Tra-lá-lá

a diferença entre querer e dever.

Querer é diferente de poder, já nos disseram. Acontece que o que não nos é dito é que não e essa a grande questão, mas a diferença entre querer e dever. Porque poder, com um certo esforço – e salvo raras exceções – a gente quase sempre pode tudo (estou falando de atitudes, não de chorar lágrimas de petróleo ou comer sem engordar). A gente pode muita coisa: ser cruel, ser negligente, ser preguiçoso, ser ausente, ser recluso. E quando é que o que a gente quer é o que a gente deveria querer? Raríssimas vezes. Ao longo da vida, optamos ora pelo desejo, ora pelo dever. E talvez uma das definições de felicidade seja a incrível – e rara – coincidência entre querer e dever. Todo mundo sente que é um momento especial quando isso acontece.

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Outro momento marcante a vida é quando optamos pelo dever, em detrimento do querer, por maturidade. Talvez seja por isso que crescer dói tanto. Por um certo período de tempo, nossos pais se responsabilizam por ser objeto de negação, enquanto nós seguimos apenas desejosos de tudo que nos parece interessante em algum aspecto. A idade, então, dá a dimensão de algo que era exterior – as consequências. Antes, sofríamos as consequências externas de não fazer o que deveríamos – castigo, briga, bronca. Agora: é sentir, no que há de mais interno na gente, que isso não pode. Evidentemente, isso não descarta que a vida, hora ou outra, esbofeteie a nossa cara. E também nos afague, porque é preciso um pouco de carinho.

Optar não fazer algo que se tem desejo, mas não deve é uma escolha difícil e é bastante provável, enfim, que essa seja a prova mais dura da vida adulta. Mas não sempre, não em todas as escolhas: se a gente não tentar seguir o desejo, como teremos o prazer de lidar com algumas deliciosas consequências?

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