Cartas d'ela., Num é?

O que eu diria pra mim, ontem.

Se pudesse me encontrar comigo, teria me dito que, não importa o quanto doesse, tudo passaria. E que, ao contrário do que eu acreditva, ainda haveria lágrima para chorar – não importa quantas já tenham rolado. Lágrima não seca nunca. Teria dito que aquele rapaz mais velho não seria boa ideia para mim tão nova. Teria dito que o vestibular nem era a prova mais importante da minha vida, nem um sofrimento idiota. Aliás, eu me diria que não há, em nenhum canto do mundo, sofrimento idiota. Sofrimento é de quem sente, e só. E que dor é solitária, por maior que seja a empatia. E que cafeína demais ia acabar comigo. Eu diria para eu comer muito queijo, porque aos vinte poucos eu me tornaria intolerante à lactose. Eu diria para eu amar mais meu corpo e as mulheres ao meu redor. Se eu me encontrasse com a Marcella, de dreads e ainda sem tatuagem, eu teria dito que o rumo da vida dela não dizia respeito a absolutamente ninguém. Eu pediria que ela parasse de esperar a aprovação dos outros e que, em contrapartida, não cobrasse atenção deles.Viver, mesmo para a pessoa feliz que eu fui e sou, é um ato solitário. Porque a empatia faz parte, mas a experiência é monstro faminto: ela se alimenta um pouco de dor, um pouco de ingenuidade. Eu não falaria mal de quem me desse presentes que não me agradavam e agradeceria a sorte de ter quem me desse presentes. Eu, se pudesse voltar uns dez anos, daria um tapa na minha cara toda vez que eu tratei mal um professor porque subestimava seu empenho. Em contrapartida, teria saído da aula da minha professora racista ao invés de só me constranger com a sua piada e fingir que não entendia. Eu teria pedido ao professor de matemática que não me desse tanta predileção, e avisaria que eu não gostava do apelido carinhoso que ele me dera. Marcella dos 15, diria eu, guarde algumas dessas peças de roupa, elas vão incrivelmente voltar à moda. Não cole com cola print seu pôster favorito. Não, não rasgue as fotos dos seus exs, você gostaria de revê-las anos depois.

Eu teria menos medo do escuro e mais medo de quem está no escuro. Eu teria reprimido menos o desejo que sempre tive de dar aula. Saberia, como sei hoje, que a gente já é, lá desde sempre, o que a gente vai vir a ser: numa versão mais mal vestida e com a pele melhor. Ah, diria também às amigas e colegas que eu as respeito e admiro e não ficaria tão assustada com a gravidez adolescente de uma delas. Teria dado mais apoio. Teria dado mais carinho. Se eu pudesse voltar aos meus 15 anos, eu não me sentiria estranha por ser a última das minhas amigas a beijar e nem me sentiria mal por ter 10 cm a mais de altura e uns 40 de quadril. Se eu pudesse me encontrar comigo mesma aos 15 anos eu daria um demorado e longo abraço e teria paciência comigo mesma. Se eu pudesse mudar o passado, eu me daria mais conforto e as mesmas esperanças; se eu pudesse planejar o futuro, desejaria, aos 26, não decepcionar a Marcella dos 36.

Aos 25, aos 25, aos 3.

Aos 25, aos 15, aos 3.

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Tra-lá-lá

12 de junho.

Abro as redes sociais:

Gosto de vocês juntos. Gosto do seu sorriso olhando o sorriso dela. Acho bonito que ele mostra os dentes, e ele sorri só com os lábios. Legal ver os dedos cruzados. Bonita foto com as tatuagens. Tanto amor entre as duas. Tanta beleza nos abraços. Gosto até dos textos semi-ridículos e sem concordância que são produzidos por aí.

Gosto do amor que invade. Gosto das comidas. Gosto das flores. Não gosto tanto das cestas, mas gosto também.

E as legendas:

Não poderia viver sem ela? Na verdade, poderia.

Não saberia como seriam seus dias sem ele? Seriam dias, com horas e minutos e segundos.

Precisa dele para ser feliz? Não, não precisa.

Então o que move o mundo a se meter em diferentes relacionamentos, a dois, a três, a seis, e não a sós? Se a gente não precisa – e ninguém precisa – o que há nesse esforço sincero (não de todos, eu sei) em dividir a vida? Acho que alguns amores são a contra resposta ao mundo violento. Amor é a coisa menos lucrativa do mundo (amor, não necessariamente casamento); menos óbvia, e pouco funcional. Afinal, para que ficar junto?

Não tem para que, porque não tem finalidade. Só finalidade em si.

Não tem por que, porque nenhuma justificativa daria conta. E os esforços em justificar geram belíssimos poemas ou breguíssimas declarações. O amor, oposto do individualismo. Como pode insistir?

E na contramão do utilitarismo: amar é um pouco inútil. E na contramão do determinismo violento: amar é uma opção.

Minha opção :)

Minha opção 🙂

O amor, essa coisa bonita, é a melhor – e mais curiosa – expressão do livre arbítrio.

Que se comemore, todos os dias, a opção. E que, tendo optado, nunca ninguém o impeça de acontecer.

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Tra-lá-lá

Manuel de sobrevivência do casal feliz OU de como a xuxa também caga.

“A Xuxa também caga” é uma pichação que tem num muro bem perto de onde eu moro. Ela já está lá há pelo menos 8 anos, mas sempre me encanta pela sua genialidade. Talvez ela não toque tanto os adolescentes atuais que veem a Xuxa com um olhar mais defasado, mas aplique isso à Sasha, a Gabriela Pugliese, ou qualquer bloggueira da moda e você terá o mesmo efeito: é preciso lembrar que no fim, como diria o protagonista do filme “Eu sei que vou te amar”(1989): somos todos tubos processadores de merda.
A função dessa lembrança é simples: se a Sandy caga (dessa até eu duvido, mas é uma mácula de quem cresceu nos anos 90) é porque ela tem muitos outros defeitos os quais desconhecemos.
Eu sei o quão óbvio isso parece, mas o crescimento das redes sociais tornou inatingíveis pessoas que nos deveriam parecer próximas e reais.
E, sinceramente, eu não me importo tanto com esse crescimento absurdo da mentira deslavada. Todo mundo sabe que é mentira que a Xuxa usa Monange e que as bloggueiras “comem de tudo” porque “tem metabolismo acelerado naturalmente”. Todo mundo sabe que as panicats não ganharam tantos músculos com batata doce. Todo mundo sabe. E esse tipo de mentira nem me incomoda tanto, ela beira o pitoresco e me diverte.

Xuxa-Monange

Certeza que a Xuxa esquece de passar hidratante depois do banho, às vezes.

O problema é o que eu vejo acontecer especialmente em relação à ideia de felicidade.
Vejam só: eu sou gordinha, totalmente fora do padrão estético, não sou famosa e tudo que eu tenho de “público” são os meus alunos – cerca de 400 por ano. Considerando que metade deles me detesta, isso reduz consideravelmente minha “””””influência””””” e, mesmo assim, minhas alunas, especialmente as mais novas, idolatram alguma atitude minha, foto, viagem etc como se fosse o ápice da felicidade.
Eu acho bonitinho. O problema é que eu adoro essas meninas e vejo nelas um sofrimento que não deveria estar ali.
‘Ai, professora sua pele é perfeita’. E eu respondo sempre ‘Eu tenho 25 anos e você 14. Ninguém tem a pele perfeita aos 14 anos’
‘Ai, professora, queria saber tanto de X – qualquer assunto que as interesse – quanto você”
‘eu tenho 25 anos e você 16, é natural que eu entenda mais disso’
‘Ai, professora, queria me sentir segura como você’
‘Eu já me ferrei uma adolescência inteira até me sentir segura. Logo você descobre como fazer isso’

‘Ai, professora. Você e seu namorado parecem de conto-de-fadas’

DSC05679

Eu e meu namorado perfeito numa foto perfeita na viagem perfeita. Eu tive a maior dor de barriga da história nesse dia.

E isso são alguns pouquíssimos exemplos. E isso prolonga o sofrimento. E não se reduz às adolescentes.
Quando vemos famosos fantasiados de casais perfeitos já nos sentimos socialmente pressionados a ser um casal perfeito. Pior: hoje em dia, qualquer subcelebridade sustenta a imagem de amor perfeito e violenta os sonhos de cada casal que se forma por ai.
A lógica é simples e já foi denunciada por muitos, bem antes de mim: eu seleciono o que te mostro, porque você não tem acesso a minha vida completa. E pronto. O que eu te mostro é um mundo de felicidade que você não vive. E veja: nem acho que esses perfis que revelam a vida perfeita dos casais perfeitos no mundo perfeito devam ser abolidos e crucificados. Eles estarão ali sempre, de uma maneira ou de outra – antes do instagram, já tinham as revistas, e os contos e as pinturas rupestres de casais perfeitos. Lembrando que: heterossexuais, brancos e magros. Que senão a inveja fica pela metade.
Enfim, eu só acho muito violento que vocês insistam em reproduzir uma lógica cruel e inatingível dessa em casa. “Amor, o namorado da Maricotinha cozinha comidas saudáveis para ela todos os dias, olha as fotos. E você trazendo pizza pra mim…” Eu ouvi esse comentário por ai. Olhei bem pra cara do rapaz, que tinha trabalhado o dia inteiro e pensei que crueldade era aquele pedido.
Daí eu me lembrei que podia sair dele o desejo de que a namorada fosse sempre linda, cheirosa e bem vestida. E que ela não reclamasse. E que ela fosse assim e assado, como a tal Maricotinha. Reproduzindo a lógica machista disfarçada de vida saudável e feliz.
Acontece que os casais perfeitos discutem, se irritam. Ninguém tem borboletas no estômago o tempo todo – a não ser que seja diarreia..

Ninguém não briga. Ninguém sorri o tempo todo. A Xuxa também tinha – acho que não mais – tpm. O George Clooney também não quer transar toda noite. A Natalie Portman não discute só assuntos interessantes o tempo todo. O anel de noivado da Lady Gaga é lindo, mas ela também já brigou com o noivo pelo canal da televisão.
E acima de tudo, é preciso lembrar que todos eles cagam: inclusive no relacionamento, tratando mal aqueles que amam. Porque somos naturalmente errados. É porque isso é normal.
Não tenha tanto medo de ser normal. Aliás, é uma delícia ser normal.

ps: fuja de textos que te digam como é a mulher perfeita e o homem perfeito. Acontece que cada um gosta de um jeito. Eu juro.

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