Pensamento Desvairado

Pensamento Desvairado 3

Ela carrega entre os seios um segredo que não pode contar pra ninguém. No meio do decote perfumado, fica um pedaço de papel amassado escrito o motivo pelo qual ela hoje está aqui. Quando o tempo esquenta, Ela transpira e transforma esse intervalo entre os seios em um pequeno oásis no qual Ele, ávido, pretende chegar, ultrapassando suas pernas, sua barriga e buscando a primeira gota de água que lhe cabe daquele suor.

Quando Ela cansa de guardar o seu segredo, abre o soutien e o joga bem longe. O pequeno pedaço de papel desprende-se da pele quente e rola: primeiro pelas costelas, depois pela barriga, fazendo uma pequena curva enquanto passa pelo umbigo. O papel segue seu caminho pela sua bacia, pela virilha, pelas coxas, roçando a sua mancha da coxa esquerda, passando pela cicatriz do joelho, pela tatuagem da perna esquerda, pelo peito do pé, pelos dedos; no dedo e no chão.

Quem vê a patética cena fica se perguntando o porquê d’Ela de guardar um segredo assim, sem sete chaves, em um lugar quase exposto ao sol. Ela nunca responde e sorri, redobrando mais uma vez o velho papelzinho, que às vezes fica em forma de pergaminho e outras em forma de envelope, dando-lhe leves cócegas quando, por acaso, encosta-lhe o mamilo.

O pedaço de papel escrito só é lido por Ele, nas noites quase escuras em que ele aparece no quarto dela. O papel é sempre aberto delicadamente, por medo que rasgue, afinal, em teoria, é um segredo. Quando Ele chega, Ela logo tira a blusa abaixando o tronco e oferecendo seios a ele, como a pedir que por favor tirasse do peito dela aquela responsabilidade. E

assim o faz. Ele tira o papel, abre e lê despreocupadamente. Amassa e lança longe enquanto segue beijando o pequeno risco que o papel, depois de horas, deixa entre os seios dela. Depois de beijá-La meticulosamente, sobe a sua boca até a altura da boca dela e, em forma de um gemido surdo, pede desculpa por não ter vindo antes e por ter jogado fora seu segredo. Não obstante, lembra-a de mais uma coisa: aquilo, Ele sempre soubera.Rosa&Val-61

Fotografia: Giovanna Romaro Fotografia

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Tra-lá-lá

a diferença entre querer e dever.

Querer é diferente de poder, já nos disseram. Acontece que o que não nos é dito é que não e essa a grande questão, mas a diferença entre querer e dever. Porque poder, com um certo esforço – e salvo raras exceções – a gente quase sempre pode tudo (estou falando de atitudes, não de chorar lágrimas de petróleo ou comer sem engordar). A gente pode muita coisa: ser cruel, ser negligente, ser preguiçoso, ser ausente, ser recluso. E quando é que o que a gente quer é o que a gente deveria querer? Raríssimas vezes. Ao longo da vida, optamos ora pelo desejo, ora pelo dever. E talvez uma das definições de felicidade seja a incrível – e rara – coincidência entre querer e dever. Todo mundo sente que é um momento especial quando isso acontece.

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Outro momento marcante a vida é quando optamos pelo dever, em detrimento do querer, por maturidade. Talvez seja por isso que crescer dói tanto. Por um certo período de tempo, nossos pais se responsabilizam por ser objeto de negação, enquanto nós seguimos apenas desejosos de tudo que nos parece interessante em algum aspecto. A idade, então, dá a dimensão de algo que era exterior – as consequências. Antes, sofríamos as consequências externas de não fazer o que deveríamos – castigo, briga, bronca. Agora: é sentir, no que há de mais interno na gente, que isso não pode. Evidentemente, isso não descarta que a vida, hora ou outra, esbofeteie a nossa cara. E também nos afague, porque é preciso um pouco de carinho.

Optar não fazer algo que se tem desejo, mas não deve é uma escolha difícil e é bastante provável, enfim, que essa seja a prova mais dura da vida adulta. Mas não sempre, não em todas as escolhas: se a gente não tentar seguir o desejo, como teremos o prazer de lidar com algumas deliciosas consequências?

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