Feminismo

Feliz dia dos namorados!

O dia dos namorados é uma data ridícula, eu sei. É comercial, eu sei. Mas a gente não diz isso às adolescentes que, submetidas a uma força midiática imensa, e instruídas, muitas vezes, por quem reproduz esse padrão, acreditam que a felicidade está no outro.

A felicidade pode estar, sim, na relação que estabelecemos com esse outro. Porém, ela tem um vetor único: a origem deve ser você. Do amor? Idem. Não é possível amar alguém sem antes se amar. E se amar implica, devo dizer, respeitar muito você mesma.

Então, minhas queridas, o feliz dia dos namorados vai ser feliz quando namorar um rapaz mais velho não signifique ‘status’ entre seus amigos, quando fazer sexo não for uma imposição, mas uma decisão SEGURA tomada por você. O feliz dia dos namorados não vai ser quando ele lhe comprar um buquê de rosas vermelhas, mas quando ele incentivar suas decisões e permitir sua autonomia; será feliz se ele respeitar suas escolhas e não lhe impor as dele. O feliz dia dos namorados pode vir acompanhado de um jantar delicioso, no qual – atenção! – ele não espere que você aja como um bibelô que o decora. O feliz dia dos namorados não virá acompanhado de presentes, mas de lealdade. Esse dia não precisa de selfies no facebook, ele precisa não vir com exposições do seu corpo que ele trata como se fosse posse  dele. O feliz dia dos namorados é aquele em que você tem certeza que está ao seu lado alguém que a enxerga como um indivíduo pleno, autônomo e digno do maior respeito.

Não pode existir amor sem segurança. Não cedam a nenhuma pressão social. Não é que “antes só do mal acompanhada” porque vocês não estão sós.

Mary Cassatt-969943

o quadro é da Mary Cassat, sempre temos a opção de comemorar com o catiorinho

 

Anúncios
Standard
Feminismo, Sala de Aula

Não você, todos.

Depois da atrocidade que foi amplamente divulgada essa semana – e que, infelizmente, e só mais um caso dos inúmeros que existem de violência contra a mulher – escrevi um desabafo no facebook que falava da cumplicidade que há em tomar certas atitudes nessa vida. Copio na íntegra o que eu escrevi:

Se você desmerece professorA, se você faz piada sobre “lugar de mulher é…”, se você segura pelo braço da balada, se você encoxa no busão, se você viraliza nudes, se você delimita o caráter de uma mulher pela roupa, se você contribui para a indústria pornográfica, se você separa mulher entre ‘para casar’ e ‘para transar’, sinto dizer:

você é cúmplice. Não foram 30 homens, só. Foram bilhões, por 5000 anos.

Por alguns, fui amplamente apoiada, por outros, parcialmente. Por alguns homens, fui ofendida – recebi até “você é que deveria ter sido estuprada”, mas, em sua maioria, homens e mulheres (defendendo a pornografia – sobre isso já compartilhei um texto melhor do que eu poderia explicar) endossaram o coro do “não são todos os homens” ou, ao menos “não eu”.

Um, em especial, por ter sido de aluno meu, reproduzirei na íntegra:

Eu escolho com quem quero passar uma noite, ou minha vida inteira, assim como qualquer mulher tem direito de escolher. Me recuso a ser comparado com aqueles 30 animais, respeito você professora, mas dessa vez você vacilou.

Como bem marcou o comentário: eu sou professora. E posso desistir de explicar as coisas para todas as pessoas do mundo, mas eu jamais perderei a força para explicar as coisas para os meus alunos.

Mais que isso: sou professora de texto, literatura, interpretação, leitura. Então, vamos interpretar.

Ponto número um: eu usei a palavra cúmplice e não foi à toa.

Cúmplice, na leitura simplória do dicionário, pode ser definido como aquele que contribui de forma secundária para a realização de crime de outrem

Vejamos lá: obviamente que o sentido é metafórico, mas vou pressupor que o meu leitor – e talvez meu aluno, por falha minha – não saiba trabalhar com linguagem figurada. Quando dizemos que alguém não deve separar mulheres entre ‘para transar’ ou ‘para casar’ não estamos dizendo que as pessoas têm que se envolver e casar com qualquer outra pessoa, obrigatoriamente. Aliás, não queremos que você faça absolutamente nada. Na verdade, queremos que você não faça: que você fique quieto e não emita julgamentos sobre a vida sexual de uma pessoa.

Claro que você não é aquele rapaz que estuprou. Por isso, eu não disse que você é criminoso. Aliás, eu disse que era cúmplice apenas QUEM reproduzia esses padrões.

O direito é fundamental. As leis são fundamentais. Punições severas são fundamentais. Acontece que a coerção externa (o direito, a lei, a cadeia) precisam URGENTEMENTE virem acompanhadas de uma coerção interna (ética, consciência, mudança de paradigma, mudança de pensamento).

Eu já contei aqui que sou professora. Sabe o que isso significa? Que eu acredito que dá para mudar. Além de professora, sou feminista: acredito que vivo um problema cultura PASSÍVEL DE MUDANÇA. Do contrário, não lutaria. Aceitaria a derrota inata.

É claro que quando dizemos que os homens são opressores, estamos falando de uma categoria, para além do indivíduo.

Eu sei que é difícil, querido aluno e demais homens, não ser visto como um indivíduo iluminado e especial, como seus pais convenceram que você é desde sempre. Mas a sua categoria é opressora, HÁ 5000 ANOS, como eu mesma escrevi. É bem maior que você. Anterior, cultural, imenso, esmagador. É tipo a culpa pela destruição inesgotável da natureza. Não fui eu, sabe? Mas foi a minha categoria inteira de humanos que destruiu tudo.

Que tal, então, ao invés de gastar sua energia tentando me explicar o quanto NÃO é você o problema, seja um POUCO você a solução? Vai lá, seu amigo precisa de uns conselhos.

Quem vacila é ele, não eu.

post1.png

uma dica boa 🙂

 

Standard
Num é?

Foda-se

O que significa quando eu digo foda-se?

O que significa quando eu digo que não me importo com o que você acha sobre mim?

O que significa dizer: ‘aham’ e apagar exatamente toda informação escrota que você me disse?

Significa:

a) que eu não entendi o que você disse?

Não, eu entendi exatamente o que você disse. Aliás, adoraria que essa fosse a alternativa correta. Não sou eu, mas tudo quanto é filósofo já disse – mesmo os de butiquim – a ignorância é bençá!

images (2)

b) que eu não tenho sentimentos?

Não, eu tenho sentimentos pra caramba. Eu sinto demais até, sabe? Sinto tanto, dói tanto, que não confusão do que eu sinto, a única coisa que me parece uma saída conveniente ao absurdo do seu julgamento é, simplesmente, sentir.  Só sentir, mesmo. Tentando entender qual autoridade lhe foi dada para falar de algo que você não é e não conhece.

10986634_1620662058173160_5490561513329135070_n

c) que eu me acho melhor?

Não, pelo contrário. Se eu realmente me achasse um ser humano melhor que você, eu nem sequer pensaria sobre o que você disse. Aliás, se eu acreditasse que existe mesmo ser humano melhor que outro, eu seria a pessoa – que no caso é você – que está me criticando exatamente sobre eu ser um ser humano, banal, trivial, rico em experiências…como qualquer outro.

images

d) que ser uma pessoa foda-se é bacanão?

Não, é escroto ser foda-se. É ruim. É uma merda. É difícil, porque não é inato. É um processo dolorido. Você tem que ligar demais para a opinião do outro para conseguir não ligar mais. É o resultado de um processo de sofrimento que pode, se não tomar o devido cuidado, transformar você numa pessoa com dificuldade de lidar com a alteridade, fazendo com que você retroalimente o sistema que te maltratou.

e) que eu cansei?

Sim. É que, às vezes, cansa. Desde que você nasce, é estabelecido um padrão sobre tudo. E imposto. E violentado. E quem nasce meio fora desse tal padrão – aviso, nascer mulher já é um pouco isso – acaba sentindo mais rápido que a peça de tetris da vida não encaixa nesse tal de modelo. Fica um monte de espaço vazio. Lego com espaço vazio rui, já viu? Não há castelinho de cartas que se sustente…

A gente cansa tanto, mas tanto, que fica inerte. totalmente inerte. E aí tudo isso que você diz ou deixa de dizer soa como um monte de palavras que beiram o incompreensível.

wp_fodase

Daí porque nem o céu, nem as estrelas, nem o mar, nem o infinito é maior do o quanto eu

Tô pouco me fudendo.

ps: ser foda-se não é fugir da luta. É lutar a despeito do que acham dela.

Standard
Cartas d'ela., Num é?

O que eu diria pra mim, ontem.

Se pudesse me encontrar comigo, teria me dito que, não importa o quanto doesse, tudo passaria. E que, ao contrário do que eu acreditva, ainda haveria lágrima para chorar – não importa quantas já tenham rolado. Lágrima não seca nunca. Teria dito que aquele rapaz mais velho não seria boa ideia para mim tão nova. Teria dito que o vestibular nem era a prova mais importante da minha vida, nem um sofrimento idiota. Aliás, eu me diria que não há, em nenhum canto do mundo, sofrimento idiota. Sofrimento é de quem sente, e só. E que dor é solitária, por maior que seja a empatia. E que cafeína demais ia acabar comigo. Eu diria para eu comer muito queijo, porque aos vinte poucos eu me tornaria intolerante à lactose. Eu diria para eu amar mais meu corpo e as mulheres ao meu redor. Se eu me encontrasse com a Marcella, de dreads e ainda sem tatuagem, eu teria dito que o rumo da vida dela não dizia respeito a absolutamente ninguém. Eu pediria que ela parasse de esperar a aprovação dos outros e que, em contrapartida, não cobrasse atenção deles.Viver, mesmo para a pessoa feliz que eu fui e sou, é um ato solitário. Porque a empatia faz parte, mas a experiência é monstro faminto: ela se alimenta um pouco de dor, um pouco de ingenuidade. Eu não falaria mal de quem me desse presentes que não me agradavam e agradeceria a sorte de ter quem me desse presentes. Eu, se pudesse voltar uns dez anos, daria um tapa na minha cara toda vez que eu tratei mal um professor porque subestimava seu empenho. Em contrapartida, teria saído da aula da minha professora racista ao invés de só me constranger com a sua piada e fingir que não entendia. Eu teria pedido ao professor de matemática que não me desse tanta predileção, e avisaria que eu não gostava do apelido carinhoso que ele me dera. Marcella dos 15, diria eu, guarde algumas dessas peças de roupa, elas vão incrivelmente voltar à moda. Não cole com cola print seu pôster favorito. Não, não rasgue as fotos dos seus exs, você gostaria de revê-las anos depois.

Eu teria menos medo do escuro e mais medo de quem está no escuro. Eu teria reprimido menos o desejo que sempre tive de dar aula. Saberia, como sei hoje, que a gente já é, lá desde sempre, o que a gente vai vir a ser: numa versão mais mal vestida e com a pele melhor. Ah, diria também às amigas e colegas que eu as respeito e admiro e não ficaria tão assustada com a gravidez adolescente de uma delas. Teria dado mais apoio. Teria dado mais carinho. Se eu pudesse voltar aos meus 15 anos, eu não me sentiria estranha por ser a última das minhas amigas a beijar e nem me sentiria mal por ter 10 cm a mais de altura e uns 40 de quadril. Se eu pudesse me encontrar comigo mesma aos 15 anos eu daria um demorado e longo abraço e teria paciência comigo mesma. Se eu pudesse mudar o passado, eu me daria mais conforto e as mesmas esperanças; se eu pudesse planejar o futuro, desejaria, aos 26, não decepcionar a Marcella dos 36.

Aos 25, aos 25, aos 3.

Aos 25, aos 15, aos 3.

Standard

Ando em crise com o mundo, papai. Algumas pessoas não são sinceras comigo; aqui e lá, descubro o que de fato elas pensam de mim enquanto sorriem e me perguntam se eu estou bem. Sou dessas pessoas desagradáveis que responde a verdade: “tudo bem?”; “não, uma bosta”. Não minto bem. Não consigo sorrir com os olhos e vomitar dores pela boca; menos ainda sorrir enquanto meus olhos se afogam em lágrimas. De todos os defeitos que tenho – inclusive entre aqueles listados pelas pessoas que preferem dialogar com as minhas costas do que com minha fronte – o pior deles é esse. E a culpa foi sua, pai. Você me ensinou, diariamente, que eu não deveria mentir. Eu me lembro muito bem de uma tarde na primeira série em que eu fui chamada na diretoria. E você também foi. Eu havia sido culpada pelo seguinte diálogo

“por que você tirou 10 e eu 7?”

“porque eu fiz direito a prova e você não”

Parece que a menina chorou tanto, mas tanto, que você foi chamado. Lembro de você impedir a diretora de me dar bronca por isso: “ela não mentiu”; você me levou embora contigo e me explicou que algumas pessoas não aguentam a verdade. Ainda assim, era a verdade que deveria prevalecer, ao menos dentro da gente.

Tenho um pouco de dificuldade ainda em guardar para mim ‘a verdade’ – que hoje, sei, que é a minha verdade. Tento, em nome da cordialidade, espalhar por aí as mentiras sinceras que os interessam. Sabe, pai, tem uma galera por aí que prefere que a gente minta. Eu não minto, não. Mas – a duras penas e perdendo amizade – eu estou aprendendo a me calar mais. Ainda assim, não tolero mentiras: prefiro a ofensa mais dolorida dita para mim, do que um comentário só sutilmente maldoso dito às escuras.

Por isso tudo, eu te culpo, Pai. Foi sua culpa também o fato de eu saber exatamente o que eu penso; exatamente o que eu sinto. Por sua culpa, ninguém que está ao meu lado tem meu rancor, porque, por sua culpa, eu me afasto sempre de quem espera a falsidade. Por sua culpa, meu tão querido pai, eu não invento sobre a minha vida. Não fantasio o que não acontece. Não iludo as pessoas. Não fico criando um mundo fictício de cordialidade. E se o meu dia foi ruim, eu respondo que foi. E se eu não me interesse em saber como vai alguém, eu não pergunto como vai alguém. E mesmo se um aluno me perguntar o que eu acho do desempenho dele…Eu digo o que acho, por mais dolorido que seja.

Não culpo as pessoas que não o fazem. Não culpo o sorriso falso que às vezes fica ao lado do meu. Pode ser que a nota 7 da menina não fosse culpa dela. Pode ser que eu não fiz direito a prova. Pode ser que eu não merecia dez. Mas ela me perguntou o que eu achava; e o que eu acho é o que eu tenho a dizer. E o que eu tenho a dizer deverá, sob qualquer circunstância, ser honesto. Rezo que essa lógica volte para mim. Que a verdade dos outros (porque, reitero, não existe uma verdade absoluta) me seja dita. Que eu possa ouvir e responder. Que haja diálogo: não cabe diálogo onde não entra a verdade.

Ainda assim, sei de uma verdade importante: não vai ser assim. Isso porque algumas pessoas sempre continuarão mentindo. Não as odeio, não, pai, de verdade. Elas tiveram que seguir exemplos diferentes dos meus. Que a sorte a minha poder ter você para culpar. Obrigada, papai.

IMG_0706

Cartas d'ela.

Foi sua culpa, pai.

Não as odeio, não, pai, de verdade. Elas tiveram que seguir exemplos diferentes dos meus. Que a sorte a minha poder ter você para culpar. Obrigada, papai.

Imagem
Feminismo, Num é?, Uncategorized

a amiga do meu namorado é minha amiga também.

A amiga da sua amiga pode ser sua amiga. A amiga do seu namorado pode ser sua amiga. A ex-peguete do seu namorado pode ser sua amiga. A atual do seu ex pode ser sua amiga. A namorada do seu irmão pode ser sua amiga. A irmã do seu namorado também. A sua sogra pode ser sua amiga. As primas do seu namorado podem ser sua amiga. A sua nora também. As alunas do seu namorado também. A chefe dele, a estagiária ou a dentista. Ah, as suas alunas também.

Não precisa necessariamente, porque a vida tem mil variáveis. Mas pode.

Uma das grandes armas do patriarcado foi ter posto as mulheres em competição. Objetificadas e sem poder, deveríamos competir para conseguir a atenção do sujeito da ação: o homem.

Os filmes nos ensinam que toda princesa ganha o príncipe de outra mulher (claro que temos recentes exceções, belíssima Malévola). As mães dão esse exemplo, quando odeiam a secretária do marido. Os professores fazem piadas sobre isso. A TV cria novelas cuja trama toda se passa sobre a competição entre mulheres. Usamos o possessivo em fotos do facebook “ele é meu”. E queremos tirar do nosso objeto de amor a possibilidade linda – e maravilhosa – de uma amizade.

Não tenho ciúmes das amigas do meu namorado, mas tive, por anos, das novas amigas das minhas amigas. Há um tempo eu descobri a idiotice disso, e passei a me esforçar sobremaneira para conhecer – e depois amar – as amigas das minhas amigas. A lógica que esquecemos é tão importante: se alguém que eu amo ama aquela pessoa, é mais provável que eu goste do que desgoste dela.

E, desde então, venho ganhado amigas todos os dias.

Nesse dia do amigo, fica um pedido: que seja dia da amiga, acima de tudo. Se você gosta tanto assim do seu namorado, a ponto de achar que ele tem que ser só seu e de mais ninguém, talvez você esteja se esquecendo de amar outra pessoa: você mesma.

Abrace uma amiga hoje. De longe ou de pertinho. E para as minhas amigas: aquele beijo borrocado de batom.

fauvismo

Standard
Tra-lá-lá

a diferença entre querer e dever.

Querer é diferente de poder, já nos disseram. Acontece que o que não nos é dito é que não e essa a grande questão, mas a diferença entre querer e dever. Porque poder, com um certo esforço – e salvo raras exceções – a gente quase sempre pode tudo (estou falando de atitudes, não de chorar lágrimas de petróleo ou comer sem engordar). A gente pode muita coisa: ser cruel, ser negligente, ser preguiçoso, ser ausente, ser recluso. E quando é que o que a gente quer é o que a gente deveria querer? Raríssimas vezes. Ao longo da vida, optamos ora pelo desejo, ora pelo dever. E talvez uma das definições de felicidade seja a incrível – e rara – coincidência entre querer e dever. Todo mundo sente que é um momento especial quando isso acontece.

csm_Joan-Mir-Mulher-na-Noite-1973-Successi-n-Mir-Mir-Joan-AUTVIS-Brasil-2015_1e61324519

Outro momento marcante a vida é quando optamos pelo dever, em detrimento do querer, por maturidade. Talvez seja por isso que crescer dói tanto. Por um certo período de tempo, nossos pais se responsabilizam por ser objeto de negação, enquanto nós seguimos apenas desejosos de tudo que nos parece interessante em algum aspecto. A idade, então, dá a dimensão de algo que era exterior – as consequências. Antes, sofríamos as consequências externas de não fazer o que deveríamos – castigo, briga, bronca. Agora: é sentir, no que há de mais interno na gente, que isso não pode. Evidentemente, isso não descarta que a vida, hora ou outra, esbofeteie a nossa cara. E também nos afague, porque é preciso um pouco de carinho.

Optar não fazer algo que se tem desejo, mas não deve é uma escolha difícil e é bastante provável, enfim, que essa seja a prova mais dura da vida adulta. Mas não sempre, não em todas as escolhas: se a gente não tentar seguir o desejo, como teremos o prazer de lidar com algumas deliciosas consequências?

Standard