-lá

Cantiga de sorte

Eu não sou esse batom vermelho

nem as minhas tatuagens.

Eu não sou essas roupas coloridas,

nem as milhões de bijuterias balançando e te distraindo.

Eu não sou essa cerveja,

nem essa ressaca.

Gosto do sacolejo da música que toca ao fundo da gente.

exatamente aqui, olhando pra você.

Eu não sou, lembre-se sempre, essa história mal contada de mim.

Eu não sou as suas expectativas – uma pena,

eu não sou seu ideal.

(nem seu mal, nem seu mal)

Eu não sou aquela aula,

nem o livro que eu carrego debaixo do braço.

Eu não sou só a fome

mas queria mastigar cada pedacinho de você.

Eu não sou os meus textos,

nem meu apartamento bagunçado.

Eu não sou essas plantas,

nem o leite,

nem o suco,

nem as frutas que eu trouxe pra ti.

Se eu pudesse,  quer saber, acho que eu te engoliria.

Porém

eu não sou esse vestido preto,

nem esse comentário confuso

Eu não sou nem poeta,

nem nada de novo no mundo.

Eu não faço a mínima ideia do que eu sou

e de quantas de mim eu ainda posso criar.

Um universo todo

uma mulher

– sortuda, isso eu sou!-

‘múltipla, desarticulada, longe como o diabo’

é só amor que me fixa nos caminhos do mundo.

 

picasso7

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Cartas d'ela.

Cartão de Natal

Vai parecer mentira se eu disser que eu gosto mais de cartão de natal do que de presente de natal. Mas é verdade: eu gosto bem mais! Não tenta me atacar dizendo: ah, então vou te dar só o cartão, porque – eu te juro, juradinho – eu não vejo mal nenhum nisso. Quem me conhece bem, sabe: escrever, pra mim, é a coisa mais importante. Bilhetinho, cartinha, cartão. Eu gosto mais da dedicatória do que do livro. Gosto mais do cartão do que das flores. Gosto mais da mensagem de madrugada do que um vestido. Palavra é um negócio importante demais: e eu me alimento delas.

Já me apaixonei por pessoas que não me escreviam e que me convenciam que não importava escrever, importava viver o amor. Não acho que seja mentira, mas, pra mim, que escrevo na pele, no diário, na agenda, na lousa – o amor também se constrói escrevendo.

Todas as formas de amor.

Eu amo os chocolatinhos que recebo dos alunos. E os brincos. E os batons: mas nada supera o bilhete, a cartinha, nada, nunca, superará as palavras.

Ouvi uma vez que ‘o papel aceita tudo’, e que era mais fácil mentir escrevendo – isso dito numa tentativa de hierarquizar a ação e a palavra, como se a ação necessariamente superasse as palavras. O papel não aceita tudo, não. Se forçosamente se escrevem mentiras, o papel, no fundo, sangra.

E se você é do tipo que escreve mentiras, então você é a pior espécie de gente que existe: aquela que não merece nem o papel, nem a caneta, nem a beleza da palavra escrita, que pode ser lida e relida, incansavelmente, até a gente decorar o que tá escrito.

Já ficou lendo uma mensagem, um cartão, um bilhete até que as palavras ficassem em você? Talvez seja o prazer mais genuíno que tem no despertar do amor. No amor maduro. No fim do amor, também.

Ler silenciosamente. Em voz alta. Para alguém importante. Enquanto eu puder (te) ler, eu sei: tá tudo dando certo.

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esse eu ganhei do meu irmão, hoje. Não tem nada mais legal pra ganhar de presente.

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Poeminto

Poesia é brega

Eu queria te escrever poesia

Fazer café

e dormir cansada,

sem medo.

Eu queria gritar teu nome pela janela,

Calando minha voz aqui dentro.

Queria te ligar pra dizer nada,

E alisar esse teu cabelo.

Eu queria contar do meu dia

E na contramão do teu,

Sorrir um monte.

Pedir pra ficar do teu lado.

Eu quero uma taça de vinho,

Meu chocolate amargo

Quero sempre um chá quente

Uma massagem no pé.

O fim das guerras,também

O fim do sofrimento, claramente

O fim das opressões, para logo

Tudo que eu mais amo, eu quero,

continuamente

insistentemente

Exceto você, assim leve…

Eu não quero amanhã

Eu não quero a vida toda

Eu não sei da semana que vem

Só que agora

especialmente nessa hora

eu só queria você.

arcadismo

esse poema só não é mais brega que esse quadro árcade

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Pensamento Desvairado

Fofurinhas

Essa semana, li com meus alunos  uma crônica do Ivan Martins que é super interessante, chama “Os Códigos do Afeto“. Nela, o feio-bonito discute que criamos códigos privados – na maioria das vezes embaraçosos, para sinalizar para outra pessoa que está conosco que a gente gosta dela. E isso,  no limite, faz surgirem apelidos ruins e barulhos esquisitos. Ou vozinha, também. Acho engraçado pensar sobre a esquisitice das pessoas e como essas coisas podem deixá-las apaixonantes ou insuportáveis. E é tudo tão subjetivo quanto uma paixão pode ser.

Gente que morde o lábio pra pensar talvez seja o traquejo mais padronizadamente estabelecido como interessante e, justamente por isso, amplamente apropriado. Aí não tem a mesma graça. A graça está nas coisas que fazem da pessoa ser o que ela – e todo seu charme – é sem, no entanto, que ela perceba que é isso. Bons jogadores na arte da sedução não revelam às pessoas quais são esses elementos tão sedutores, senão são facilmente coaptados.

Eu, porém, que não vejo paixão como jogo e que não quero perder nem ganhar, geralmente deixo explícita essas, por assim dizer, ‘fofurinhas’ que me seduzem. Eu entrego o jogo bem rápido, até pelo meu olhar… Fofurinha é traquejo, malemolência, é mimetismo. O jeito que olha, o jeito que ri, o jeito que apoia a mão na cintura. O jeito que debruça na janela ou descansa despretensiosamente na pia. O jeito que amarra o cabelo. O jeito que dedilha a minha pele enquanto percorre o desenho das minhas tatuagens.

É bem provável que eu não lembre com exatidão detalhes físicos das pessoas por quem me apaixonei nessa vida. Mas essas fofurinhas: a postura, o modo como sorri ou pisca são sempre um negócio inesquecível. Porque é aí que eu me balanço. É no modo de sentar, de conversar, de comer, de segurar o copo. Eu já me desapaixonei jantando com uma pessoa: não tô falando de etiqueta na mesa, não; eu desapaixonei porque faltava a vontade de comer, o modo de conduzir tudo como se o almoço fosse o momento mais banal do mundo. Eu gosto de gente gosta de comer e isso conta muito mais que olho claro. Faltava paixão. Por outro lado, já me apaixonei vendo alguém comer com devoção e carinho. Se a pessoa não tem carinho quando se alimenta, nunca vai me entender.

Eu gosto de gente que vira a folha pra escrever. De gente canhota – que fica especialmente bonita abrindo latas e usando tesouras. Gosto do jeito que contam histórias. Gosto do jeito que discordam ou concordam comigo. Gosto de gente que demonstra as coisas. O silêncio não me atrai.

E a fofurinha só vem quando a pessoa está desarmada. Gente que se programa demais não tem espaço para dar conta da autenticidade da fofurinha. Quem pensa demais na própria forma de conduzir a conversa, pensa demais em como conduzir a vida. E o bonito tá no inesperado, no gesto que entra de bicão no meio do nosso tão treinado comportamento.

Gosto do jeito que se espreguiça ou do jeito que me chama. Gosto do jeito que mexe na minha unha. Gosto da mania de respirar bem fundo, à toa. Gosto que enrolem pra me dar algo que eu pedi – vai entender? Não sei explicar, não saberia desenhar, nem apontar como tudo isso funciona. É um negócio que palavra nenhuma explicará o suficiente e que foto nenhuma vai deixar transparecer…

Hoje, porém, o mundo é das imagens. Vemos e cansamos de ver as pessoas por fotos, e, por mais linda que seja a foto e a pessoa – e que isso seja evidente e real – nunca a foto poderá capturar a fofurinha. Nunca dará conta. O bonito tá na cara amassada de sono, no sorriso meio de lado, meio torto quando ele se constrange. A felicidade que parece mais animada quando ri da minha cara e faz de mim o alvo das piadas. Achar bonito na foto é a coisa mais fácil do mundo. Difícil é se manter forte e indiferente ao modo como a cintura é enlaçada e envolvida. Ao cheiro. À forma como distribui o peso quando pesa sobre mim, ou beija bem no meio das minhas costas, onde ninguém vai beijar. O que é só dele e dela é que o que faz da gente dela e dela. Não adianta: mãos delicadas, cabelo bonito, barba ou um sorriso nunca vão superar, em seu poder magistral de virar a gente do avesso, a forma como ele ou ela, na exata despretensão de só querer ser só exatamente o que se é, vivem.

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Pois é, professor

Tem coisa que a gente não explica, nem mesmo sendo professor. A gente mal entende, como poderia começar a tentar explicar? Poderia ser com um exemplo, mas tem coisa que não se repete. Podia ser com dados, mas a lógica escapa escorrendo entre os dedos cheios de giz. A gente não explica porque a gente não sabe qual é a causa e fica insegura sobre a consequência. A gente não explica porque a conclusão fica vazia, tem coisa que nunca chega ao fim. Eu não saberia nem que ponto usar.

A gente escreve escreve e não diz nada. Repara bem, até aqui eu só disse que eu não sei o que mais te dizer. Especialmente pra você. Nada explica essa mensagem. Nada explica sua honestidade. Nada explica eu superar esse cansaço todo só porque tá muito bom rir mais um pouco de você. Nada explica – nem planejamento, nem conselho de fim de ano – as coincidências. Coincidências são um jeito do universo de lembrar a gente que, afinal, o mundão – ao contrário do que a gente pensa – não acaba e a gente sempre pode escrever mais algumas linhas para falar da nossa (bem nossa) incrível mania de ter dificuldade com o idioma – melanoma? -, porque a vida não é só recreio não, professor.

Já te contei que professor tem dessas de esconder o jogo? A gente vive achando que é uma coisa, mas é outra. Professor tem um ego imenso, sabe? Precisa ser ouvido, ser lido, ser contestado. A gente quer falar tanto que quase engole um ao outro. A gente que, no fundo, ama tanto que não sabe mudar de assunto; quase sempre, sala de aula. Raramente a gente fala da gente, mas, até quando fala, é a lógica do tablado que se reproduz.

Nosso negócio é aula – essa que me ensina um pouco de tudo e que sempre começa meio atrasada. A vida tá aí e não vai sair da frente. Não adianta pedir licença. Ela traz uns diários pra gente preencher, um monte de coisa pra preparar. E, no fim, o que fica é o improviso.

Fica quieto, abaixa o som. Vamos ouvir a dúvida.

Eu não posso perder mais nenhum detalhe mais.

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Pensamento Desvairado

Escorre

Tava ali, deitada, como quem não quer nada; tava ali, quieta, absolutamente parada. Eu que não procuro tristeza, eu que só sei ir correndo abraçar toda forma mais ou menos nítida de felicidade, eu que tava ali, completamente absorta; até eu, euzinha, eu vi.

Eu, que quase nunca quero ver, vi. Eu que não distinguo dentes de nuvens, olhei pro céu desacreditada: até a lua me consolou. É, minha filha, a vida é um apanha e assopra sem fim; ora leite, ora café; dia limão, dia mamão.

E nessa de ida e vinda, a gente vai aprendendo a gostar do escuro. O quase-desconhecido, o quase-nada, quase-tudo, a dança perdida da madrugada, o desequilíbrio. O escuro escorre. Tem textura, cheiro, cor e passa de corpo a corpo. O medo do escuro é meu companheiro mais antigo e mais confuso: ele nunca vai embora, mas ele nunca fica.

Desejo o escuro como quem deseja o fim da festa; quase não desejando. Desejo o escuro como quem sabe que, de olhos fechados, ninguém mais pode me ver. Só tocar. Uma, duas, três vezes. O escuro ganha a forma minha mão e encaixa lenta e delicadamente onde for melhor pra mim: dentro, fora, embaixo, em cima. E escorre, formando um lago turvo que fica entre o assustador e o totalmente cativante.

Sei lá que tipo de criaturas poderiam morar ali. Eu conheço uma só, a gana. A gana que tá sempre com fome, que não se contenta com o hoje e fica querendo o amanhã; mais um pouco, mais um dia, só mais meia hora. A gana que é feita da mesma matéria da minha gula – sempre ali, sempre pronta para tirar de mim todo o resto de energia que, por ventura, tenha me sobrado. A gana que me consome. Ela se alimenta da mistura do meu medo com a minha vontade e faz disso uma arma absolutamente letal que explode, molhada, bem na minha cara.

goya

 

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