Num é?, Sala de Aula

Da paixão e da gripe…

Não sei se todo mundo aqui sabe, mas professor também faz uns outros bicos além de dar aula – que não é bem trabalhar, né? – nessa vida. Por exemplo, eu sou consultora de moda dxs alunxs, conselheira amorosa e apoio para quaisquer tretas.

Tem hora, confesso pr’ocês, que eu preferia responder sobre o existencialismo sartriano do que explicar por que, afinal, o fulaninho deu um pé na bunda do ciclaninho, que é tão lindo, meigo, maravilhoso. Eu não sei o que dizer: “eu jamais terminaria com você” é minha reposta clássica. Mas a vida, babys meus, é mais que só o que a gente pensa que faria…

Esse texto – saia daqui se você é velho amargurado – é uma explicação leve sobre uma coisa que vai acontecer muitas e muitas vezes na vida dos meus alunxs (e na minha também): a marvada da paixão.

A maioria está conhecendo essa coisa linda pela primeira vez: coração acelerado, perda de apetite, saudade 5 minutos depois de ver a pessoa, vício, abstinência, enxergar a cara dela até no arroz (e no feijão também). Eu, que sou macaca velha, ainda tenho esses sintomas. Que dirá os meus pimpolhos?

Daí que eu trombo com essas caras apaixonadas pra cá e pra lá (e tem coisa mais linda quando isso daí é recíproco e a gente tem a impressão que só cabe nóis doisinhos no mundim todo?); eventualmente, porém, trombo com a carinha de tristeza…

Eu queria explicar pra vocês que paixão, gente, é que nem gripe: a gente até toma uns remédios para disfarçar os sintomas, mas só o tempo cura. Igualzinho gripe, mesmo que você já tenha pego naquele mês, ela dá um jeito de mudar de vírus e te pegar de novo. E machuca, dói, arde, esquenta, esfria, inflama, dá febre, dá piriri, dá de tudo.

A gripe chega na gente quando a resistência cai; a paixão quando a guarda baixa. Elas tiram o nosso sono e deixam a gente meio fora do eixo, mesmo. E não dá muito pra lutar contra, é mais fácil deixar levar, ir na mesma toada, ao invés de brigar com algo que, enfim, tem seu ciclo e sempre vence a gente…

Claro que paixão tem uma vantagem e uma desvantagem sobre a gripe. A vantagem é a parte boa e a possibilidade da reciprocidade (já acordou pra fazer xixi e tinha uma mensagem que não tinha nada, só vontade de dizer algo?); a parte ruim é que ela às vezes marca a alma da gente pra sempre, até quando passa – tipo marquinha de catapora. Mas sabe? Isso faz da gente o que a gente é. Com medo das marcas, uma galera não se apaixona. Euzinha, meuzamô, deixo marcar memo: ainda arranco a casquinha pra ver se dói mais um pouquinho… Tem doido pra tudo, né?

Apesar disso tudo, uma coisa você pode ter certeza: e você alimentar a paixão, ela guenta um tempão, daí nem parece gripe, fica tipo lombriga, verme etc. E dá cada vez mais fome de mais e mais paixão. A gente nunca fica satisfeito e é uma delícia. Porém, se você deixar a paixão pra lá, uma hora ela passa, eu prometo. Aos poucos a febre vai embora, depois você já não tosse. De repente, o nariz parou de escorrer (os olhos também) e tcharã: você já tá pronto pra correr na chuva…

Resultado de imagem para portinari

…e trombar com outro vírus poderoso por aí.

(paixão pode doer – igual gripe – mas lembra sempre que a gente tá é vivo!)

 

 

 

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Adiós

Gênesis

Primeiro dia: cheiro ainda está lá. Cobre manta, cobre blusas, toma o ar todo e faz tudo funcionar. Ela sorriu e viu que a lembrança era boa. Houve um afago e um carinho. Segundo dia: o cheiro é só uma nota que pincela o ar, mas a imagem permanece intacta:  em câmera lenta, ela revive o movimento do seu sorriso e como ele cresce mais de uma lado do que do outro, fazendo o movimento de uma onda. Por cima dele, seu bigode, ainda ralo. Lembrando, ela franze a testa porque sente cócega que ele faria tentando beijar o seu pescoço. Ela lembrou e viu que a lembrança era boa. Houve uma mensagem e um apagamento. Terceiro dia: não tem mais cheiro, o bigode virou uma sombra. Mas quando ela cerra as pálpebras, deitada na cama, o tato ainda permanece. Ela ainda pode sentir o toque da sua mão descendo suas costas e o jeito com que você engloba sua lombar ao dormir. Ela lembrou e viu que a lembrança era boa. Houve um copo e um cochilo. Quarto dia: distraída das coisas da vida, precisou de alguns minutos para relembrar qual das canecas ele preferia.  Tomou nas duas, por via das dúvidas, o café predileto. Dela ou dele? Houve um gole e um pedaço. Ela viu que a lembrança já não era tão boa. Quinto dia: passando despercebida, trombou com o espelho. Aproximou-se. Olhou bem nos próprios olhos e na própria boca. Por um milésimo de segundo viu outros olhos. Piscou. Abriu. Piscou. Passou o rímel e foi embora. Houve um batom e um suspiro. Sexto dia: achou uma camiseta. Não soube o que fazer com ela. Das três toalhas do banheiro, só precisava de duas. A cadeira à frente abrigava uma bolsa. Houve uma lágrima e um sorriso. Ela viu que não havia mais lembrança.

No sétimo dia, ela descansou.

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Adiós

micro-falha-história-de-amor

Você veio, pegou na cintura, sussurrou no ouvido. Ela sorriu, tirou sua mão da cintura dela, falou olhando no seu olho, pra ver se o reflexo dela na lente do seu óculos dizia que ela tava bonita. Você ofereceu um drink, ela aceitou. Ela ofereceu a boca, você beijou. Tinha tudo pra rolar. Rolou. Você podia não ter enrolado ela, mas enrolou. Prometeu, desprometeu, jurou pela mãe morta, depois contou que era orfão. Ela disse que não ligava, mas por que mesmo você não percebeu que era mentira? Sim, ela ligava. Sim, ela chorou e foi muito atriz quando disse que não queria mais te ver. Mas todo palco fecha a cortina. E depois que ela fechou a dela, voltou pro seu abraço se sentindo tão sozinha. Você prometeu, desprometeu. E ela fingiu que acreditou. Mais uma vez. Você fez tudo de novo, ela sabia como ia acontecer. Ela tinha escrito aquele final. Vocês dois juntos, não se suportando mais. Vocês dois separados, não suportando mais a distância.

La Dolce Vita

texto antigo, republicado, revivido, relatado.

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Poeminto

Condicionais.

E se ela não ligasse

E se ela não chegasse

E se ela não esperasse

Você o faria?

E se ela se negasse

E se ela repetisse

E se ela te odiasse

(E se ela sequer te visse)

Você sentiria?

E se ela por ali saísse

E se ela por um acaso fugisse

E se ela de repente sentisse

Você saberia?

E se ela despertasse

E se ela sorrisse

E se ela te escrevesse

Você a leria?

E se ela, enfim, reconhecesse

E se ela, no fim, vivesse

E se ela, por fim, te esquecesse

Você existiria?

Vit. Samotrácia

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Cartas d'ela.

Aquele elástico

Quando criança, ela brincava de elástico. Uma de um lado, uma de outro, e a força que as unia era a força do látex e do amor que ambas sentiam. Elástico. Pulo. Elástico. Era divertido. Era ali, só as duas.

O relacionamento delas era como um elástico. Todo relacionamento é como um elástico: segura duas pessoas unidas; se uma puxa demais, a outra sente. Elástico – e amor – precisa de equilíbrio e de cuidado. Qualquer movimento brusco pode machucar aquela que – por loucura, coragem ou sorte – é a outra ponta… Aliás, elástico parado não estraga, não afrouxa: se por ventura vai, volta.

Ali, no entanto, a coisa ia e voltava demais. Quanto mais ia, mais voltava. Elástico gasto foi ficando frouxo. Não ia mais e nem voltava. Faltava látex e faltava amor.

O que faltava de amor, no entanto, sobrava em apego. Coisa difícil essa de largar o elástico frouxo. Esse elástico que tá com gente há tantos anos e que, não poucas vezes, foi a força que nos moveu a ir e voltar.  O elástico – inutilizado, mas não inútil – perdia seu sentido entre as pernas das meninas. Já não se brincava por ali, já não se amava acolá.

Nem tudo que ia, agora, voltava. E o fio inesticável que unia as duas, quase invisível, sustentava uma história de idas e não mais vindas: de um amor que saiu para passear e mandou a saudade avisar que não voltaria…

portinari

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Cartas d'ela.

A tua presença.

Te vejo aqui, na minha frente. Eu posso te tocar e é como se você escapasse infinitamente. Quem é você, agora, para mim? Eu não te reconheço mais e não é por culpa tua. Fecho os olhos e toco o teu rosto e sua expressão de nojo enfia uma faca na minha cervical. Eu não posso continuar andando assim. Eu perdi, enfim, os movimentos. Não sinto minhas pernas, não sinto os meus braços. Só os meus olhos se movem e eu não sinto absolutamente nada. A dor passou. Eu não sinto nada além da tua presença. Como se você me lembrasse todos os minutos do meu dia que eu sou isso: olhos que se movem e que não podem fazer nada. Nem se levantar, menos ainda seguir em frente. E, por favor, não me olha assim. Esses teus olhos tem um formato que me convenceram por muitos dias que era paixão. Talvez um dia tenha sido. Hoje, no entanto, vendo assim de tão perto esses teus olhos é como se você dissesse o quanto sente pena de mim. Da minha triste e equivocada existência e da falsa força com que carrego tudo que às vezes desaba sobre os meus ombros. Meus ombros, agora, não carregarão mais nada além de alguns olhares de condolência.
Você, que é infinitamente bom, gentil e altruísta, vai me socorrer. Você vai tentar me colocar de novo de pé. Mas eu não tenho as pernas mais, lembra? Eu não tenho os braços. Perdida a cervical, eu não sou mais nada. Eu nem posso mais correr em busca de qualquer coisa que me console da pessoa que eu me tornei. Talvez esse seja o meu castigo eterno: sentir a dor do mundo dentro de mim e seguir anestesiada, imóvel. Eu correria até você agora e diria o quanto eu ainda te amo, o quanto eu ainda te quero. Mas eu não posso correr, eu não posso sequer te abraçar. Eu vou seguir parada aqui, esperando você voltar. Sigo, a partir de agora, sem falar nada enquanto os meus olhos procurarão em volta a única coisa que ainda me mantém viva: a tua presença.
Esse texto estava guardado nos meus escritos. Agora virão todos à tona…
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Cartas d'ela.

Eu que te imaginava.

Porque eu te imaginava mais forte, dei sonhos meus para você cuidar e me esqueci que os sonhos dos outros não pesam e o que você fez o tempo todo foi fingir que os segurava pelas mãos.

Porque eu te imaginava mais sincero, acreditei quando você pediu que eu confiasse em você e te apresentei meu lado mais frágil, incômodo e obscuro.

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Porque eu te imaginava mais doce, inclui seus olhos lindos em todas as visões de felicidade que criei e me esqueci que, não raro, os olhos fecham – até mesmo para a felicidade.

Porque eu te imaginava mais sólido, não vi que você, na verdade, sempre me escapou, escorregando entre as frestas que vida colocava – cá e acolá – entre os nossos passos, quase sempre descompassados.

Porque eu te julgava mais aqui, não vi (não quis ver) que talvez o aqui tenha sido qualquer lugar – onde você nunca esteve.

Porque eu imaginava mais nós do que você qualquer dia já imaginou, eu criei um mundo só para nós dois. Quem criou foi eu. Eu, essa daí que imaginava. Pode ir embora com o sorriso tranquilo e descompromissado com o qual um dia você chegou: a culpa nunca foi sua.

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