Cartas d'ela.

Amor ainda, amor até depois.

Henrique, meu amigo, você me diz que tem muito amor aqui, não é? Sempre teve. A verdade, pegue essa cerveja que vou te contar, é que sempre tem muito amor. A gente não muda as pessoas, é verdade; as pessoas não nos mudam, também. A matéria que preenche esse meu corpo é amor. Sempre foi, eu sempre soube. Por um minuto, eu desconfiei que o amor tem uma única cara; ainda bem, Henrique, que eu tenho você para me lembrar que o amor nunca veio de fora para dentro, ele sempre saiu de mim. E enche, transborda, vaza…

Henrique, o amor tem 1000 caras: e elas pipocam na minha frente assim que eu chego na escola. E me beijam e me abraçam: tem amor demais nesse mundo. O amor que tem o cheiro da minha mãe, o colo do meu pai o abraço do Gê – que você precisa conhecer, Henrique! O amor, meu querido, tem o conforto do sofá lá de casa.

Uma amiga querida me disse que a vida é curta demais para estar com quem não ama as minhas xícaras. Tem amor nas xícaras, sabe? Na mesa. Na toalha da mesa – Val que fez. Tem amor na sapateira, no cuidado que vocês têm de tirar o sapato para entrar no meu cantinho sagrado. Henrique, tem amor na nossa IPA gelada no meio da semana.

Tem amor quando a gente não quer chamar de amor as visitas de segunda-feira, o cafuné inesperado, as esquisitices que coincidem. Dá medo chamar de amor o que parece tranquilo e leve, mas quem disse que amor pesa? Amor pode ser essa música de rima bem boba.

ESPAÇO PARA A FOTO COM O MINEIRO QUE EU NÃO TENHO

Tem amor transbordando no café do Mineiro. Na piada ruim do mineiro. No sertanejo que a gente põe só pra ver ele feliz. Tem amor na Tê e na Dona Lina, e como, pra elas, a gente sempre vai ser a forma exata de amar.

Tem amor onde eu passo, tem amor onde eu bebo, tem amor onde eu me demoro. Sabe por que, Henrique? Claro que cê sabe, que me contou foi você: porque eu sou o amor.

Aliás, eu amo você.

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uptade: Mineiro tinha uma foto, sim.

BONITA JÁ NÃO

Mas feliz e cheia de amor

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Adiós, Cartas d'ela.

Canto de Ossanha

Ainda toca Canto de Ossanha na rádio, ela desliga porque aquela música lembra de uma velha tradição que ela pretende esquecer: o homem que diz vou, não vai. Tem briga aqui e um beijinho perdido, parece que o homem do Canto de Ossanha achou ali seu abrigo. E nem diz que vai. Menos ainda que fica. Não adianta não: e a gente canta para o mundo uma força que não canta aqui dentro. Não adianta nadica a gente fortalecer o mundo, se aqui dentro a gente se enfraquece. Não adianta botar a casa em ordem, se o coração segue na bagunça de quem diz que ama, mas não parece amar. Coitado do homem que vai atrás de mandinga de amor. Coitado do homem que vai mendigar mais um pouco de calor. O toque, o cuidado, o amado.  A gente se pergunta, enquanto toca alto lá no rádio, se dá para viver uma vida toda com saudade da saudade. Com apego do apego.  Com o outro lado da lembrança. Memória viva massacra a alma, faz a gente sonhar quando só deveria dormir.  Ninguém está quando quer. A gente tá quando aguenta. Perna até para de andar, mas quem disse que pensamento também? Pensamento corre o mundo, atravessa cinco estradas e encontra repouso no cheiro que a gente deveria esquecer. Ninguém está quando quer. A gente tá só quando a vida e seu cacho de acasos resolve transformar, no meio de um monte de mãos sacolejantes, a mão que enlaça, aperta, consola e solta a sua. A gente não pode viver esperando a voz, a gente tem é que acostumar com o silêncio. A gente pode até esquecer do que foi feito, foi dito e parar de sonhar com o que poderia ter sido – e não será. Mas esse erro que nos constitui, fica. Porque acontece que o impossível é ir embora da gente. Dá não, senhor. Amor só é bom se doer.

Não, eu só vou se for pra ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor

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Cartas d'ela., Num é?

O amor encaixa

Não posso amar ninguém 

porque sou o amor  

Murilo Mendes

A gente segue escrevendo textos sobre gostar de alguém, porque sempre tem alguém no mundo gostando de alguém e que vai achar que aquela metáfora – aquelazinha ali, que a gente quebra a cuca pra pensar – encaixa perfeitamente.

A gente quando tá que gosta de alguém acha que tudo encaixa: a música no rádio, a flor desengonçada na esquina, até na lua a gente acha uma mensagem escondida dizendo pra gente que o amor, esse danado, tá ali.

E a gente anda no mundo mais leve, com a felicidade que há em se descobrir capaz de amar. É melhor que fazer o primeiro xixi da balada open bar. Viu? Você tá apaixonado e achou lindo. Péra, vou mandar pra ela: estar com você é melhor que fazer o primeiro xixi da balada open bar. Sabe que mais? Ela vai abrir um sorriso enorme, mostrar para alguém que ela curte, perguntar se você não é a coisa mais fofa desse mundo. Você tem cheiro de café da manhã. Nossa, se alguém me dissesse isso, eu derretia. Juro. Café da manhã é a melhor coisa do mundo.

Porque faz parte mesmo de gostar. O cheiro fica mais, o tempo passa rápido, todos os clichês – todos, mesmo – fazem sentido. Eles só existem porque antes de você alguém ficou assim, meio idiota.

Você acha lindo o jeito que ele olha, que é o jeito que pelo menos umas 100 mil pessoas ao redor do mundo olham. Mas não é ele, não é? Parece que deu um estalo quando você trombou com aquela calça meio larga na rua.

E sabe o que mais incrível? Que eu aposto com você que um dos hobbies de vocês é relembrar como vocês duas se conheceram. Sobre a expectativa que criaram. Sobre como uma pensava que a outra pensava. Sobre vocês acharem que é ‘nossa, jamais ela vai me dar bola’.

Ou ainda, o clássico: ele me odeia, certeza. Nem olha pra minha cara direito. E o que ele fazia era ficar mega tímido quando encontrava com você.

Porque o coração acelera – é clichê, mas é verdade.

A boca seca – é clichê, mas é verdade.

A gente fica monotemático – é clichê, insuportável pros amigos, mas é verdade.

A boa e a má notícia?

É que passa.

A boa e a má notícia?

Vire e mexe, pode voltar. Até pela mesma pessoa.

É só sair caminhando por aí, deixar o cabelo preparado pra um cafuné despretensioso, uma cerveja na hora errada, um bom dia perdido e pronto. Dá-lhe ouvir a mesma música em looping porque a letra foi feita pra vocês….

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Feminismo

Feliz dia dos namorados!

O dia dos namorados é uma data ridícula, eu sei. É comercial, eu sei. Mas a gente não diz isso às adolescentes que, submetidas a uma força midiática imensa, e instruídas, muitas vezes, por quem reproduz esse padrão, acreditam que a felicidade está no outro.

A felicidade pode estar, sim, na relação que estabelecemos com esse outro. Porém, ela tem um vetor único: a origem deve ser você. Do amor? Idem. Não é possível amar alguém sem antes se amar. E se amar implica, devo dizer, respeitar muito você mesma.

Então, minhas queridas, o feliz dia dos namorados vai ser feliz quando namorar um rapaz mais velho não signifique ‘status’ entre seus amigos, quando fazer sexo não for uma imposição, mas uma decisão SEGURA tomada por você. O feliz dia dos namorados não vai ser quando ele lhe comprar um buquê de rosas vermelhas, mas quando ele incentivar suas decisões e permitir sua autonomia; será feliz se ele respeitar suas escolhas e não lhe impor as dele. O feliz dia dos namorados pode vir acompanhado de um jantar delicioso, no qual – atenção! – ele não espere que você aja como um bibelô que o decora. O feliz dia dos namorados não virá acompanhado de presentes, mas de lealdade. Esse dia não precisa de selfies no facebook, ele precisa não vir com exposições do seu corpo que ele trata como se fosse posse  dele. O feliz dia dos namorados é aquele em que você tem certeza que está ao seu lado alguém que a enxerga como um indivíduo pleno, autônomo e digno do maior respeito.

Não pode existir amor sem segurança. Não cedam a nenhuma pressão social. Não é que “antes só do mal acompanhada” porque vocês não estão sós.

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o quadro é da Mary Cassat, sempre temos a opção de comemorar com o catiorinho

 

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Num é?, Pensamento Desvairado

Do amor que precisa ser escancarado

Essa é a reflexão feita por uma bêbada enquanto fazia xixi no meio de uma formatura; por isso, não levem tão a sério, ou levem muito a sério.

Diariamente, pipocam na minha timeline declarações de amor. De diferentes naturezas: das minhas alunas adolescentes que nunca tiveram uma desilusão amorosa até aos colegas mais velhos, com anos de casados, falando sobre o companheirismo da vida compartilhada. Tem declarações mais artísticas: música, poesia, tirinha; e as mais viscerais (sem você, não vivo). Tem as declarações com fotos profissionais, com selfie, com foto tremida. Tem declaração que nem tem foto, só um ‘eu te amo’, singelo. Ou aquelas que parecem uma brincadeira, mas no fundo querem dizer que amam.

1

“Eu preciso dizer que te amo” é uma das músicas mais bobas e honestas do Cazuza. Nós precisamos dizer que amamos, algumas mais, outras menos: mais em maior ou menor medida, todos amamos. E é preciso falar disso. Pensei nisso bêbada quando soube do Edvaldo: alguém ama muito o Edvaldo e escreveu na porta do banheiro feminino. Ao que tudo indica, Edvaldo se reconhece com o gênero masculino. Afinal, por que, então, alguém escreveria seu amor para que o Edvaldo nem veja?

2

É recorrente, via diferentes campos da filosofia e da sociologia, afirmar que vivemos uma era de espetacularização da própria vida. Verdade. Concordo com alguns filósofos de butiquim, inclusive, que muito do amor gritado talvez não seja o amor sentido, mas uma espécie de poder (capital sentimental, vou lançar a ideia pro Bourdieu, quem sabe). Mas por causa desse fenômeno, às vezes deixamos de lado a necessidade de verbalizar. Essa necessidade não é de hoje, tai o Edvaldo que não me deixa mentir.

3

Bentinho descobre que Capitu o amava quando a vê escrevendo no muro. Nosso mural é online. É claro que sabemos de diferentes maneiras o amor que sentimos. É claro que está na atitude da preocupação um amor tão sincero quanto um amor escancarado nas redes sociais.

Mas é preciso MESMO falar disso. As coisas só existem quando falamos dela. Essa é a grande arma do tabu: no silêncio, ele trabalha com a invisibilidade. Assim, precisamos falar de aborto, representatividade feminina e toda polêmica escondida pelo tabu.

4

Mas também precisamos falar de amor. Gritá-lo. Na porta do banheiro, no muro de casa e, porque é assim que vivemos, também via rede social. Às vezes o próprio amado nem vê aquele post (o meu não vê), mas quando eu digo o amor, ele passa a ter existência material. Existe muito amor no FB! É preciso dizê-lo para que ele exista!

ps: minha apologia ao amor escancarado não legitima a crença que o amor resolve os problemas do mundo. O amor malemá resolve nossos problemas. O mundo precisa de ética.

 

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Feminismo, Num é?, Pensamento Desvairado

Sem amor, por favor.

“Mais amor, por favor” é uma rima fofinha. Encontramos por aí sendo escrita, reescrita e divulgada na maior boa vontade. Acredito que há por trás dessa mensagem, banal e simples, boa intenção demais, alimentada pelo desespero da violência que, se não é maior hoje em dia – e não creio que seja-, ao menos é mais acessível: 1. porque é mais divulgada; 2. porque é mais reconhecida. As bases da violência têm sido denunciadas por diferentes mecanismos: sociais, culturais, artísticos. O mal todos dizem reconhecer e, como remédio, oferece-se mais amor.

Mas o amor é a melhor desculpa da violência. E não é que eu não creio que ele exista, tal como Deus – ou algo que o valha – eu o sinto diariamente, de maneira pouco explicável em palavras. Sei que aqui ele está e sei em que momentos ele se manifesta, mas eu não teria uma oração, com sujeito e predicado, capaz de defini-lo. Amor é…sei lá.

Sei, porém – e, em termos religiosos, a isso se dá o nome de “Teologia Negativa”, sei o que o amor não é: manipulação não é amor. Opressão não é amor. Imposição de modo de vida não é amor. Massacre não é amor. Intolerância não é amor.

Amor é outra coisa.

Amor é para poucos e com poucos. Não é possível amar a humanidade inteira, porque a nossa capacidade humana é absolutamente limitada, restrita e variável. Ainda nem sei se é possível amar constantemente, sem dúvida alguma, por uma vida.

O amor é efêmero e maluco. A solução não pode ser efêmera.

Por amor, justificaram-se guerras. Por amor, crimes são cometidas. Por amor, perdoa-se o machismo nosso de cada dia, que humilha quase todas (se não todas) as mulheres do mundo. Onde há uma voz sendo calada, não há amor.

Não sei o que o amor é, de verdade.  O que sei é que ele não é nenhuma via possível de vida menos sofrida. E nessa “ontologia negativa do amor”, eu não consigo vislumbrar uma melhora, ínfima que seja, no convívio humano.

Racional, compreensível e duradoura, só a ética.

Menos amor, por favor. Mais ética. Não rima, mas pouparia algumas vidas marcadas pelo ferro quente – e inesquecível – de quem ama demais.

Guerra-e-Pazse eu pudesse renomear “Guerra e Paz”, de Portinari, talvez escolhesse “Amor”

 

 

 

 

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